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Entre feirões e feirinhas
PublishNews, Henrique Rodrigues, 21/05/2026
Em sua coluna mensal no PublishNews, o escritor carioca Henrique Rodrigues escreve sobre os diversos eventos literários pelo país e dá o seu recado

Flipoços 2026 | © Divulgação
Flipoços 2026 | © Divulgação
Ainda na estrada, paro um pouco a fim de dar uma panorâmica sobre as últimas semanas, em que estive numa sequência de festivais voltados para a promoção do livro e da leitura. Como quem se recusa a forçar uma coesão entre os diferentes acontecimentos, vamos por tópicos:

— O Festival Literário Internacional de Poços de Caldas (Flipoços) é uma beleza. Com 21 edições, o evento tem uma profusão de nomes, com muita coisa acontecendo ao mesmo tempo naquela cidade linda. Fiz mesa com a galera de visita escolar, visitei uma escola pública, mediei papo e lançamos o Gaiolas de concreto armado, da Paula Novais, que venceu o nosso Prêmio Caminhos. É um livraço com edição bacanuda da nossa parceira Dublinense, que só publica coisa boa. O livro sair até o final do ano lá em Angola pela Kacimbo. Porque a gente faz prêmio assim, para botar os autores no mundo.

— O festival ainda não tem vale-livro, de maneira que a gente faz todo um trabalho para dizer como ler é legal, mas a molecada da rede pública, sem recurso, volta para casa chupando dedo. Chega a ser cruel, e acho que a prefeitura da cidade deveria olhar para isso como algo essencial. Acredito que todo festival literário de médio e grade portes, recebendo visita de escola pública, deveria botar as respectivas prefeituras na parede e cobrar esse investimento, que é pequeno se levarmos em conta o poder que um bom livro pode exercer na casa de pessoas pobres, algo em que o Brasil falhou feio. Conforme acompanhei com Gisele Corrêa e sua equipe, fazer um evento como o Flipoços dá um trabalhão, e a política pública precisa chegar junto. Já estive num festival, acho que em Joinville, no qual cada escola era agraciada com livros pagos por padrinhos/madrinhas, geralmente vizinhos das unidades que, anonimamente, davam essa contribuição. Modelo a ser seguido.

— Sem que me recuperasse da antidieta mineira, me vi no Feira Literária Internacional de Tiradentes. Aqueles torresmos ainda estão aqui no meu coração. Fiz um papo ótimo com o Daniel Kondo sobre os livros que nos pegam. Havia uns cães circulando no evento, com crachás e tudo, que me fizeram improvisar uns trocadilhos (trocãodilhos?): eles iriam fazer o projeto “Até o rott wei ler”, com a placa “só queria que todo mundo lessie”. Então tá.

— Ainda que de menor porte, mesmo pelo tamanho da cidade, notei em Tiradentes um apuro curatorial interessante. Os mediadores que vi, inclusive o da minha mesa, tinham ótimo preparo, algo fundamental para que os debates fiquem redondos. Esse ponto é fundamental nos eventos. Quem nunca viu o mediador falastrão que ocupa metade do tempo levantando uma tese sobre o assunto da mesa, ou mesmo o catatônico que apenas passa o microfone no mais simplório “fala aí”? Por conta de um acidente na estrada, fiquei preso no evento, e acabei ajudando em outras atividades, já que os convidados também não conseguiam chegar à cidade. Soldado no quartel... Botei os pés em casa só de madrugada...

— ... de modo que quase não dormi, pois já era dia da nossa Feirinha Literária da Santa Rita, no Centro do Rio. O historiador Thiago Gomide, do perfil “Tá na História”, deu um aulão sobre Rio de Janeiro, partindo mesmo daquele nosso território da Feirinha, sob o qual foi descoberto o cemitério dos Pretos Novos, onde estão enterradas dezenas de milhares de escravizados. Aliás, tivemos outra mesa especial, com Sagat B. e Julinho da Glória, dois artistas que passaram pelo sistema carcerário e agora promovem a liberdade e a oportunidade de expressão, algo que aquelas almas sepultadas não tiveram. Fechamos com uma atração internacional, a Zukiswa Wanner, da África do Sul, cujo coração já é profundamente carioca.

— Muita gente vem me perguntando como conseguimos fazer uma feira de livros mensal, ainda mais sem patrocínio algum. Assim como o meu parça Raphael Vidal, agitador de culturas e comidas, venho do perrengue, por isso sempre tento fazer o melhor com o que tenho, esperando melhorar. Creio que o Rio de Janeiro tem essa característica de improvisar e ser feliz. E somos. A próxima edição da Feirinha será dia 6 de junho e, se você quiser apoiar o projeto e ama literatura, me procura.

