Publicidade
Publicidade
Antes do leitor, o encontro
PublishNews, André Palme, 10/08/2026
André Palme escreve nova coluna sobre a criação de livrarias e sobre as conexões proporcionadas pelos pontos de venda dos livros

Em uma das mesas que participei na Flip, tive uma conversa que não saiu da minha cabeça.
Era um papo sobre livros usados com o Guilherme Moura, fundador da Casa do Leitor, uma livraria em Bom Jesus dos Perdões, no interior de São Paulo. Ele contou que, quando decidiu abrir a única livraria da cidade, ouviu de muita gente que aquilo era uma loucura. Que uma cidade daquele tamanho não se interessa por livros. Que uma livraria era furada.


André Palme, Monica Ramalho e Guilherme Moura | © Alexandre Brum
André Palme, Monica Ramalho e Guilherme Moura | © Alexandre Brum

Enquanto ele falava, fiquei pensando que talvez existisse um erro escondido nessa conclusão. Ela parte da ideia de que primeiro precisam existir leitores para depois existir uma livraria. E se a ordem for justamente a contrária?

Continuei pensando nisso em Paraty nos dias seguintes. Aos poucos, comecei a perceber que a própria Flip parecia funcionar dessa maneira.

Você entra em uma casa porque gostou da fachada e sai querendo ler um autor que nunca tinha ouvido falar. Escuta uma conversa por acaso e muda completamente a programação do dia. Recebe uma indicação durante o almoço e termina a tarde procurando aquele título em uma livraria. Os livros deixam de ocupar apenas as estantes. Durante alguns dias, eles passam a ocupar a cidade.

Foi aí que a pergunta começou a fazer sentido. Talvez a Flip não seja apenas um encontro de leitores. Talvez ela seja, antes de tudo, um lugar onde aumentam as chances de pessoas e histórias se encontrarem.

Essa impressão voltou comigo pro Rio. No domingo em que a Flip acabou, acompanhei o lançamento de Eu duvido você terminar este livro, da Giuliana Mafra, na Galeria Magalu. A fila dobrava o quarteirão, teve gente que chegou 5 horas da manhã na porta da loja e mais de 500 exemplares foram vendidos em poucas horas.

Claro que o sucesso da autora explica boa parte disso. Mas: quantas daquelas pessoas saíram de casa decididas a comprar aquele livro? E quantas o descobriram porque estavam passando por ali, viram a movimentação e resolveram entrar? Talvez a gente nunca saiba a resposta.

Mas comecei a perceber que aquele lançamento na Galeria, a conversa com o Guilherme e os dias em Paraty não eram histórias diferentes. Eram variações da mesma ideia. Em todos aqueles lugares, alguém havia criado um contexto em que o encontro entre uma pessoa e uma história se tornava mais provável.

Passei muito tempo ouvindo — e repetindo — que um dos grandes desafios do nosso mercado é formar novos leitores. Continuo achando que essa é uma discussão importante. Mas saí da Flip com a impressão de que talvez exista uma pergunta anterior.

Como criamos mais oportunidades para que pessoas e histórias se encontrem? Essa mudança de perspectiva parece pequena, mas muda bastante coisa. Ela amplia o papel das livrarias, das bibliotecas, das escolas, das feiras literárias, dos clubes de leitura, das plataformas digitais, dos Booktokers e de todos aqueles que, de alguma forma, ajudam uma história a encontrar alguém.

Não tenho certeza de que essa ideia responda aos desafios da leitura no Brasil.

Mas, desde que voltei de Paraty, ela me parece uma pergunta melhor pra começar a conversa.

André Palme possui mais de 20 anos de carreira, sendo 14 deles dedicados ao mercado editorial e à transformação do ecossistema do livro no Brasil. Ao longo da trajetória, liderou projetos de inovação envolvendo publishing, tecnologia, conteúdo digital e novos modelos de negócio em empresas como Storytel e Skeelo. Atualmente, lidera a Estante Virtual, marketplace de livros do Magalu, trabalhando na construção de uma plataforma onde cultura, descoberta e commerce se encontram através dos livros. Seu trabalho conecta cultura, tecnologia e mercado, com foco em ampliar as formas de acesso, circulação e relevância dos livros na vida das pessoas. Também atua como colunista, professor, mentor e membro da Comissão de Inovação e Tecnologia da Câmara Brasileira do Livro (CBL).

** Os textos trazidos nessa coluna não refletem, necessariamente, a opinião do PublishNews

Publicidade
Leia também
Mercado do livro está entrando em uma era em que o ativo mais valioso não será apenas vender livros, mas organizar possibilidades de descoberta entre milhões deles
"Se a gente quer que o livro esteja em todos os lugares, ele precisa sair da lógica de vitrine estática e virar experiência em qualquer lugar", pondera o colunista
"Morar no Rio de Janeiro me trouxe de volta aos espaços de leitura. Voltar a frequentar esses lugares é, para mim, uma forma de conectar com a cidade e com as ideias que nela se movimentam". Leia a coluna!
Ao apoiar um desfile, a Estante Virtual sinaliza uma mudança: o livro começa a sair da estante para circular onde as conversas culturais realmente acontecem
O consumo de livros não acontece isolado, mas conectado a referências, símbolos e afetos que já estão no imaginário coletivo
Publicidade

Mais de 13 mil pessoas recebem todos os dias a newsletter do PublishNews em suas caixas postais. Desta forma, elas estão sempre atualizadas com as últimas notícias do mercado editorial. Disparamos o informativo sempre antes do meio-dia e, graças ao nosso trabalho de edição e curadoria, você não precisa mais do que 10 minutos para ficar por dentro das novidades. E o melhor: É gratuito! Não perca tempo, clique aqui e assine agora mesmo a newsletter do PublishNews.

Outras colunas
André Palme escreve nova coluna sobre a criação de livrarias e sobre as conexões proporcionadas pelos pontos de venda dos livros
Todas as sextas-feiras, uma nova tirinha de Estevão Ribeiro
Área plurieditorial do PublishNews divulga obra da vencedora do Prêmio Ecos de Literatura 2025
Em sua coluna, Henrique Rodrigues observa o evento como reflexo das mudanças na cena literária brasileira
Em viagem à China, fundadora do Grupo Primavera reflete sobre os títulos buscados por leitores em busca de si
O livro não está em crise. O mercado, sim. Somos frágeis!
João Scortecci
Editor, Gráfico, Livreiro e Diretor Editorial da Abigraf

Você está buscando um emprego no mercado editorial? O PublishNews oferece um banco de vagas abertas em diversas empresas da cadeia do livro. E se você quiser anunciar uma vaga em sua empresa, entre em contato.

Procurar

Precisando de um capista, de um diagramador ou de uma gráfica? Ou de um conversor de e-books? Seja o que for, você poderá encontrar no nosso Guia de Fornecedores. E para anunciar sua empresa, entre em contato.

Procurar

O PublishNews nasceu como uma newsletter. E esta continua sendo nossa principal ferramenta de comunicação. Quer receber diariamente todas as notícias do mundo do livro resumidas em um parágrafo?

Assinar