
A América Latina se tornará, nos próximos anos, um dos principais centros mundiais de inovação cultural e criativa, impactando diferentes indústrias. Essa é uma das conclusões do relatório “Renascimento Latino: a força criativa que está redefinindo o consumo global”, conduzido pela WGSN. A premissa é que, assim como o Renascimento europeu marcou uma era de transformação intelectual e artística, estamos vivendo algo similar. Na prática, a lógica de que o centro criativo do mundo é eurocentrista passa a ser revista para abarcar as vozes plurais, históricas e estéticas latinas.
Essa leitura está em consonância com movimentações concretas — Grammy Awards, Oscar, Super Bowl, Time 100 personalidades mais influentes da atualidade, para citar alguns sinais. Nas artes plásticas, a América Latina também passa a se consolidar como um eixo curatorial consistente. Na SP-Arte, por exemplo, pude ver uma produção latino-americana não como elemento de diversidade, mas como linguagem.
Quando analisamos a relação das novas gerações com a própria latinidade, vemos que a Geração Z se mostra orgulhosa de sua origem (84%) e que 76% afirmam que ser latino diz muito sobre a própria identidade, de acordo com pesquisa da Ipsos. Reunindo todos esses elementos e olhando em perspectiva para a edição 2025 da Feira Internacional do Livro de Guadalajara — recorde de público e com a participação de mais de 2.800 editoras de 64 países —, penso que as narrativas latino-americanas vão além de uma tendência. Claro que isso pode ser um aspiracional pessoal, totalmente enviesado!
Entretanto, é impossível não pensar em como o mercado editorial deveria se estruturar para surfar essa onda latino-americana para além de uma simplificação pitoresca. Embora o Brasil seja América Latina, a nossa produção literária circula em outra língua — e com dinâmicas próprias de tradução, mediação e acesso. Tratar a região como um bloco coeso pode até facilitar a narrativa e a compreensão global, mas obscurece diferenças estruturais que impactam diretamente a circulação da nossa produção artística e cultural.
Ir além de aderir a esse rótulo talvez seja o desafio mais relevante. Precisamos reconhecer as assimetrias internas — e defender que nem toda latinidade se traduz da mesma forma nem alcança os mesmos circuitos com velocidade similar.
No fim do dia, estamos diante de um campo aberto. Ao mesmo tempo que a América Latina ocupa um novo lugar no imaginário cultural global, o brasileiro — criador de uma produção literária excepcional — ainda precisa entender como se posicionar sem nivelar as complexidades, diluir as diferenças e transformar a identidade em um atalho banal e exótico.
*Lu Magalhães é fundadora do Grupo Primavera (Pri, de primavera & Great People Books), sócia do PublishNews e do #coisadelivreiro. Graduada em Matemática pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), possui mestrado em Administração (MBA) pela Universidade de São Paulo (USP) e especialização em Desenvolvimento Organizacional pela Wharton School (Universidade da Pensilvânia, Estados Unidos). A executiva atua no mercado editorial nacional e internacional há mais de 20 anos.
**Os textos trazidos nessa coluna não refletem, necessariamente, a opinião do PublishNews.
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