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Encontro de gerações ou Com quantas pessoas se faz um círculo?
PublishNews, Marcio Coelho*, 23/11/2017
Em artigo especialmente escrito para o PublishNews, Marcio Coelho conta como foi o encontro de Fernando Nuno, que trouxe o Círculo do Livro para o Brasil nos anos 1970, com a turma jovem da TAG

Fui interrompido pela minha mãe enquanto eu conversava com o boneco do meu herói preferido, o Batman, numa tarde dos meus dez anos. Ela chegou com um pacote na mão e me entregou dizendo que era meu, pra eu abrir e me divertir. “Outro herói”, pensei. Não. Era um livro. Um livro de capa dura, amarela, com o título Reinações de Narizinho. Como eu poderia me divertir com aquilo? Minha mãe, que tinha cursado até a sétima série (hoje o sexto ano) do ensino fundamental, me ensinou como me divertir com aquilo. Era um livro do Círculo do Livro.

O Círculo do Livro, criado em 1973, funcionava como um clube de assinatura de livros, e seus associados recebiam periodicamente uma revista com todo o catálogo e os lançamentos. Os livros eram muito bonitos, bem-acabados e, o melhor de tudo, com preços mais baixos que nas livrarias. Em 1983, o Círculo tinha 800 mil associados e estava presente em 2.850 municípios, atendidos por 2.600 vendedores porta-a-porta. São números impressionantes. O Círculo encerrou suas atividades no final da década de 1990. [Nota do Editor: se estiver interessado em conhecer mais sobre a história do Círculo, acesse este artigo que Roney Cytrynowicz escreveu em sua coluna aqui no PublishNews].

Muitos círculos se passaram e os livros se tornaram uma realidade na minha vida, não só pelo hábito da leitura diária, mas porque me tornei editor. Meu primeiro trabalho no mercado editorial, lá em 2000, foi fazer uma segunda revisão num livro do Vargas Llosa, A festa do bode, na saudosa editora Siciliano. Lembro-me que em uma tarde levantei da minha mesa e perguntei pra Carla Fortino, minha coordenadora na época, se meu trabalho era aquele mesmo, ler. Ela disse que sim. Eu era o cara mais feliz de Pirituba, lá ficava a editora. Ler e ainda ganhar por isso? Porra, sensacional. 

Arthur Dambros, Fernando Nuno, Silvana Salerno (casada com Nuno) e Gustavo Lembert: encontro de gerações | © Luise Spieweck e Anne Mantovani / Divulgação / TAG
Arthur Dambros, Fernando Nuno, Silvana Salerno (casada com Nuno) e Gustavo Lembert: encontro de gerações | © Luise Spieweck e Anne Mantovani / Divulgação / TAG

Aprendi muito na Siciliano com o Pedro Paulo de Sena Madureira, editor como já não se criam mais, mas que também não cabe no mercado editorial de hoje. Fui mudando de editoras com o passar dos anos até chegar na Saraiva, para trabalhar com livros universitários e de negócios. Quando implantamos a terceirização da produção editorial, alguns bureaus foram conversar comigo e um deles, em especial, chamou minha atenção. O Estúdio Sabiá ia além da produção dos livros. Lá tinha o Fernando Nuno.

Depois de muitos anos e, confesso, meio desanimado com o mercado editorial, com seus editores que não leem, que publicam autores que não leem e estão sempre sob os holofotes, comecei a me interessar por uma empresa que estava se destacando no mercado. A TAG Experiências Literárias, fundada em 2014, traz um modelo de negócio há muito tempo terminado: a assinatura de livros. Isso me chamou tanto a atenção que hoje trabalho na TAG, com o Gustavo Lembert, um dos sócios. 

Logo que cheguei à TAG perguntei pro Gustavo se ele conhecia o cara que trouxe o Círculo do Livro para o Brasil e ele me respondeu que não. Fiz questão de fazer contato com ele e aproveitar a sua vinda à Feira do Livro de Porto Alegre para convidá-lo para um café conosco. Ele veio. O cara é o Fernando Nuno. Gustavo e time da TAG, uma turma muito mais jovem do que eu ou o Nuno, ficaram muito felizes, tiraram fotos e contaram histórias familiares que envolviam o Círculo do Livro.

E em que momento se juntam todos os personagens desse texto? No meu círculo do livro, que começou com a minha mãe, passou pelo Pedro Paulo, que se ligou com o Fernando Nuno e fechou com Gustavo. O Círculo do Livro iniciou em mim um caminho sem volta, o amor pela leitura e pelos livros. Hoje, na TAG, posso compartilhar esse amor com 20 mil associados. Que muitos círculos de livros se formem pelo mundo.

Obrigado, Fernando Nuno.

Marcio Coelho começou a sua carreira como revisor na antiga editora Siciliano e alcançou o cargo de gerente editorial da Saraiva até abrir a hoo, editora especializada na publicação de livros de temática LGBT vendida recentemente à Universo dos Livros. Marcio também passou pela TAG – Experiências Literárias onde exerceu até agosto o cargo de gestor de produtos.

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