
É nítido que há uma inquietação peculiar atravessando o nosso cotidiano. E, a cada edição do SXSW — festival anual que reúne inovação, tecnologia e cultura em Austin, nos EUA —, essa sensação parece ganhar mais corpo. É como se o evento fosse um sismógrafo das tensões contemporâneas. Nas edições que participei anteriormente, o clima era completamente outro: havia um encantamento com a tecnologia e com o porvir que ela proporcionaria. Era quase uma ingenuidade travestida de esperança.
Nas últimas edições — e especialmente no evento de 2026 —, a ansiedade e o pessimismo acerca de um futuro mediado pela tecnologia transparecem em cada debate sobre a inteligência artificial ou sobre os comportamentos que ela altera sem pedir licença. Discute-se solidão, por exemplo. Há dúvidas profundas sobre como ela alterou a nossa capacidade de aprender; e existe a sensação de fadiga: um certo mal-estar lúcido diante do que vivenciamos. Ressaca da contemporaneidade!
O SXSW de 2026 capturou bem essa atmosfera. O fascínio pela inovação perdeu espaço diante da constatação de que a tecnologia se tornou uma infraestrutura incorporada ao cotidiano, ao trabalho, à cognição e às relações. Ocorre que não perguntamos mais se vamos usá-la, mas o que faremos para nos defender dos danos causados por ela.
E é aqui que a questão da leitura ganha, na minha opinião, uma densidade nova. Logo nos primeiros dias do festival, apareceram debates sobre a terceirização crescente de capacidades humanas: navegação delegada ao GPS, memória deslocada para buscadores, escrita mediada por modelos generativos e um raciocínio cada vez mais assistido por sistemas que oferecem respostas antes mesmo de a pergunta ser estruturada pelo indivíduo. E, vale ressaltar que esses incômodos não dizem respeito a uma “tecnofobia”, mas a uma legítima inquietude sobre o risco de perdermos nossa capacidade cognitiva.
Esse ponto se torna especialmente importante quando cotejado com pesquisas sobre a leitura. Uma das reflexões mais eloquentes foi trazida pela Fast Company Brasil (Por que estamos lendo menos e entendendo menos, segundo estudos). A publicação mostra que a proporção de adultos que leem por prazer em um dia comum caiu fortemente nas últimas duas décadas. Ao mesmo tempo, cresceram relatos de fadiga mental diante de textos longos e de dificuldade para acompanhar argumentos complexos. O problema, como a argumentação sugere, não parece estar na simples perda de repertório ou deficiência na alfabetização — está, possivelmente, na erosão da nossa capacidade cognitiva, que depende de continuidade, treino e permanência.
No Brasil, esse panorama se torna ainda mais sensível porque acontece em meio a uma base historicamente frágil. Ao comparar os dados da pesquisa Retratos da Leitura com outros relatos internacionais, vemos que, embora a queda da leitura não seja um fenômeno puramente brasileiro, aqui ela incide sobre um ecossistema em que a formação leitora nunca se consolidou. Quando menos da metade da população se declara leitora e a média anual de livros permanece baixa, a retração do hábito de ler não afeta somente o desempenho individual; afeta também a própria infraestrutura cognitiva de uma sociedade que já convive com desigualdades educacionais profundas.
É nesse ponto que a inquietação deveria se tornar preocupação. Talvez estejamos diante de uma nova desigualdade. Não apenas a econômica — que continua comprometendo o acesso e a ampliação de repertório e de oportunidades —, tampouco a desigualdade educacional, que já conhecemos bem. Talvez estejamos assistindo ao aprofundamento de uma desigualdade cognitiva, ou seja, uma distância crescente entre aqueles que conseguem sustentar atenção longa, leitura profunda, articulação complexa de ideias e pensamento não imediato, e aqueles cuja experiência mental passa a ser moldada quase exclusivamente por fluxos fragmentados, respostas instantâneas e estímulos descontínuos.
Dizer isso não significa idealizar o passado nem transformar o livro em objeto nostálgico, como se bastasse opor papel à tela ou lentidão à velocidade. O ponto é outro. A leitura longa não importa apenas porque preserva um hábito antigo ou um valor cultural abstrato; ela também mobiliza operações mentais específicas: inferência, memória de percurso, interpretação de ambiguidades, elaboração de contexto, convivência com a demora e com a densidade.
Voltando ao SXSW 2026 e a inquietação com a tecnologia, vejo que a preocupação com a leitura (ou, melhor, a falta dela) começa a aparecer sob outra perspectiva. O livro deixa de ser um objeto cultural disputando espaço na Economia da Atenção e passa a revelar algo mais estrutural: a condição de tecnologia cognitiva de longa duração. Em um cotidiano organizado por sistemas que reduzem esforço, antecipam respostas e tornam a experiência mental cada vez mais reativa, o livro precisa ganhar um status estratégico justamente por preservar um tipo de exigência intelectual que outros ambientes passaram a evitar.
É nesse ponto que o mercado editorial deveria entrar na conversa de maneira mais contundente. Se essa nova desigualdade cognitiva está de fato em formação, a questão para o setor não se limita a vender mais exemplares, testar formatos ou disputar visibilidade em meio às dinâmicas da atenção fragmentada — embora tudo isso continue relevante. Se a atenção prolongada se transforma em um recurso escasso, desigualmente distribuído e cada vez mais decisivo para a capacidade de compreender a complexidade do próprio tempo, o mercado do livro deixa de ser apenas um setor cultural e passa a ocupar um papel estratégico na sustentação da capacidade cognitiva da sociedade.
*Lu Magalhães é fundadora do Grupo Primavera (Pri, de primavera & Great People Books), sócia do PublishNews e do #coisadelivreiro. Graduada em Matemática pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), possui mestrado em Administração (MBA) pela Universidade de São Paulo (USP) e especialização em Desenvolvimento Organizacional pela Wharton School (Universidade da Pensilvânia, Estados Unidos). A executiva atua no mercado editorial nacional e internacional há mais de 20 anos.
**Os textos trazidos nessa coluna não refletem, necessariamente, a opinião do PublishNews.
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