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​ O futuro do livro fala mandarim?
PublishNews, Lu Magalhães, 19/06/2026
"Em vez de substituir formatos, as novas tecnologias parecem ter ampliado as possibilidades de a leitura. Sabe aquela história de que a invenção da televisão não matou o rádio? É por aí...", escreve Lu Magalhães

Edição 2025 do evento em Pequim © Divulgação
Edição 2025 do evento em Pequim © Divulgação
Instigada pela cobertura que PublishNews está conduzindo, in loco, dos 40 anos da Feira Internacional do Livro de Pequim – um dos maiores eventos editoriais do mundo –, dediquei um tempo à pesquisa sobre a indústria livreira do país, sobretudo em um momento em que uma parte considerável do mercado ocidental debate os impactos da inteligência artificial, a concorrência das plataformas digitais e as quedas nos índices de leitura. Nessa jornada, a primeira constatação é que os indicadores chineses apontam para a direção da abundância.

Dados divulgados pela Academia Chinesa de Imprensa e Publicação revelam que 82,3% dos adultos chineses mantêm hábitos regulares de leitura e consomem, em média, 8,39 livros por ano. O resultado — exaltado pela imprensa chinesa como “explosão da leitura digital atrai mais chineses para os livros” — nos convida a uma reflexão relevante para o mercado editorial global: parte dos sinais sobre o futuro da leitura pode estar emergindo justamente em um dos ambientes mais conectados e digitalizados do planeta.

Enquanto uma parcela do mercado editorial ocidental concentra atenções nos impactos da inteligência artificial, da economia da atenção e da concorrência das redes sociais, a trajetória chinesa sugere um cenário mais complexo do que as previsões sobre um eventual declínio dos livros. Em 2025, os leitores do país registraram média anual de 4,81 livros impressos e 3,58 digitais. Entre crianças e adolescentes, o índice alcançou 11,72 livros por ano. Os indicadores ajudam a explicar por que a promoção da leitura segue ocupando posição estratégica nas políticas educacionais e culturais chinesas, mesmo em uma sociedade marcada pela intensa adoção de tecnologias digitais.

Confesso que o meu primeiro ímpeto foi atribuir esses resultados ao tamanho da população, à expansão econômica chinesa ou à tendência oficiosa de governos que gostam de inflar dados positivos. Mas, a minha formação em Matemática sempre me leva a duvidar das conclusões fáceis! Ocorre que os dados sugerem algo mais interessante. O levantamento mostra que 80,8% dos adultos realizam leituras em ambientes digitais, enquanto o consumo de audiolivros segue em expansão. Ainda assim, 45,9% dos entrevistados afirmam preferir livros impressos.

Em vez de substituir formatos anteriores, as novas tecnologias parecem ter ampliado as possibilidades de contato com a leitura. Sabe aquela história de que a invenção da televisão não matou o rádio? É por aí... O audiolivro não eliminou o papel. E, nesse sentido, a China talvez não esteja mostrando que o digital venceu o livro, mas que, quando há política pública, escala, hábito e infraestrutura cultural, o digital pode ampliar o ecossistema da leitura.

Ocorre que o país assistiu ao surgimento de ecossistema em que diferentes suportes coexistem e ocupam momentos distintos da rotina do leitor chinês. A meu ver, essa convivência talvez seja uma das lições mais relevantes para países que ainda discutem o futuro do livro com a lente da substituição tecnológica. Durante décadas, cada inovação foi apresentada como uma ameaça ao suporte anterior. A experiência chinesa sugere que a realidade costuma ser mais complexa, sobretudo diante de uma cultura leitora consolidada. Nesse caso específico, os novos formatos tendem a expandir os pontos de acesso ao conteúdo – não eliminá-los. Há também uma dimensão geracional importante. O estudo aponta que os índices de leitura permanecem elevados entre jovens e crianças, contrariando a percepção de que as novas gerações abandonaram os livros em favor de vídeos curtos (TikTok, especialmente) e plataformas digitais.

O alinhamento entre esses dados e a Feira Internacional do Livro de Pequim revela que, em um dos países mais digitalizados do planeta, a leitura segue sendo tratada como infraestrutura cultural. Bibliotecas, feiras literárias, programas de incentivo e políticas de formação de leitores convivem com plataformas digitais e tecnologias emergentes.

Uma pergunta que acho pertinente sobre o futuro do livro é se os países, os mercados e as instituições — que dizem se preocupar com a leitura — estão dispostos a tratar a temática como infraestrutura cultural, não apenas como hábito individual ou produto de consumo. A experiência chinesa, observada com as devidas diferenças históricas, políticas e metodológicas, sugere que o livro não desaparece quando encontra tecnologia. Ele enfraquece quando perde presença, política, circulação e centralidade simbólica. Onde há investimento, mediação e múltiplas portas de entrada, a leitura não apenas resiste. Ela se reorganiza.


Lu Magalhães é fundadora do Grupo Primavera (Pri, de primavera & Great People Books), sócia do PublishNews e do #coisadelivreiro. Graduada em Matemática pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), possui mestrado em Administração (MBA) pela Universidade de São Paulo (USP) e especialização em Desenvolvimento Organizacional pela Wharton School (Universidade da Pensilvânia, Estados Unidos). A executiva atua no mercado editorial nacional e internacional há mais de 20 anos.

*Lu Magalhães é fundadora do Grupo Primavera (Pri, de primavera & Great People Books), sócia do PublishNews e do #coisadelivreiro. Graduada em Matemática pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), possui mestrado em Administração (MBA) pela Universidade de São Paulo (USP) e especialização em Desenvolvimento Organizacional pela Wharton School (Universidade da Pensilvânia, Estados Unidos). A executiva atua no mercado editorial nacional e internacional há mais de 20 anos.

**Os textos trazidos nessa coluna não refletem, necessariamente, a opinião do PublishNews.

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