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De Odete Roitman a Rosa Montero: quando a ficção impulsiona as vendas de livros
PublishNews, André Palme, 12/09/2025
O consumo de livros não acontece isolado, mas conectado a referências, símbolos e afetos que já estão no imaginário coletivo

Cena da novela Vale Tudo, da TV Globo, em que a personagem Odete Roitman aparece com o livro de Rosa Montero | © Reprodução / TV Globo
Cena da novela Vale Tudo, da TV Globo, em que a personagem Odete Roitman aparece com o livro de Rosa Montero | © Reprodução / TV Globo
Uma cena de novela foi suficiente para turbinar um título entre os mais vendidos no Brasil. Em Vale Tudo, a personagem Odete Roitman apareceu lendo O perigo de estar lúcida, de Rosa Montero, publicado pela Todavia. O impacto foi imediato: segundo reportagem da Veja Rio, as buscas no Google por título e autora cresceram 180% e as vendas subiram cerca de 60% em apenas um dia.

Casos assim não são novidade, mas continuam a surpreender pela força com que mostram o poder das narrativas em múltiplas plataformas. Livros já ganharam vida nova depois de citados em músicas, filmes ou séries de streaming. Basta lembrar de O conto da aia (Rocco), de Margaret Atwood, que voltou às listas de mais vendidos após a adaptação da Hulu; ou mesmo de Duna (Aleph), de Frank Herbert, relançado em dezenas de países quando a adaptação cinematográfica de Denis Villeneuve chegou às telas.

No Brasil, os exemplos também são abundantes. Capitães da areia (Companhia das Letras), de Jorge Amado, voltou a figurar entre os mais vendidos depois de ser mencionado em Segundo Sol, novela da Globo ambientada na Bahia. Outro caso curioso ocorreu com Grande sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, que ganhou picos de interesse sempre que era citado em reality shows ou em falas de artistas populares. Mais recentemente, títulos como Pequeno manual antirracista (Companhia das Letras), de Djamila Ribeiro, tiveram sua circulação ampliada após debates televisivos e menções em programas de grande audiência. Até no Big Brother Brasil já vimos livros saltarem de vendas quando aparecem na mão de um participante ou são citados em conversas dentro da casa.

O que aconteceu com Rosa Montero e Odete Roitman reforça um ponto fundamental: o consumo de livros não acontece isolado, mas conectado a referências, símbolos e afetos que já estão no imaginário coletivo. O texto em si não se transformou, mas o contexto sim. O livro passou a circular carregado da aura de uma personagem icônica da teledramaturgia brasileira, e isso tem peso.

Outro aspecto relevante é a ausência de uma campanha tradicional. Não houve anúncios, nem redes de livrarias orquestrando a ação. O efeito surgiu de uma integração narrativa: a obra foi incorporada à trama de forma orgânica, como parte da construção de personagem. Essa naturalidade deu ao livro um alcance muito mais potente do que se fosse inserido como mera propaganda. Claro, vale pontuar aqui que a presença da autora na Flip esse ano impulsionou também o livro, junto com ações da própria editora quando do lançamento e da sustentação do título...mas não estou levando isso em tanta consideração nesse caso.

A partir daí, formou-se uma cadeia de amplificação. A televisão foi o gatilho inicial. As redes sociais amplificaram, transformando uma curiosidade em tendência de busca. O varejo digital consolidou o movimento, com o título despontando nas listas de mais vendidos. Cada mídia cumpriu seu papel e, juntas, transformaram uma referência aparentemente lateral em um boom comercial.

Esse tipo de circulação híbrida ajuda a explicar por que editoras no mundo todo têm investido em áreas como brand publishing, product placement e parcerias cross-media. Nos EUA, por exemplo, há equipes inteiras monitorando quais livros aparecem no BookTok ou são citados em séries da Netflix, prontas para reativar campanhas de marketing e reimprimir tiragens em questão de horas. No Brasil, ainda reagimos de forma mais pontual, muitas vezes com atraso em relação ao pico da onda.

O episódio de Rosa Montero e Odete Roitman deixa uma provocação clara: se uma cena de novela é capaz de transformar a sorte de um título, como o mercado editorial brasileiro pode se preparar para reconhecer, acolher e potencializar esses momentos de convergência? Isso envolve desde uma maior integração entre marketing e comercial até a criação de processos ágeis para reposição de estoque e comunicação em tempo real com leitores. Sempre lembro do artigo do Bruno Zolotar falando sobre o poder de Jô Soares de colocar livros na lista de mais vendidos.

Em um cenário de consumo cada vez mais fragmentado, esses pontos de contato inesperados podem ser tão ou mais estratégicos do que as grandes campanhas planejadas com meses de antecedência. Afinal, histórias ganham força quando encontram ressonância — e muitas vezes essa ressonância nasce onde menos esperamos.

André Palme possui mais de 20 anos de carreira, sendo 14 deles dedicados ao mercado editorial e à transformação do ecossistema do livro no Brasil. Ao longo da trajetória, liderou projetos de inovação envolvendo publishing, tecnologia, conteúdo digital e novos modelos de negócio em empresas como Storytel e Skeelo. Atualmente, lidera a Estante Virtual, marketplace de livros do Magalu, trabalhando na construção de uma plataforma onde cultura, descoberta e commerce se encontram através dos livros. Seu trabalho conecta cultura, tecnologia e mercado, com foco em ampliar as formas de acesso, circulação e relevância dos livros na vida das pessoas. Também atua como colunista, professor, mentor e membro da Comissão de Inovação e Tecnologia da Câmara Brasileira do Livro (CBL).

** Os textos trazidos nessa coluna não refletem, necessariamente, a opinião do PublishNews

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