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E pro escriba, não vai nada?
PublishNews, Henrique Rodrigues*, 30/08/2017
Em escolas e grandes eventos literários brasileiros, só os escritores trabalham de graça

Estive por esses dias na primeira edição da Flipelô - Festa Literária do Pelourinho. Uma beleza de realização, que lotou o bairro com pessoas interessadas em livros. De modo que evoco o saudoso João Ubaldo Ribeiro para o assunto das mal tecladas linhas que seguem. Especificamente, a conhecida crônica O conselheiro come, em que o autor de Viva o povo brasileiro tratou da banalização que o trabalho do escritor recebe nestas plagas.

Disse o baiano: “acho que foi o Paulo Francis que se queixou, já faz algum tempo, do volume de trabalho de graça que aqui esperam dele. Agora me queixo eu. O Brasil, me parece, é campeão nesse tipo de prática”. Em seguida, listou a quantidade de encomendas que lhe chegavam com frequência, as quais iam desde a solicitação de aspirantes a escritor para que lesse – e elogiasse – originais, pedidos para que fizesse trabalhos universitários e outras demandas. Tudo sem receber um tostão.

Ubaldo se referia a um modelo de pensamento que reinou durante muito tempo no país, segundo o qual escritores são indivíduos que não precisam de dinheiro para realizar uma tarefa, visto que já viveriam em situação confortável permeada de benesses típicas de celebridades, almofadinhas e outras categorias de endinheirados.

Por falar em dinheiro, a Bienal do Livro do Rio de Janeiro, possivelmente o maior evento da área no país, acabou de divulgar o suntuoso investimento de R$ 42 milhões na sua realização, que vai acontecer nos próximos dias. Parece um bom dinheiro, e nele existe uma programação cultural também enorme e bacanuda – já estive dos dois lados, seja como autor e trabalhando na curadoria em outros anos, e de fato é um volume de estrutura humana e material gigantesca. Mas pouca gente sabe que os autores, que seriam as estrelas da parada, não ganham lhufas para participar da programação. Carros luxuosos pegam o convidado no aeroporto e fazem o transporte entre bons hotéis, mas neca de pagamento. Certa vez um escritor me disse que preferia ganhar uma merreca que fosse e ficar num albergue do que receber tratamento VIP e não receber nada.

O conforto de traslado e hospedagem é bem-vindo, mas será que basta? Atribuo a perspectiva de não pagamento a dois fatores. O primeiro é que permanece certa ideia do nosso histórico beletrista e bacharelista, em que a maioria dos autores era oriunda das elites com acesso ao ensino, de maneira que, se o sujeito tinha um livro publicado, aquinhoado era. Tal sentido ainda está enraizado no senso comum, pois muitas pessoas não familiarizadas com livros ainda os consideram coisa de gente rica ou metida a besta, objetos supérfluos e caros (para boa parte da população, um livro de 50 mangos é caro; um celular de R$ 2 mil não é, mas isso é assunto para outro dia). A segunda é que muitos dos próprios autores não gostam de associar seu trabalho a dinheiro, preferindo alimentar apenas o ego – mesmo que disfarçadamente – e não o bolso, na tentativa de construir uma aura ilibada, artesanal e limpinha, longe das mãos sujas do “deus mercado”.

Nesse sistema provinciano, o quadro é desfavorável para quem se dedica à escrita. Sob o argumento de que o escritor vai “divulgar sua arte”, é comum esses profissionais serem convidados para trabalhar de graça. De eventos grandes a feiras de livros escolares é comum encontrar autores falando de seus livros sem ganhar nada. “Ah, mas eles vendem os livros e ganham os direitos autorais”, dizem. Bom, para quem não sabe, o famoso DA corresponde a 10% do preço de capa de um livro, e as prestações de contas acontecem, em geral, a cada três meses, isso num processo de contrato convencional com editoras que pagam regularmente. E tirando os best-sellers, que são minoria entre os escritores brasileiros, em geral os autores autografam poucos livros após um bate-papo. Nas feiras das escolas, não é raro o autor acabar de falar, tocar o sinal e os alunos saírem correndo, enquanto professores dão um cafezinho antes de encaminhá-lo para a saída. “Mas vocês vão adotar o meu livro, como tinham prometido?”, pergunta o escriba, na esperança de que isso signifique 100 ou 200 livros vendidos no ano seguinte. “Não sei, isso é com a direção, qualquer coisa a gentes se fala”, responde a coordenadora pedagógica com um tapinha nas costas.

