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Em busca dos não-leitores
PublishNews, Henrique Rodrigues, 06/02/2026
Em sua coluna, Henrique Rodrigues propõe que projetos literários tenham caráter mais formativo diante da queda no número de leitores no país

O resultado da última pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, em fins de 2024, parece ter causado grande incômodo no setor. Sobretudo porque, pela primeira vez na série histórica, o número de pessoas que se dizem leitoras no país é menor do que aquelas que não leem. Estive lá durante o anúncio. Entre os participantes, não se esperava nada muito positivo depois de um governo que havia detonado a área, mas a situação simbólica de termos perdido milhões de leitores acendeu um tipo de alerta amarelo.

Surgiram muitas teses sobre esse quadro tão ruim. Além da evidente falta de investimentos do (des)governo anterior, leva-se em conta a presença dos celulares na vida das pessoas, uma vez que as redes sociais tomam de assalto a atenção dos indivíduos de forma cada vez mais agressiva. Sim, o Instagram e o TikTok são cativantes: te escravizam sem pestanejar. Por isso não deixo de desconfiar vendo todo um discurso entusiasmado e investimento maciço nessas empresas como grandes mediadoras de práticas de leitura, de escrita e do consumo de livros. Parecem as casas de apostas patrocinando o futebol: tem algo esquisito.

Mas creio que um dos diagnósticos mais certeiros foi o da própria coordenadora da pesquisa, Zoara Failla, que fechou o evento trazendo boas questões e puxando a responsabilidade para quem trabalha nesse setor. Em dado momento, jogou para o público: “Será que a gente fica falando para a gente mesmo?” Esse é um ponto fulcral, como diz a poeta Claudia Roquette-Pinto, com quem estou lançando o projeto Leituras no Centro, voltado para a formação de agentes de leitura no Rio de Janeiro.

A ideia veio justamente desse diagnóstico: dentro do grande volume de projetos e eventos que se dizem formadores de leitores, poucos conseguem ser efetivos ao que se propõem. Nessas mais de duas décadas em que estou atrás desse balcão, boa parte do que tenho acompanhado parece cair em algumas armadilhas conceituais e estratégicas. Uma delas é direcionar metodologias para quem já é iniciado na área.

Como disse outro dia, temos poucos programas formativos no país e muitos eventos literários estão cada vez mais parecidos nas suas programações principais, com as mesmas celebridades de sempre, quase bastando que se mude o nome Bienal X o Fli Y no anúncio. Não se trata de preguiça curatorial, e sim de elencar nomes que garantam plateia cheia e atraiam patrocínio, invertendo a causa com a consequência. Evento é, como o nome diz, eventual, por isso acredito que antes e depois de cada um deveria existir um programa contínuo de formação, que não dá palco, mas é por onde a situação pode melhorar em médio e longo prazos.

Daí que trabalhar com agentes de leitura, que atendem os esquecidos dos livros, me interessa bastante. Não só por trabalhar com a classe menos aquinhoada, de onde eu venho socialmente, mas porque se trata de uma lacuna no que vem sendo feito na área.

Os agentes vão atuar no Centro do Rio de Janeiro, onde centenas de milhares de pessoas vão trabalhar todos os dias, muitas vindo de longe, sempre transitando na rua com pressa. E se uma delas ela é abordada com um instante poético? E se uma empresa recebe um agente para ler uma crônica com seus funcionários na hora do almoço? E se um agente vai a uma escola e coloca na plateia para uma contação de histórias as merendeiras e o pessoal de limpeza da escola, ensinando os alunos que essas pessoas não são invisíveis? E se um motoboy participa de um sarau numa praça onde ele pode ver ou falar poesia entre uma entrega e outra? É mais ou menos isso que iremos fazer.

Não devemos esperar que os não-leitores procurem o mundo do livro e da leitura. A gente é que precisa dar nosso jeito de ir até eles.

Aliás, está muito em voga a citação do Antonio Candido de que a literatura é um direito. Mas e aí? Basta repostar um reels com essa frase e parecer engajado/a? Como fazer dessas aspas uma forma de ação real?

Lembro-me bem que, ainda no evento da pesquisa Retratos, a bibliotecária Bel Santos Mayer afirmou, muito coerentemente, que precisamos nos indignar com aqueles números.

O Leituras no Centro é a nossa resposta e, se você também é indignado/a, pode contribuir aqui.

Henrique Rodrigues é diretor do Instituto Caminhos da Palavra, voltado para a promoção do livro, leitura e escrita. Com mais de duas décadas de experiência na área, é coordenador geral do Prêmio Caminhos de Literatura e curador do Prêmio Pallas de Literatura. Nascido no subúrbio do Rio de Janeiro, formou-se em Letras pela Uerj, cursou especialização em Jornalismo Cultural pela Uerj, mestrado e doutorado em Letras pela PUC-Rio. Já foi atendente de lanchonete, balconista de videolocadora, professor, superintendente pedagógico da Secretaria de Estado de Educação do RJ, coordenador pedagógico do programa Oi Kabum! e gestor de projetos literários no Sesc Nacional. Publicou 24 livros, entre poesia, infantil, conto, crônica, juvenil e romance, tendo sido finalista do Prêmio Jabuti duas vezes. É patrono de duas salas de leitura das escolas públicas onde estudou. www.caminhosdapalavra.com.br

** Os textos trazidos nessa coluna não refletem, necessariamente, a opinião do PublishNews.

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José Luís Peixoto
Escritor português

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