
A partir daí, ele estruturou um processo contínuo de escuta, no qual perguntas enviadas pelo público leitor — muitas vezes em áudio — orientaram desdobramentos e aprofundamentos semanais, criando uma segunda camada viva sobre o texto. Esse diálogo se expandiu em comunidades de discussão, nas quais a leitura deixou de ser um exercício individual para um ato coletivo. E, tudo isso antes de consolidar a versão final! De certo modo estamos falando de leitores que funcionam como editores.
O processo é muito interessante! Ele clonou a própria voz, usando IA; gravou o trabalho em andamento, vendeu o audiolivro provisório para cerca de 500 pessoas e foi lançando versões aprimoradas do texto original — que ganhou formatos que incluem curso on-line. Detalhe: essa obra só será lançada no final do ano, de acordo com a reportagem do Financial Times, assinada por Andrew Hill. Na matéria, inclusive, ele se compara a um comediante de stand-up que testa e refina o conteúdo, enquanto trabalha.
Godin — que venceu, com A máquina que pensa, o prêmio Livro de Negócios do Ano do Financial Times (2025) — criou algo que chama de “livro adaptável”. O segmento editorial de Negócios, aliás, parece ter se tornado um território de experimentação incremental, pelo que tenho acompanhado — e, claro, com o suporte da inteligência artificial.
Na edição de 2026 da London Book Fair, a IA esteve no centro da experimentação editorial. Enquanto algumas editoras apresentaram aplicações convencionais — tradução automatizada e produção de audiobooks em escala —, players de outros segmentos ganharam visibilidade com a mobilização e treinamento de modelos inovadores. A ElevenLabs, empresa de áudio que gerou a voz sintética de Godin, e Write Business Results — que promoveu um “companheiro” de IA que apoia autores no planejamento e redação de livros —, começam a discutir como aumentar a receita de autores e editoras. Óbvio que tudo imerso em grandes tensões.
Um dos episódios simbólicos que ilustra essa batalha foi o lançamento de Don’t Steal This Book, obra praticamente vazia assinada por milhares de autores como forma de protesto contra o uso de textos protegidos no treinamento de modelos de IA sem consentimento. A iniciativa, detalhada na reportagem da Euronews, chamou atenção para o debate se a inteligência artificial fará parte do futuro da indústria editorial e sob quais condições será incorporada ao fazer editorial.
A reflexão é que se, de um lado, modelos como o de Seth Godin apontam para um livro que se constrói em diálogo — quase como um organismo em evolução —, de outro, a reação dos atores dessa indústria alerta que os limites desse novo território precisa de normas para delimitá-lo. Entre a obra adaptável e o protesto coletivo, o mercado editorial se vê desafiado por uma mesma questão: como inovar sem esvaziar a autoria e comprometer a inteligência humana?
Ao retomar a ideia de editora-curadora — tema que abordei em uma coluna anterior —, penso que em meio à experimentação tecnológica, o livro precise ser fiel à sua essência: a arquitetura do pensamento humano.
*Lu Magalhães é fundadora do Grupo Primavera (Pri, de primavera & Great People Books), sócia do PublishNews e do #coisadelivreiro. Graduada em Matemática pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), possui mestrado em Administração (MBA) pela Universidade de São Paulo (USP) e especialização em Desenvolvimento Organizacional pela Wharton School (Universidade da Pensilvânia, Estados Unidos). A executiva atua no mercado editorial nacional e internacional há mais de 20 anos.
**Os textos trazidos nessa coluna não refletem, necessariamente, a opinião do PublishNews.
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