
Os que convivem comigo sabem que os livros são onipresentes na minha vida. Há muito, eles deixaram de ser um objeto de trabalho — ou a minha principal fixação intelectual — para se tornarem a lente que uso para ler o mundo. Quase toda experiência acaba me levando de volta a eles: uma conversa, uma tecnologia, uma pesquisa, uma livraria, uma biblioteca ou uma viagem. É como se, ao acompanhar as transformações do mercado editorial, eu estivesse também acompanhando as transformações da própria sociedade.
Foi exatamente com esse “espírito do meu tempo” que cheguei da China. Voltei intrigada com uma imagem que contrariava quase tudo o que eu esperava encontrar. Nas ruas, é raro ver alguém caminhando com um livro nas mãos. O ritmo das cidades é vertiginoso, o trabalho ocupa uma parcela enorme da vida cotidiana e a tecnologia parece estar presente em cada aspecto da experiência urbana. Ainda assim, em praticamente todas as cidades por onde passei, encontrei bibliotecas monumentais, algumas com oito ou nove andares, lotadas inclusive aos domingos.
Vi livrarias belíssimas, cafés integrados a espaços de leitura e famílias inteiras desfrutando desses ambientes que são santuários de leitura. Confesso que aquelas cenas me desconcertaram um pouco. Como um país que lidera a corrida global da inteligência artificial continua investindo tanto em um dos mais antigos artefatos culturais da humanidade? Evidentemente, o livro assume novas configurações, ocupa espaços reinventados e convive com as tecnologias mais avançadas. Ainda assim, permanece no centro da vida pública.
Ainda com essa experiência de paradoxo ecoando, li — no The BookSeller — que as vendas da Bíblia dobraram no Reino Unido desde 2019, atingindo o maior patamar da história recente. Surfando essa onda gigante, grandes grupos editoriais lançam selos dedicados à religião e à espiritualidade. Mais surpreendente do que o crescimento do segmento é o perfil dos leitores: são principalmente integrantes da Geração Z e Millennials, atraídos por perguntas sobre identidade, pertencimento, propósito e sentido em um mundo cada vez mais instável.
Para muitas editoras mundo afora, esse movimento revela um inesperado efeito colateral da inteligência artificial. Se qualquer IA consegue produzir textos plausíveis em poucos segundos, cresce uma busca legítima por obras autênticas, ou seja, que trazem consigo um selo de qualidade da autoria humana. Acho, inclusive, que a busca por autenticidade — palavra tão repetida pelas novas gerações — passa por essa reflexão.
Nessa ótica, acredito que a literatura religiosa seja uma faceta visível do incômodo que a instabilidade contemporânea provoca. Talvez a minha formação em Matemática explique essa insistência em procurar padrões onde, à primeira vista, existem apenas fatos desconexos. Passei a desconfiar de que cada ciclo econômico produz a própria escassez. Explicando o meu ponto de vista... Na economia industrial, o desafio era produzir; na digital, a escassez deslocou-se para a atenção. Agora, na economia generativa — quando a produção de conteúdo deixa de ser uma limitação técnica —, acredito que estamos entrando na era da escassez de autenticidade. O que se torna raro já não é a capacidade de escrever, mas a capacidade de demonstrar origem, contexto, autoria e responsabilidade. Na prática, a procedência passa a ser um ativo estratégico. Aliás, esse foi o tema de uma coluna anterior sobre “livros parasitários”.
Sob essa perspectiva, episódios tão distintos quanto a proliferação dos livros parasitários, o crescimento da literatura religiosa e as bibliotecas lotadas da China deixam de parecer acontecimentos isolados. Todos apontam para a mesma mudança de valor, mesmo que constituam paradoxos. Quanto mais abundantes se tornam os textos, mais valioso passa a ser saber de onde eles vieram. Quanto mais sofisticadas são as ferramentas capazes de imitar uma voz (tema de outra coluna, aliás), maior é a demanda por vozes com autenticidade que possa ser comprovada.
“Mas o caminho dos paradoxos é o caminho da verdade. Para testar a verdade, precisamos vê-la na corda bamba. É quando as verdades se tornam acrobatas que podemos julgá-las”, disse Oscar Wilde em O retrato de Dorian Gray (Martin Claret, 2007, página 44). Em um momento em que o livro estava ameaçado de perder a relevância perante uma avalanche de conteúdos artificiais produzidos pela e para alimentar a tecnologia, vemos que novos paradoxos se formam. São eles que revelam uma nova lógica de valor que já começou a reorganizar o que vou chamar de Economia da Autenticidade.
*Lu Magalhães é fundadora do Grupo Primavera (Pri, de primavera & Great People Books), sócia do PublishNews e do #coisadelivreiro. Graduada em Matemática pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), possui mestrado em Administração (MBA) pela Universidade de São Paulo (USP) e especialização em Desenvolvimento Organizacional pela Wharton School (Universidade da Pensilvânia, Estados Unidos). A executiva atua no mercado editorial nacional e internacional há mais de 20 anos.
**Os textos trazidos nessa coluna não refletem, necessariamente, a opinião do PublishNews.
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