
Para a humanidade, os livros sempre foram uma das formas de traduzir o mundo. Transformamos medos, desejos, conflitos e inquietações – pessoais e coletivas — em narrativas que dão materialidade à nossa tentativa de elaborar o que estamos vivendo e que, muitas vezes, nem conseguimos nomear. Uma análise do Fórum Econômico Mundial aponta que há três forças que vão definir o século XXI: clima, longevidade e inteligência artificial. Essa tríade, ouso pensar, não pode ser lida de maneira isolada, pois as transformações que esses temas provocam estão profundamente conectadas.
Com base nessa classificação do Fórum, fiz uma exercício exploratório de olhar o mercado livreiro global para identificar como essas três forças estão pautando o que escrevemos, lançamos e lemos. Meu movimento não se baseia em encontrar, quantitativamente, livros sobre o clima, o envelhecimento ou a inteligência artificial. O que me interessa, essencialmente, é aventar hipóteses sobre como essas transformações estão sendo traduzidas por autores. Na minha pesquisa empírica, vi que elas aparecem como temas, personagens e na maneira como o leitor se relaciona com o livro.
A IA, como tenho abordado nas colunas anteriores, é tema em várias obras — e, pior, autora, também! Até porque os livros não apenas registram o mundo, correto?! Mas, na primeira digressão sobre essas forças, gostaria de começar com a emergência climática... Há um tempo, escritores já imaginam mundos transformados pelo clima. Em The drowned world (1962), J. G. Ballard criou uma Londres submersa pelo aumento das temperaturas. Em Parable of the sower (1993), Octavia Butler projetou para 2024 uma Califórnia atravessada por calor, incêndios, escassez e desagregação social. Décadas depois, Kim Stanley Robinson trouxe para as páginas de The Ministry for the Future (2020) uma onda de calor devastadora na Índia. Um ponto a observar é o quão difícil é enxergar, nessas obras, a linha que divide o mero exercício de imaginação futurística de uma realidade assustadoramente familiar!
Entretanto, no momento, vejo que há algo diferente na Climate Fiction — que começa a borrar, inclusive, as fronteiras da ficção científica e da distopia. Em 2026, The Climate Fiction Prize chegou à segunda edição com seis romances que percorrem literatura experimental, mitologia, ficção científica e saga familiar. A diversidade da seleção sugere que o clima deixou de ser um gênero para se tornar uma condição narrativa que ilustra o espírito do nosso tempo.
A vencedora deste ano conduziu uma mistura ainda mais interessante. Hum, de Helen Phillips, combina degradação ambiental, inteligência artificial, vigilância e precarização do trabalho. A protagonista perde o emprego para a inteligência artificial e, em uma cidade quase sem natureza, leva a família ao último jardim botânico existente. Clima e tecnologia aparecem unidas como peças de um mesmo futuro.
Outro exemplo é When there are wolves again, de E. J. Swift — que venceu, em agosto, o Arthur C. Clarke Award 2026, um dos mais importantes prêmios da ficção científica britânica. Essa edição, aliás, foi um recorde com 132 livros inscritos por 52 editoras e autores independentes. A obra em questão acompanha duas mulheres ao longo de meio século, em uma Grã-Bretanha atravessada pela crise climática, e coloca no centro da narrativa ativismo, rewilding — a recuperação de ecossistemas e a reintrodução de espécies — e a possibilidade de regeneração ambiental. Ao anunciar o prêmio, o diretor da premiação definiu o romance como um estudo sobre o poder da esperança de longo prazo diante do colapso climático. O presidente do júri da premiação chamou atenção para a combinação entre transformação ambiental e possibilidade de recuperação. Achei interessante que, ao mesmo tempo que o problema é abordado, a narrativa apresenta saídas viáveis para um futuro menos desastroso.
Esse ponto, aliás, é, na minha opinião, uma das transformações mais interessantes da Climate Fiction. Depois de décadas nos treinando para imaginar cidades submersas, sociedades em colapso e planetas inabitáveis, parte dessa literatura começa a experimentar também resiliência, adaptação e regeneração. E não estou sozinha nessa elaboração. Um artigo do The Washington Post identificou esse movimento ao analisar, no início de 2026, como as narrativas climáticas vêm se diversificando para além da tradição distópica e pós-apocalíptica, incluindo o Solarpunk — que imagina sociedades capazes de construir relações mais sustentáveis com o planeta. Vejo, inclusive, que muitos autores e editoras alinham as produções editoriais ao objetivo de alertar a humanidade para os riscos e potencialidades de soluções.
Enquanto pesquisava esses livros, lembrei-me de uma conversa que tive, nesta coluna, com Coral Michelin sobre futuros pluriversais. Na ocasião, falamos sobre a diferença entre imaginar futuros especulativos — inclusive aqueles que não queremos — e construir futuros regenerativos. Coral trouxe uma ideia que ficou comigo: aquilo que chamamos de presente também já foi, um dia, uma visão de futuro. E se os futuros que imaginamos no passado ajudaram a construir o mundo que habitamos hoje, ampliar nosso repertório de futuros possíveis não é um exercício menor.
Acredito que uma das funções da produção literária é ajudar o leitor a elaborar o entendimento sobre o mundo. Se a literatura nos ensinou a imaginar o colapso, talvez agora precise também nos ensinar a imaginar o que vem depois dele. Ou seja, a literatura climática nos ajudou a dar materialidade ao risco quando boa parte dele ainda parecia distante. Agora que incêndios, enchentes, temperaturas extremas e perda de biodiversidade atravessaram a fronteira entre ficção e realidade, imaginar apenas o colapso parece aquém da potencialidade humana. Precisamos também de histórias capazes de dar corpo e alma à regeneração. Se fomos tão competentes em imaginar o fim do mundo, está mais do que na hora de ampliarmos o repertório sobre como queremos continuar vivendo no planeta.
Na próxima coluna, vamos falar sobre o envelhecimento populacional e como essa nova demografia está sendo traduzida pelos livros.
*Lu Magalhães é fundadora do Grupo Primavera (Pri, de primavera & Great People Books), sócia do PublishNews e do #coisadelivreiro. Graduada em Matemática pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), possui mestrado em Administração (MBA) pela Universidade de São Paulo (USP) e especialização em Desenvolvimento Organizacional pela Wharton School (Universidade da Pensilvânia, Estados Unidos). A executiva atua no mercado editorial nacional e internacional há mais de 20 anos.
**Os textos trazidos nessa coluna não refletem, necessariamente, a opinião do PublishNews.
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