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Futuros Compostos | Paper-fi: novidade com sabor de nostalgia
PublishNews, Lu Magalhães, 25/03/2026
Produto criado por uma startup norte-americana oferece trilhas sonoras sincronizadas com livros físicos que acompanham o leitor, em tempo real, a cada virada de página

Paper-fi: não é livro digital, nem audiolivro | © Radioposter
Paper-fi: não é livro digital, nem audiolivro | © Radioposter
Tenho um hábito que pode ser extremamente irritante para algumas pessoas, mas que é parte constitutiva da minha personalidade: questiono tudo – inclusive, as inovações. Com isso às claras, na coluna desta semana, quero abordar o lançamento da Paper-fi – um produto criado pela startup norte-americana Radioposter. A ideia é oferecer trilhas sonoras sincronizadas com livros físicos que acompanham o leitor, em tempo real, a cada virada de página. Detalhe: sem chips embutidos no papel, sem códigos ou QR para escanear.

Para o feito, o sistema combina visão computacional patenteada com outros recursos acessados por meio de um smartphone ou óculos inteligentes para identificar, em tempo real, em que ponto o leitor está. A partir disso, aciona automaticamente o áudio correspondente – música, ambiência ou narração –, acompanhando o ritmo da leitura, sem exigir interrupções ou comandos. Os livros que compõem a empreitada não são do formato tradicional: eles são construídos como experiências visuais, em que imagem e som não apenas complementam, mas conduzem a narrativa.

A primeira obra – o guia visual e sonoro Forest bathing for punks, com edição de 10 mil exemplares – é apresentada como um artefato meditativo, criada para acalmar a mente com a combinação de natureza (aborda as plantas mais resistentes e seus sistemas de defesa extraordinários), música punk e caos. Do ponto de vista do negócio, a empresa concentra tanto a publicação dos próprios títulos quanto o desenvolvimento do aplicativo que dá suporte à experiência. Dois livros já chegaram ao mercado, enquanto outros seguem em produção. Inclusive, o projeto tem captado artistas interessados em explorar o formato, oferecendo programas que acompanham todo o processo de criação e publicação.

A proposta, segundo os empreendedores, é dar ao papel um superpoder de ajudar as pessoas a combater o hábito de rolar a tela sem parar (scrolling). Na prática, um convite a trazer a atenção de volta ao mundo analógico (será?!), livre dos algoritmos, mas sem abrir mão do som – que torna o conteúdo da web atraente. E os criadores da solução fazem um alerta: não se trata de e-book, audiolivro ou realidade aumentada! É apenas papel e som, trazendo o melhor da internet para o mundo físico.

E o que essa inovação tem a ver com a minha verve questionadora? Quase tudo! Quando o meu amigo André Palme enviou a notícia do lançamento da Paper-fi, imediatamente lembrei-me de um hábito recorrente de muitos jovens da década de 1980: ler, estudar, escrever trabalhos inteiros com um rádio ou toca-fitas e vitrolas, rodando músicas/álbuns das bandas favoritas. Na época, a música não era uma distração – mas uma parte importante de um rito de organizar tarefas e pensamentos a partir do som. O silêncio absoluto – que muita gente associa à leitura “ideal” – nunca foi muito idolatrado pelos jovens da Geração X.

Na visão do André, head da Estante Virtual e também colunista do PublishNews, é sempre interessante ver o livro expandindo os seus horizontes e se integrando com outras mídias como a música. “São novas maneiras de incentivar a leitura e fazer com que a imersão na história possa ser ainda maior. Desde que respeitadas as lógicas de direito autoral, vejo essas iniciativas sempre com otimismo e curiosidade!”, opina.

Do meu lado, revisitar essas memórias me ajudou a deslocar o olhar sobre propostas como o Paper-fi. Não enxergo a solução como uma ruptura, mas vejo que há uma reedição – mediada pela tecnologia – de uma intuição de gerações que entendiam que a leitura poderia conviver com outras camadas sensoriais. E há, na minha opinião, um padrão comportamental mais livre.

Ao mesmo tempo que indago o ineditismo, vejo o Paper-fi como um sintoma comportamental e uma resposta cultural ao enjoo desse scroll infinito e do consumo fragmentado de informações. Entendo que há um desejo por experiências novas, mas que tenham começo, meio e fim; que capturem a nossa atenção de uma maneira mais qualificada. É, também, um baita exemplo de como o mercado editorial (embora a Radioposter não seja) pode inovar a partir de incômodos contemporâneos.

Na próxima coluna, espero falar sobre o conceito de “editora-curadora” – um modelo que tem muito a ver com a importância de ler os desafios de leitura à luz da criação de experiências customizadas em meio ao excesso de informação.

*Lu Magalhães é fundadora do Grupo Primavera (Pri, de primavera & Great People Books), sócia do PublishNews e do #coisadelivreiro. Graduada em Matemática pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), possui mestrado em Administração (MBA) pela Universidade de São Paulo (USP) e especialização em Desenvolvimento Organizacional pela Wharton School (Universidade da Pensilvânia, Estados Unidos). A executiva atua no mercado editorial nacional e internacional há mais de 20 anos.

**Os textos trazidos nessa coluna não refletem, necessariamente, a opinião do PublishNews.

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