Acredito que, de um modo quase orgânico, os livros vão chegando perto dos leitores quando têm algo a ensinar sobre determinada fase da vida. É como se certas narrativas, ideias e certos gêneros soubessem se aproximar no tempo exato em que estamos abertos para entender um sentimento, uma emoção, um momento. Quando me tornei avó, algo curioso aconteceu: minha atenção foi capturada, novamente, pelos livros infantis e infantojuvenis. Como mãe, já estive nesse mesmo lugar, mas agora é diferente! É aquela máxima de Heráclito de que ninguém se banha duas vezes no mesmo rio, porque as águas e o ser humano não permanecem iguais.
Passei a folhear esses livros movida por um duplo impulso: o da investigação profissional e o do afeto. Queria entender como essas narrativas têm se orientado em tempos de infâncias algorítmicas, atravessadas por telas, dados e estímulos contínuos. E queria perceber de que maneira dialogam com debates contemporâneos como o da diversidade — afinal, a literatura infantil e infantojuvenil sempre foi um dos primeiros territórios de encontro com a alteridade. É ali, pela via da ficção, que os jovens leitores descobrem que existem outras maneiras de viver, sentir e pertencer ao mundo.

Babi chama atenção para algo impossível de ser substituído pela tecnologia: o processo interno da leitura. “Ao ler, cada pessoa — seja criança, jovem, adulto ou idoso — constrói mentalmente cenários, vozes, expressões e atmosferas. Esse processo favorece a elaboração de questões fundamentais da vida, como amizade, medo, pertencimento, justiça, identidade e escolhas, e cria condições para que sentimentos complexos sejam nomeados e compreendidos.” Ao acompanhar trajetórias diversas, acrescenta, esse leitor exercita a empatia e amplia a capacidade de reconhecer perspectivas diferentes da sua.
Entretanto, a disputa por atenção é real. Os estímulos digitais e o foco protagonizam um cabo de guerra, disputando centímetro a centímetro a atenção de crianças e jovens. Ainda assim, o livro permanece como alternativa consistente e fonte singular de criatividade. “Enquanto outros meios oferecem estímulos velozes e interações imediatas, a leitura convida à imersão, ao tempo desacelerado e à construção interna de sentidos”, comenta.
Quando pergunto se a inteligência artificial tende a empobrecer ou expandir a criação literária para crianças e jovens, a resposta vem de maneira bastante tranquila. Para ela, a IA tem potencial para ampliar processos criativos, facilitar pesquisas e propor novas combinações narrativas. Pode ser ferramenta. Pode abrir caminhos. Mas há um ponto de atenção: muitas pesquisas indicam que esses sistemas também operam por padronização, repetindo estruturas semelhantes de enredo e oferecendo respostas previsíveis a partir de grandes volumes de dados já existentes. Ao se apoiar em padrões recorrentes, a IA tende a privilegiar fórmulas consolidadas, reduzindo a variedade de vozes e experiências.
Voltando à perspectiva de uma avó leitora — preocupada em “contaminar” os netos com o amor pelos livros, da mesma forma como "contaminei" as minhas filhas —, observo que embora essa nova geração cresça entre telas, assistentes virtuais e narrativas sob demanda, haverá sempre o encantamento provocado pelo exercício da imaginação. Ao escolher um livro para ler com a criança, por exemplo, percebo que algo permanece profundamente humano: o silêncio compartilhado, a imaginação que se constrói por dentro, a conversa que nasce depois da última página. Se o futuro é inevitavelmente tecnológico, ele também será inexoravelmente imaginativo!
*Lu Magalhães é fundadora do Grupo Primavera (Pri, de primavera & Great People Books), sócia do PublishNews e do #coisadelivreiro. Graduada em Matemática pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), possui mestrado em Administração (MBA) pela Universidade de São Paulo (USP) e especialização em Desenvolvimento Organizacional pela Wharton School (Universidade da Pensilvânia, Estados Unidos). A executiva atua no mercado editorial nacional e internacional há mais de 20 anos.
**Os textos trazidos nessa coluna não refletem, necessariamente, a opinião do PublishNews.
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