
A Festa Literária Internacional de Paraty é um fenômeno em vários aspectos. Nesses 24 anos em que acompanho o evento de perto, sinto ali resumidos muitos dos vícios e as virtudes do nosso fazer literário. Parece que foi ontem a primeira vez, quando tudo era mato, Eric Hobsbawn se equilibrando nas pedras, Adélia Prado fazendo todo mundo chorar, a gente sentado no chão Tenda da Matriz (não havia cadeiras, mas nossas nádegas à época tinham mais volume e viço), Salman Rushdie numa festa aprendendo a sambar com a minha amiga gaúcha que não sambava nada. Mas vamos por tópicos para a coisa ficar mais organizada:
— Essa Flip moleque, Flip várzea, Flip raiz não existe mais, pois o evento cresceu, naturalmente. Sem espaço para os lados, cresceu para dentro, sobretudo nos preços. A cada ano é mais caro estar ali: almoçar no centro histórico é uma gincana e fará o boleto do cartão gritar nas próximas semanas. E mesmo entrar nas programações das “casas parceiras”, como tem saído na imprensa, era meio cilada por conta da lotação.
— Mas ora, que evento cultural massivo não é uma cilada? Bienais de livro são testes de paciência, para ir a show de rock o pessoal aguenta todo tipo de vicissitude e intempérie. Então madames e madamos precisam deixar de ser bestas também, né?
— Porque a Flip não é um evento pequeno, mas atarracado. Com seus prós e contras. Já entrou naquela situação: quanto mais cara, mais desejada se torna e, assim, inflaciona. Seja para público, seja para expositores. Alugar um imóvel para fazer programação custa dezenas de milhares de reais, além da taxa para ser parceira da Flip. Todas as casas reclamam, mas não deixam de ir, assim como o público. Ano que vem deve aumentar, mas estaremos todos lá, é claro.
— No meio literário, a festa se tornou tão desejada quanto odiada. Estar na Flip é chique, mas falar mal dela nas redes sociais soa tão refinado quanto detonar Paulo Coelho, atividade praticada pelos literatos desde antes de a internet existir entre nós, no melhor estilo da raposa e as uvas.
— Porque muitos autores, editores e demais profissionais descascam o evento por ser elitista, ególatra, sudestino e mais uns tantos adjetivos pesados para essa coluna. E de repente estão lá postando “Manhê, tô na Flip!”.
— Há bem mais diversidade hoje nos quatro dias de festa. As casas parceiras, que antes eram apartadas do evento, engrossam muito o caldo. As curadorias dessas casas são meio caóticas, gerando conteúdos parecidos ou situações que fazem tremer o produtor cultural literário, como aquelas mesas com meia dúzia de pessoas para falarem em 50 minutos. Mas no fim todos se apertam e a coisa funciona, muito porque a galera das casas trabalha com paixão.
— Aliás, para quem trabalha na área, é um ponto de encontro para contatos, troca de ideias e projetos, além das fofocas e bebeções, ingredientes que movem nossa área. Uma vez, acho que por 2014, fizemos uma camisa com a frase A LITERATURA É A MINHA CACHAÇA. Muita gente queria comprar. Mas se tivesse A CACHAÇA É A MINHA LITERATURA seria igualmente aceita. Acho que muita gente bebe na Flip para esquecer. Esquecer o quê? Não sei, esqueci.
— Para o público em geral, é um evento bonito de se estar, apesar dos perrengues. Paraty é fotografável demais. O que enfeia, como é o meu caso, são as selfies.
— Um desafio para a Flip é justamente aquele advindo da sua natureza de evento cultural turístico. Tal como os outros festivais da cidade, é algo que não consegue ser feito para dentro, e sim para quem vem de fora passar seus cartões de crédito das classes média e alta, em sua maioria paulistana. A Flip é o evento cultural mais legal de São Paulo.
— Nenhuma outra FLI do país ou de fora, pelo que me lembro, tem essa peculiaridade, na qual dezenas de milhares de pessoas migram para morar na cidade durante todo o evento. Ou seja, o público é local ou de cidades vizinhas, que vai ver a programação e volta para casa. Na Flip, a população de Paraty entra no evento mais para trabalhar. Segundo conversei com balconistas, garçons e faxineiros, é mais um evento da cidade, sendo apenas o mais cheio.