Nem na Flip, o evento literário mais relevante no país, o autor recebe – e não é por conta da crise recente, pois sempre foi assim. Uma ou outra programação paralela paga cachê. Se a visibilidade de mídia gerada por essas participações é considerada um valor, então tudo bem para quem topa receber nessa moeda. Porém, vale lembrar que sair em jornal já há algum tempo deixou de ser algo que influencie diretamente as práticas leitoras.

Felizmente, essa não é uma regra. Há hoje no país mais de três centenas de eventos literários realizados anualmente. Muitos, de pequeno e médio portes, pagam cachê para todos os artistas participantes. Aliás, enquanto escrevo, estou no Mato Grosso e acabei de participar da curadoria de uma festa de livro nova que deve acontecer em Poconé, no Pantanal. E o primeiro item da planilha é o cachê dos convidados. Tirar um escritor de casa, fazê-lo pegar a estrada para dar uma palestra ou participar de um bate-papo com o intuito estimular a leitura é uma prestação de serviço cultural, e deve ser remunerada. Uma obra literária de qualidade é quase sempre resultado de anos de estudo, preparo, investimento de tempo e mesmo de dinheiro próprio, não algo que brota em árvore ou baixa como um santo numa espécie de download inspiratório e mágico.

Segundo o INAF, 75% da população brasileira economicamente ativa possui algum nível de analfabetismo funcional. Ou seja, são indivíduos que podem saber usar a senha para parcelar o celular novo, mas raramente o fazem para comprar livros. Profissionalizar a atividade de quem os escreve é um grande passo para estimular a ampliação cultural de quem os lê.

Enquanto os artistas da palavra continuarem aceitando o microfone para “divulgar seu trabalho” ou conseguir espaço na mídia, a situação não vai mudar. Talvez a categoria precise se mobilizar mais para entender o seu papel num processo mais amplo de educação para a leitura, tão urgente e necessário para a nossa vida cultural.

E nem precisa pagar cachês de palestrantes de autoajuda corporativa ou de ex-presidentes. Em geral se paga R$ 1 mil a R$ 3 mil, dependendo do formato do evento. E às vezes é até algo simbólico entre camaradas. Vale citar o exemplo do Movida Literária, realizado em Brasília recentemente por meio de crowdfunding. Os mais de 20 participantes toparam fazer debates em cafés e bares da cidade recebendo apenas R$ 100. Não é quase nada, mas já pagou o chope: porque o autor, assim como o conselheiro, ainda come – e também gosta de bebericar.


* Henrique Rodrigues nasceu no Rio de Janeiro, em 1975. É especialista em Jornalismo Cultural pela Uerj, mestre e doutor em Letras pela PUC-Rio. Trabalha na gestão de projetos literários no Sesc Nacional. Participou de várias antologias literárias e é autor de 11 livros, entre os quais o romance O próximo da fila (Record). 

Henrique Rodrigues nasceu no Rio de Janeiro, em 1975. É formado em Letras pela Uerj, com especialização em Jornalismo Cultural pela Uerj, mestre e doutor em Letras pela PUC-Rio. Já foi atendente de lanchonete, balconista de videolocadora, professor, superintendente pedagógico da Secretaria de Estado de Educação do RJ e coordenador pedagógico do programa Oi Kabum!. Trabalha na gestão de projetos literários no Sesc Nacional. É autor de 13 livros, entre poesia, infantis, juvenis e o romance O próximo da fila (Record), publicado também na França. Site do autor: www.henriquerodrigues.net   

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