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Retratos da leitura do meu bairro
PublishNews, Henrique Rodrigues, 11/06/2025
Em sua coluna, Henrique Rodrigues analisa desafios e contradições no universo dos livros

No fim de semana participei de um evento literário aqui perto de casa. A frase pode parecer simples, mas vou situá-la: moro em Jacarepaguá, Zona Oeste do Rio de Janeiro. É o maior pedaço da cidade, e o mais esquecido no que se refere a oportunidades artísticas e culturais. A região aparece muito na imprensa por conta dos conflitos diários entre milícia-tráfico-polícia. Aliás, os assassinos de Marielle Franco mandam no território há décadas.

Assim como na maior parte do Rio, no que se refere a livros, o que sempre foi ruim só piorou nos últimos anos. As poucas livrarias e os sebos do bairro fecharam. Já houve na minha rua, pasmem, uma pequena locadora de livros.

O desenvolvimento se deu em outras cadeias de consumo. Subiu aqui perto um condomínio chamado Stories. Quando estavam vendendo, fui ao imóvel decorado filar um cafezinho e confirmar o esperado: apesar do nome, não haveria biblioteca para os moradores. Não há histórias, só papo furado mesmo.

Autores no evento Ilumina Zona Oeste, no Rio de Janeiro
Autores no evento Ilumina Zona Oeste, no Rio de Janeiro
É provável que muita gente saiba, mas o mapa literário do Rio de Janeiro por muito tempo se concentrava na Zona Sul, onde estão as livrarias, onde vivem os escritores, críticos, professores universitários, editores e quase toda a intelectualidade. Alguma coisa acontece no Centro, que ainda se recupera do esvaziamento provocado pela pandemia. Mas, no geral, para o povão sempre foi preciso encarar mais de uma hora de trânsito para um lançamento de livro, por exemplo.

Por isso é estranho e bom dizer: fui a pé para falar no evento literário. Estive numa mesa com outros escritores oriundos aqui dessa periferia – um conceito estranho, porque se estamos aqui, periferia seria lá longe, não? E teve papo, batalha de rimas, passinho, teatro e tudo o mais no Ilumina Zona Oeste. Espaço lotado com gente de todas as idades, evidenciando que há demanda para as literaturas.

Mas encho a boca mais ainda para falar: fui a um evento literário aqui perto de casa, e recebendo cachê. Ah, meus queridos, essa também deveria ser uma frase comum.

A remuneração de escritores é uma daquelas questões inconvenientes, quase tabu, sobre as quais todos falam, mas apenas nos queixumes de roda, nos papos de grupo, na discrição dos WhatsApps, nos pigarros dos interditos, na indignação do papo reto. Arauto dessa verdade indelicada, há anos que escrevo sobre o assunto.

Volto ao meu bairro, Jacarepaguá, aquele cuja música diz: “longe pra carambá”. É onde se realiza a Bienal do Livro Rio, que abre nesta semana, em sua maior edição, turbinada pelo título “Rio Capital Mundial do Livro”, concedido pela Unesco, que a prefeitura ostenta.

A Bienal é maravilhosa, um baita acontecimento. Mas o evento com esse porte não pagar cachê aos autores, especialmente com o volume de patrocínios envolvido, sempre cria um incômodo nos bastidores do meio literário. A impressão é que se faz um grande favor ao darem espaço para os escribas estarem ali. Essa prática também se deve ao fato de que a maioria aceita o espaço para se divulgar, mesmo recebendo xongas, pois assim se capitaliza para outros eventos que pagam cachê.

Esse assunto é delicado, pois cada autor tem seu momento e medida. Assim como na Flip (que também não paga cachê), para alguns seria uma honra e um sonho estar ali na programação principal, mesmo porque vários pagam para ter algum espaço paralelo e divulgar seu trabalho. São muitos artistas buscando um lugar ao sol, que deveria ser para todos. Mas vejamos: considerando que sair de casa para participar de debate em evento é uma prestação de serviço cultural, toda atividade deveria ser remunerada, como acontece com eventos pequenos e médios.

Na Capital Mundial do Livro, valorizar moral e profissionalmente seus artistas da palavra deveria ser uma das primeiras diretrizes oficiais. Se para alguns a expressão literária é um hobby, para muitos se trata de um ofício, que requer anos de preparo, pesquisa e prática.

Na esteira, trago uma reivindicação da nossa base mais importante: escolas e bibliotecas públicas deveriam contar com orçamento para atividades culturais, pois o padrão, no Rio, é convidarem escritores ainda na base do 0800.

Frequento a Bienal do Livro desde que comecei a estudar Letras, em meados dos anos 1990. Esses megaeventos são hiperbólicos, com recordes de público, vendas, cansaço e tudo o mais. Por que a cidade tem uma feira tão grande sem que haja um desenvolvimento regular e duradouro no setor? Os argumentos para os suntuosos investimentos públicos são sempre educativos e culturais, mas os resultados não são percebidos, e isso não parece ser um problema. Porque não é, pelo menos para a Bienal do Livro.

Sejamos justos. Não se pode esperar que um evento que acontece a cada dois anos substitua políticas públicas efetivas, que considerem o real tecido da cidade e suas diversas lacunas na área. Os eventos literários em si são, obviamente, pontuais e passageiros: “é vento”. Eles devem (ou deveriam) ser culminâncias e disparadores de processos continuados, os quais hoje, na capital carioca, inexistem. “O Rio de Janeiro continua lendo” é um belo trocadilho com a música do Gilberto Gil, mas quem está no chão da fábrica da cidade sabe que para por aí.

Acredito e torço para que esse título da Unesco se reverta em políticas públicas, e investimentos sejam direcionados a atividades cotidianas que, mesmo não sendo tão instagramáveis como a roda-gigante da Bienal, são efetivas num processo formativo de leitura. Espero ver as mudanças aqui no bairro, sem repetir o modelo do condomínio cujas Stories ficam só na propaganda.

P.S.: estarei na Bienal do Livro do Rio em alguns dias para mediar Cafés Literários; vale esclarecer que, mesmo sendo pouco, pagam por esse serviço há algumas edições. A Prefeitura me convidou para falar no seu estande oficial, sem mencionar cachê; perguntei sobre o faz-me-rir e até agora, 10/06, às 13h53, não obtive resposta oficial, de modo que ainda que não sei se fui desconvidado ou vai pingar algum.

Henrique Rodrigues é diretor do Instituto Caminhos da Palavra, voltado para a promoção do livro, leitura e escrita. Com mais de duas décadas de experiência na área, é coordenador geral do Prêmio Caminhos de Literatura e curador do Prêmio Pallas de Literatura. Nascido no subúrbio do Rio de Janeiro, formou-se em Letras pela Uerj, cursou especialização em Jornalismo Cultural pela Uerj, mestrado e doutorado em Letras pela PUC-Rio. Já foi atendente de lanchonete, balconista de videolocadora, professor, superintendente pedagógico da Secretaria de Estado de Educação do RJ, coordenador pedagógico do programa Oi Kabum! e gestor de projetos literários no Sesc Nacional. Publicou 24 livros, entre poesia, infantil, conto, crônica, juvenil e romance, tendo sido finalista do Prêmio Jabuti duas vezes. É patrono de duas salas de leitura das escolas públicas onde estudou. www.caminhosdapalavra.com.br

** Os textos trazidos nessa coluna não refletem, necessariamente, a opinião do PublishNews.

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