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A que você é fiel?
PublishNews, Marcio Coelho, 06/03/2018
Estamos realmente contribuindo para o desenvolvimento dos nossos pequenos leitores? O que fazemos, pessoalmente e profissionalmente, para estimular a leitura de fato?

O lançamento do livro Eu não sei ter foi numa livraria na Alameda Lorena, em São Paulo, há muito tempo. O autor, Marcelo Cândido, é um grande amigo – baita escritor, ranzinza, chato e com histórias sem finais felizes sobre a vida, até por isso, meu grande amigo. Ele escreveu um livro que me marcou muito, tanto pela história como por uma frase que está nele: Uma dúvida eterna do ser humano, ser fiel ao que passa ou ao que fica?

A fila do autógrafo estava na calçada, acompanhando o desenho da loja, estreita e comprida. Todo mundo ali sendo fiel ao que, naquele momento, ficava: os amigos do mercado editorial, o bate-papo e as fotos com o autor, as risadas e – que saudade! – do pão de queijo que era servido sem miséria. Pão de queijo, aliás, que está no livro.

Passou o lançamento. Passou a noite de autógrafos, assim como passam todos os dias e a gente nem se dá conta, mas nunca a pergunta do livro foi tão necessária: será que todos os que estavam na livraria foram fiéis ao livro? Será que perpetuamos o que lemos? Seria suficiente falar com outras pessoas sobre aquele livro tão bom, comentar, interpretar, presentear, mostrar?

Lembrei dessa pergunta do livro do Marcelo, porque li recentemente duas notícias antagônicas. A primeira diz que as vendas de livros cresceram, em volume, 4,19% nas quatro primeiras semanas de 2018, em comparação com o mesmo período do ano anterior. A segunda mostra que, pela estimativa do Banco Mundial, os estudantes brasileiros demorarão 260 anos para atingir o nível de proficiência em leitura dos alunos de países “desenvolvidos” (aspas minhas, porque desenvolvimento é sempre relativo).

Estamos, players do mercado editorial e livreiro, sendo fiéis aos números ou aos leitores? Estamos realmente contribuindo para o desenvolvimento dos nossos pequenos leitores? O que fazemos, pessoalmente e profissionalmente, para estimular a leitura de fato? Essas perguntas parecem o morcego de Augusto dos Anjos: “que ventre produziu tão feio parto?”, esse de não conseguirmos mudar o quadro da leitura no Brasil. Livros são vendidos, mas não lidos.

Nas minhas conversas com o Marcelo sempre chegamos à conclusão de que estamos ficando velhos, cada vez mais chatos e com menos certezas. Uma das únicas que temos é a literatura. Nosso morcego mostra outras culpas, outras cagadas ao longo da vida, mas não essa de não ler ou não estimular a leitura. Onde está seu morcego agora?

Marcio Coelho começou sua carreira como revisor na antiga editora Siciliano, passou por muitas editoras como Saraiva, Nova Fronteira e Ediouro. Trabalhou na TAG – Experiências Literárias, prestou consultoria para clubes de assinaturas de livros, é professor de cursos voltados ao mercado editorial e gerente de projetos especiais do Grupo Editorial Pensamento. Além de viver de livros há mais de duas décadas, é apaixonado por eles.

** Os textos trazidos nessa coluna não refletem, necessariamente, a opinião do PublishNews.

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