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O livro na casa de pobre
PublishNews, Henrique Rodrigues, 30/06/2026
Em sua coluna, Henrique Rodrigues defende o acesso e investimentos em mediação cultural para excluídos da literatura

Henrique Rodrigues e alunos do Ciep Dr. Adão Pereira Nunes, em Irajá | © Arquivo pessoal
Henrique Rodrigues e alunos do Ciep Dr. Adão Pereira Nunes, em Irajá | © Arquivo pessoal

Tenho visto notícias alvissareiras sobre o tal “mercado” editorial: aumento no número de vendas, livrarias novas abrindo aqui e acolá, a empolgação com criadores de conteúdo para redes sociais como estimuladores de práticas leitora e por aí vamos. Salpicam-se uns termos em inglês e tudo fica melhor ainda. Ao receber esses links e tentar dar uma aprofundada, vem um sentimento crítico eisteineano de que a coisa parece meio relativa. Quando partimos para campo então, vem aquele choque, sobretudo quando saímos do perímetro com acessos às literaturas e encaramos o mundão real das maiorias.

Pois é, caros newslettereiros. Falo, novamente, dos não-leitores.

Estive em Portugal recentemente para participar da Feira do Livro de Lisboa e outras atividades. Em todas elas, pontuamos sobre os desafios de se produzir e difundir literatura no Brasil, em função das nossas desigualdades seculares. Pelo que percebi, os portugueses não entendem bem – ou não fazem questão de entender – as consequências da escravidão nas suas ex-colônias. Já havia percebido no FOLIO, ano passado, onde conversei com o escritor Afonso Cruz para umas 200 pessoas. Foi estranho falar do meu romance Áurea, protagonizado por uma personagem negra que trabalhou como empregada, para uma plateia composta unicamente por brancos. Encontrei uma mulher negra, imigrante de Moçambique, trabalhando num café. Conversamos e dei um exemplar do livro para ela. Falei sobre isso numa escola pública local no dia seguinte, e espero ter dado o recado aos jovens da Vila de Óbidos.

Voltando para a visita recente: enquanto seguia de metrô para a Feira, vestindo uma camiseta verde e amarela onde estava escrito “gente de fé e festa”, um senhor resmungou “brasileiros, deviam morrer todos”. Não por acaso, no dia anterior o Parlamento Português votou contra penalizar crimes de xenofobia e racismo. Daí que tenha sido importante estar numa mesa do maior evento de livros do país para dizer que estamos, mesmo que de forma quixotesca, relendo e reescrevendo nossas histórias.

Não posso deixar de concatenar essa questão com a nova onda de censura a livros sobre cultura afro-brasileira nas nossas escolas, impedindo que seja cumprida a lei 10.639/2003, que torna obrigatório o ensino desse conteúdo. Corrijo: não é nova essa onda, é a mesma que ocorre há anos, mas parece que só se fala do assunto quando um post viraliza. O problema é que essa notícia, normalizada pela efemeridade inconsequente das redes sociais, é esquecida dias depois, e todos os olhos se voltam para a próxima indignação do scrolling. Enquanto os dedos rolam, a censura se intensifica nas redes públicas e privadas de ensino, sem que haja uma campanha séria contra essa prática doentia, e cuja omissão faz parecer que não interessa ao Estado meter a mão nesse vespeiro. Quando governos e entidades do livro e da leitura se restringem a emitir notas de repúdio contra casos específicos, me parece mais uma ação autoafirmava pontual, e não uma postura efetiva de combate à censura nas suas raízes.

Por esses dias, visitei uma escola pública onde estudei nos anos 1980, a fim de levar nosso projeto que oferece gratuitamente palestras sobre produção editorial, apresentação de rap e distribuição de livros. O encontro já havia sido adiado em função de confrontos violentos no Acari, comunidade onde mora boa parte dos alunos. Lembremos: local onde Marielle Franco, dias antes de ser assassinada, apontava problemas sérios. Segundo a direção do Ciep (Centro Integrado de Educação Pública, projeto incrível que Moreira Franco desconstruiu ao assumir o governo fluminense), a atividade estava oferecendo a oportunidade de mostrar para aquelas crianças que há possibilidades de sonhos fora daquela guerra diária em que vivem.

Falta leitura de si e do mundo para muita gente. As representações simbólicas da literatura podem ser um grande caminho para que essa lacuna básica seja preenchida. É importante ter livro na casa de pobre, entregue não como brinde de saquinho de doce ou McLanche, e sim como bem cultural valorizado num processo de mediação.

Livro na casa de pobre é revolução silenciosa.

A frase acima, isolada e cheia de vontade, é meio difícil de ser contestada. Então vamos para o último ponto. Como apresentar leitura literária e diversidade às pessoas que estão, massivamente, pré-orientadas a se afastar dessa prática?

Não sei responder, e acredito que seja o nosso maior desafio hoje na área. O que não podemos é fingir que não existem todos esses problemas. Nessas décadas de trabalho na área, às vezes penso que muita gente vive num mundo paralelo, imediatista e umbilical.

Creio, sinceramente, que já fazemos muito pelos leitores. Quando o país olhar seriamente para os não-leitores, em escala, longo prazo e investimento, talvez a situação melhore. Enquanto isso, sigo daqui como o arauto das verdades incômodas e questionando muito do oba-oba.

Livros de colorir podem ser legais, mas não são literatura; abrir livrarias em bairros ricos tem o nosso joinha, porém isso está, literalmente, longe de afetar a desigualdade geográfica de qualquer cidade; e a leitura de young adult, que é o grosso do que se divulga nas redes, é voltada muito mais para best-sellers gringos, mais como estratégia de marketing de grandes editoras do que por um processo formativo, ponto que nos interessa aqui.

Não será surpresa se, em breve, as empresas de bets começarem a patrocinar os grandes eventos de livros, e serem creditadas como grandes incentivadores da área. Bet-seller, Libera nos Domine!

Eu podia citar algum filósofo ou pesquisador da leitura para encerrar a coluna e, assim, parecer inteligente e culto, mas prefiro me lembrar da imagem no Ciep: um aluno beijava o livro recém-recebido como se fosse um novo amigo querido. Não imaginário, mas que abraçaria sua imaginação para sonhar com um possível futuro.

Henrique Rodrigues é diretor do Instituto Caminhos da Palavra, voltado para a promoção do livro, leitura e escrita. Com mais de duas décadas de experiência na área, é coordenador geral do Prêmio Caminhos de Literatura e curador do Prêmio Pallas de Literatura. Nascido no subúrbio do Rio de Janeiro, formou-se em Letras pela Uerj, cursou especialização em Jornalismo Cultural pela Uerj, mestrado e doutorado em Letras pela PUC-Rio. Já foi atendente de lanchonete, balconista de videolocadora, professor, superintendente pedagógico da Secretaria de Estado de Educação do RJ, coordenador pedagógico do programa Oi Kabum! e gestor de projetos literários no Sesc Nacional. Publicou 24 livros, entre poesia, infantil, conto, crônica, juvenil e romance, tendo sido finalista do Prêmio Jabuti duas vezes. É patrono de duas salas de leitura das escolas públicas onde estudou. www.caminhosdapalavra.com.br

** Os textos trazidos nessa coluna não refletem, necessariamente, a opinião do PublishNews.

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