
O ponto que me desconcerta, ao assistir às cenas da interação da criança com os dois objetos, é que essa parece ser uma das primeiras vezes que percebi, de forma visual e concreta, que uma geração inteira cresceria considerando o gesto de deslizar o dedo na tela mais intuitivo do que virar uma página.
Essa cena, inclusive, costuma ser interpretada pela maioria das pessoas como uma homenagem involuntária à revolução das telas sensíveis ao toque. No entanto, ela escancara como o suporte — nesse caso, de leitura — molda a forma como percebemos a realidade. E, aqui, não estou sozinha nessa conclusão.
Em Os meios de comunicação como extensões do homem (1964), Marshall McLuhan argumenta que cada tecnologia reorganiza silenciosamente a maneira do indivíduo perceber e interpretar o mundo. Foi nesse contexto que ele formulou uma das ideias mais influentes do século XX: “o meio é a mensagem”. Passadas seis décadas, o TikTok e as comunidades digitais de leitura nos convidam a revisitar essa máxima sob uma nova perspectiva. Afinal, o que acontece quando uma tecnologia criada para acelerar o consumo de conteúdo se transforma, paradoxalmente, em uma máquina de ressuscitar livros?
Ressuscitar soa forte, não é?! Mas, acho que é uma palavra que dá conta desse fenômeno de livros antigos que entram novamente na moda. E não estou falando daqueles que ganham adaptações para o cinema ou para as séries, porque esse tipo de retorno é impulsionado pela máquina poderosa da indústria do entretenimento.
Explicando melhor... debate-se correntemente que as redes sociais encurtam a capacidade de atenção e empurram os livros para as margens da cultura. A lógica parece simples: quanto mais rápidas as plataformas, menos espaço haveria para leituras longas, densas e reflexivas. No entanto, algo inesperado aconteceu. Aqui lembro a célebre frase do dr. Ian Malcolm (interpretado pelo ator Jeff Goldblum), no filme Jurassic Park: “A vida encontra um jeito. A vida não pode ser contida, a vida se liberta, expande novos territórios e quebra barreiras...”
Em meio ao fluxo exaustivo de vídeos curtos, obras publicadas há décadas voltaram a circular. Livros esquecidos encontraram novos e jovens leitores. Catálogos antigos reapareceram nas listas dos mais vendidos. E editoras começaram a perceber que o valor de uma obra não se esgota necessariamente nos meses após o lançamento. Vale ressaltar que não estou falando de obras clássicas — para os quais esse fluxo é notoriamente conhecido.
Recentemente, executivos do mercado editorial internacional discutiram, no Australian Society of Authors, um fenômeno curioso: a vida comercial dos livros parece estar se alongando. Se antes muitos títulos concentravam a trajetória em cerca de um ano, hoje podem permanecer relevantes por três anos ou mais. Eles alegam que o que estamos testemunhando não é apenas um aumento da longevidade dos livros — estamos diante do surgimento de uma nova temporalidade cultural.
Durante grande parte do século XX, a indústria editorial operou segundo a lógica da novidade. O lançamento era o centro gravitacional do mercado. Havia uma janela relativamente curta de divulgação, vendas e atenção pública. Depois disso, o livro seguia para o catálogo, uma espécie de arquivo respeitável do passado. A internet, entretanto, alterou a equação. Plataformas digitais, redes sociais, algoritmos de recomendação e marketplaces criaram um ambiente em que praticamente qualquer obra pode voltar a ser descoberta a qualquer momento. Um vídeo gravado por um leitor desconhecido, uma recomendação compartilhada entre amigos ou uma conversa em uma comunidade de leitores pode recolocar um livro antigo no centro do debate cultural.
Na defesa dos editores que participaram do fórum australiano, o catálogo deixa de ser um depósito de obras publicadas e passa a funcionar como uma reserva de possibilidades ainda não ativadas.
Essa transformação não diz respeito apenas aos livros. Ela fala sobre a forma como descobrimos o mundo. As novas gerações cresceram em um ambiente em que a busca por informação, entretenimento e conhecimento acontece por meio de redes, conexões e recomendações distribuídas. A autoridade continua existindo, mas divide espaço com comunidades, criadores de conteúdo, influenciadores e pares. Em vez de receber indicações de poucos intermediários, passamos a navegar por uma multiplicidade de caminhos de descoberta. E, um ponto importante: esse comportamento emergente se expande para atingir as gerações mais maduras.
Especulando as causas, lembro que os algoritmos não operam segundo a cronologia das livrarias e dos calendários editoriais. Eles operam por associação. Não perguntam quando um livro foi publicado. Perguntam com quais interesses, emoções, inquietações ou debates contemporâneos ele ainda consegue se conectar.
Talvez estejamos entrando na era dos livros assíncronos. Se antes tínhamos medo de que a abundância de informação soterrasse a memória cultural, agora vemos surgir uma hipótese oposta: a tecnologia não está apenas acelerando o presente, mas ampliando a capacidade humana de revisitar o passado e atribuir novos sentidos a ele.
Alguns livros encontram seus leitores imediatamente. Outros parecem esperar anos, às vezes décadas, até que uma mudança cultural revele sua relevância. Não porque tenham mudado, mas porque nós mudamos.
O vídeo do bebê diante da revista parecia anunciar o fim de uma era. Talvez estivesse anunciando apenas uma transformação. Afinal, em uma época obcecada por novidades instantâneas, o futuro do livro pode depender menos da próxima novidade e mais da capacidade de redescobrir aquilo que já foi escrito. O “novo sucesso” literário pode estar aguardando o seu momento em uma estante empoeirada!
*Lu Magalhães é fundadora do Grupo Primavera (Pri, de primavera & Great People Books), sócia do PublishNews e do #coisadelivreiro. Graduada em Matemática pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), possui mestrado em Administração (MBA) pela Universidade de São Paulo (USP) e especialização em Desenvolvimento Organizacional pela Wharton School (Universidade da Pensilvânia, Estados Unidos). A executiva atua no mercado editorial nacional e internacional há mais de 20 anos.
**Os textos trazidos nessa coluna não refletem, necessariamente, a opinião do PublishNews.
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