— Atenção, galerinha. Iaiá Garcia não foi escrito por IA. Convenhamos: inteligência artificial é uma contradição em termos, que nem feijoada light.

— O mês ainda está no meio e eu aqui, voltando do Paraná que nem plano de saúde: meio assim, meio a mil. Em Cianorte, perto de Maringá, participei da FLICIA, evento que se estende por todo o mês. Como fosse a única atração da noite, um papo que seria de uma hora se estendeu por três. Mas poxa, pediram para falar do tema “literatura e vida”, que dá muito pano pra manga.

— Conversando sobre o desafio da literatura e a juventude, a surpresa foi uma jovem autora de 14 anos, cujo nome me escapa agora, que leu um poema bem legal. Pedi que ela se sentasse ao meu lado para falar mais, e menina deu uma aula sobre muitas questões dos jovens que nós, adultos e seminovos, não conseguimos perceber, ou o fazemos apenas parcialmente. Precisamos muito refletir sobre essas faixas etárias e ouvir essa galera, sobretudo os seus silêncios. Quem trabalha com leitura sabe como os desafios vão crescendo à medida que as diferentes juventudes chegam, seja no âmbito escolar, pois o Ensino Médio se resumiu a um pré-ENEM com leituras utilitaristas, ou fora dele, onde há um oceano de possibilidades que estão sendo mais exploradas por ações de marketing de/com redes sociais do que por quem deveria ter perspectiva mais formativa.

— Ainda em Cianorte, participei de uma formação para centenas de professores da rede municipal da cidade. Sempre digo aos colegas escritores como os professores são importantes: uma professora que tem paixão por literatura transmite isso para centenas de indivíduos, ao passo que, se ela apenas cumpre tabela, pode desestimular pessoas nessa mesma escala. Trabalhei sobre poesia e ludicidade em sala de aula (e fora dela), algo que domino um pouco, ou que me domina.

— A coluna está ficando grande e não vou me estender muito mais, apenas preciso lembrar: a forma de trabalhar poesia na escola é ultrapassada, aliada a um currículo antigo que, apesar de criticado, não muda. Você aí deve se lembrar do porre que foi fazer escansão de verso decassílabo de Camões, colocar o hino nacional em ordem direta e outras torturas que mais traumatizaram do que ensinaram algo para a vida. Enquanto isso, fora da escola a turma está fazendo batalhas de rima, slams e saraus que precisam fazer parte da escola. No nosso projeto Livro a Caminho, distribuímos livros doados por grandes editoras, e sempre com batalha de rimas, que a galera adora.

— Mais um caso de censura à literatura. Vergonhosamente, dessa vez é com o clássico A bolsa amarela, da nossa querida Lygia Bojunga. Escrevi sobre o assunto várias vezes, acho que a última aqui. Volto a dizer: enquanto governos e instituições permanecerem omissos e não encararem a censura como algo sério, com campanhas amplas de esclarecimento, vamos continuar com as mesmas notas de repúdio em cada caso, cujo resultado é anódino na raiz do problema.

— E para fechar o merchan: sou curador do Prêmio Pallas de Literatura, que está na terceira edição. Neste ano, serão aceitos livros de contos inéditos de autores autodeclarados negros (pretos e pardos que, segundo o IBGE, constituem a maioria da população). Quem vencer terá o livro publicado pela Pallas Editora, uma das casas mais legais do país, com 50 anos de estrada, e uma mentoria comigo. Interessado/a? Vai lá no site e confere o edital. As inscrições vão até o dia 29 de maio.

Até e axé!

Henrique Rodrigues é diretor do Instituto Caminhos da Palavra, voltado para a promoção do livro, leitura e escrita. Com mais de duas décadas de experiência na área, é coordenador geral do Prêmio Caminhos de Literatura e curador do Prêmio Pallas de Literatura. Nascido no subúrbio do Rio de Janeiro, formou-se em Letras pela Uerj, cursou especialização em Jornalismo Cultural pela Uerj, mestrado e doutorado em Letras pela PUC-Rio. Já foi atendente de lanchonete, balconista de videolocadora, professor, superintendente pedagógico da Secretaria de Estado de Educação do RJ, coordenador pedagógico do programa Oi Kabum! e gestor de projetos literários no Sesc Nacional. Publicou 24 livros, entre poesia, infantil, conto, crônica, juvenil e romance, tendo sido finalista do Prêmio Jabuti duas vezes. É patrono de duas salas de leitura das escolas públicas onde estudou. www.caminhosdapalavra.com.br

** Os textos trazidos nessa coluna não refletem, necessariamente, a opinião do PublishNews.

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