— O programa educativo da Flip é feito com muito esforço e qualidade. Mas ele não é a espinha dorsal do evento. O principal são as estrelas internacionais e, nos últimos anos, algumas nacionais, todos da literatura adulta. Conforme apontei numa mesa sobre formação de leitores, nesses anos todos não me lembro de autor/a dedicado a livros para crianças no programa principal. Mas essa hierarquia não é um problema da Flip, e sim dos eventos literários em geral, e sobre isso escreverei depois.
— Lembro-me da Jornada Literária de Passo Fundo, evento bienal que mudou a cidade gaúcha e que, para mim, tinha um formato que considero ideal. Os autores participantes eram trabalhados previamente nas escolas públicas da região. Livros eram comprados e distribuídos, fazendo da Jornada uma culminância na qual os autores falavam para centenas de pessoas que haviam lido seus livros. Tenho uma história engraçada com Mia Couto num banheiro, mas isso só conto em mesa de bar. Enfim, aquele formato, em duas décadas, mudou a cidade. Pelo que diziam, Passo Fundo, inicialmente cm duas, passou a ter 17 livrarias. Soube que o evento voltará e espero que seja nos mesmos moldes.
— Espero não ser apedrejado por uma constatação técnica: em mais de duas décadas, a Flip não tornou Paraty uma cidade de leitores. Mas isso não é culpa do evento, que faz das tripas coração para continuar existindo. Nesta edição, conforme saiu em todo canto, a captação de recursos foi metade do que no ano anterior.
— Trabalhar com livro e leitura está bem difícil. Parece que os projetos têm se resumido cada vez mais a ações de marketing, distanciados de compromissos formativos de médio e longo prazos. Se está ruim para a Flip conseguir grana, imagina como é para agentes culturais menores espalhados pelo país, cujo resultado não tem apelo de “engajamento” para os patrocinadores privados. Nota mental: escrever sobre a humilhação que é captar recursos de renúncia fiscal junto a empresas.
— Papagaiamente, repito: um evento literário sozinho não forma leitores. Não são quatro dias de festa que vão criar uma prática que é processual. É preciso que haja outras frentes atuando de forma regular e sistemática na comunidade. Creio que a cidade que abriga o maior festival literário do país deveria ser palco também de programas de leitura exemplares, advindos dos governos federal e estadual, além do próprio município. Podemos entender que empresas como a Netflix vão para a Flip a fim de promover suas marcas e não têm compromisso socioeducativo algum com a choldra sul-fluminense, mas dos agentes públicos eu esperava mais consistência.
— Como diz nosso camarada Luiz Antônio Simas, o evento de cultura foi tomado pela cultura do evento. Tentei deixar minha contribuição para somar nesse aspecto. Na segunda-feira pós-Flip fomos visitar a escola estadual na entrada do Centro Histórico de Paraty para fazer nosso projeto Livro a Caminho, em que damos palestras, fazemos batalhas de rimas e doamos livros para a comunidade escolar levar para casa, incluindo merendeiras, turma da segurança e limpeza. As aulas estavam voltando naquele dia.
— Dos cerca de 80 alunos, nenhum tinha ido na Flip, tampouco os professores. Conversamos com a galera, meus camaradas escritores deram recados sobre leitura e sonhos, e doamos exemplares de livros doados pela TAG. Nesses movimentos, precisamos ir até os leitores, e não esperar que venham até nós.
— Ano que vem teremos a efeméride de um quarto de século de Flip, e vai ser uma lindeza. Mas a celebração, pelo menos para nós que estamos no front, precisa ser também do que acontece (e alertar para o que não acontece) entre uma festa e outra.
Henrique Rodrigues é diretor do Instituto Caminhos da Palavra, voltado para a promoção do livro, leitura e escrita. Com mais de duas décadas de experiência na área, é coordenador geral do Prêmio Caminhos de Literatura e curador do Prêmio Pallas de Literatura. Nascido no subúrbio do Rio de Janeiro, formou-se em Letras pela Uerj, cursou especialização em Jornalismo Cultural pela Uerj, mestrado e doutorado em Letras pela PUC-Rio. Já foi atendente de lanchonete, balconista de videolocadora, professor, superintendente pedagógico da Secretaria de Estado de Educação do RJ, coordenador pedagógico do programa Oi Kabum! e gestor de projetos literários no Sesc Nacional. Publicou 24 livros, entre poesia, infantil, conto, crônica, juvenil e romance, tendo sido finalista do Prêmio Jabuti duas vezes. É patrono de duas salas de leitura das escolas públicas onde estudou. www.caminhosdapalavra.com.br
** Os textos trazidos nessa coluna não refletem, necessariamente, a opinião do PublishNews.
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