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Futuros Compostos | A IA está escrevendo livros que serão lidos por outras inteligências artificiais?
PublishNews, Lu Magalhães, 26/06/2026
Totalmente a favor de um contexto no qual a inteligência artificial colabore com os humanos, Lu Magalhães explica a Teoria da Internet Morta e as mudanças da arquitetura da internet em novo artigo

A Teoria da Internet Morta tem ocupado um tempo considerável nas minhas reflexões (e devaneios) — sobretudo quando penso no futuro do livro. Em um jantar que participei recentemente, uma das convidadas contou que nunca recebeu tantos convites para lançamentos de livro, inclusive de pessoas que, até pouco tempo, não se apresentavam como autores. Entre as hipóteses levantadas pelos presentes, emergiu o consenso de que o fenômeno pode ser explicado pela popularização do ChatGPT.

Em outra ocasião, em uma reunião com profissionais do mercado livreiro, surgiram histórias de livros — em fase de produção, após revisão — nos quais se liam questionamentos feitos pelo ChatGPT. Sabe aquelas perguntas sobre se deseja aprofundar ou reescrever tal trecho? Pois é... o que me leva a crer que tanto a escrita quanto a revisão foram feitas pela inteligência artificial.

Ao juntar as duas histórias, impossível não me lembrar da Teoria da Internet Morta — que surgiu em fóruns online na década de 2020 e foi difundida em 2021, com o texto Dead internet theory: Most of the internet is fake. Com toques conspiratórios, esse conceito se baseia na ideia de que uma parcela crescente da atividade digital está sendo produzida por bots, algoritmos e sistemas automatizados. Na prática, há uma redução progressiva na participação humana na criação e circulação de conteúdo.

Embora não existam evidências que confirmem uma faceta mais radical disso — a inexistência de humanos produzindo e consumindo conteúdo —, pesquisas recentes mostram que a teoria está apoiada em transformações concretas da rede. O mapeamento Imperva Bad Bot Report: Bad Bots in the Agentic Age revela que os bots responderam por 53% de todo o tráfego da internet em 2025, superando a atividade humana pelo segundo ano consecutivo e atingindo o maior patamar já registrado na série histórica de monitoramento da empresa. Em 2024, a participação dos agentes automatizados era de 51%. Agora, os humanos representam apenas 47% da movimentação online. Os dados apontam que o avanço está diretamente associado à popularização da inteligência artificial generativa e à proliferação de agentes autônomos capazes de coletar dados, produzir conteúdo, realizar buscas e executar tarefas na web sem intervenção humana constante. Sugerem, ainda, que não se trata de uma oscilação temporária provocada por uma onda específica de ataques ou por uma novidade tecnológica passageira.

A leitura do relatório mostra que estamos diante de uma transformação estrutural da própria arquitetura da internet. Em um ambiente cada vez mais povoado por máquinas que interagem com outras máquinas, empresas, plataformas e serviços digitais passam a operar não apenas para usuários humanos, mas também para uma crescente população de agentes automatizados.

E não para por aqui... a IA tem sido a resposta para a tal da fadiga e/ou burnout causados pelos aplicativos de relacionamento. Estou falando da exaustão emocional gerada pelo uso prolongado das plataformas — que tem por causa, especialmente, as conversas que vão do nada a lugar nenhum, a dinâmica que envolve rejeição, ghosting e a sensação de que pessoas são descartáveis. Eis que, em 2026, o Bumble anuncia o Bee — um assistente de namoro opcional que conversa privadamente com os usuários para compreender aspectos como valores, interesses, objetivos de vida e preferências afetivas antes de sugerir possíveis parceiros. Quando o sistema identifica duas pessoas com alta compatibilidade, ambas recebem uma notificação acompanhada de um resumo explicando os motivos daquela recomendação. Esse levantamento de dados alimenta a experiência de namoro chamada pelo aplicativo de Dates.

E cabe um questionamento: será que estamos rumando para a morte das interações humanas sem mediação de máquinas? Não sei a resposta. Os dados disponíveis não me autorizam a tirar conclusões definitivas. O que eles sugerem é que a internet está se tornando um ambiente cada vez mais habitado por máquinas que produzem, distribuem, organizam e consomem informação. Se a inteligência artificial já participa da produção de textos, da revisão de originais, da recomendação de obras e da mediação de relacionamentos, não parece absurdo perguntar até onde essa lógica pode chegar. Pense comigo: IA escreve; IA revisa; IA gera uma capa; IA cria release; IA recomenda; IA resume; IA transforma o livro em dado; IA usa esse dado para treinar outra IA. Na prática, tudo isso ocorre antes mesmo de alcançar o primeiro leitor humano.

Na hipótese de a Teoria da Internet Morta estar captando o espírito do nosso tempo, talvez o mais perturbador seja a proximidade de uma era em que inteligências artificiais escrevem livros que serão lidos por outras inteligências artificiais. E nós, humanos, ocuparemos uma posição curiosa nessa cadeia: a de quem teve a ideia inicial da automatização do pensamento e financiou, alegremente, toda a operação.

Ah... mas vale ressaltar que sou totalmente a favor de um contexto no qual a inteligência artificial colabore com os humanos — desde que seja a inteligência e os atributos realmente humanos a comandar essa interação. Recentemente ouvi de uma autora um outro viés sobre essa preocupação de que a IA esteja tirando trabalhos humanos. “Na verdade, até hoje, os humanos tiraram da IA o trabalho repetitivo, sem criatividade ou elaboração inteligente. Agora, estamos devolvendo a ela as funções repetitivas. Basta estabelecer, agora, o que vamos fazer com o tempo que ganhamos e como a nossa inteligência vai encontrar saídas para uma nova economia”, afirma.

*Lu Magalhães é fundadora do Grupo Primavera (Pri, de primavera & Great People Books), sócia do PublishNews e do #coisadelivreiro. Graduada em Matemática pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), possui mestrado em Administração (MBA) pela Universidade de São Paulo (USP) e especialização em Desenvolvimento Organizacional pela Wharton School (Universidade da Pensilvânia, Estados Unidos). A executiva atua no mercado editorial nacional e internacional há mais de 20 anos.

**Os textos trazidos nessa coluna não refletem, necessariamente, a opinião do PublishNews.

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