
Em uma mesma semana de maio, dois documentos chegaram pedindo atenção. O primeiro foi o Manual de boas práticas de IA, publicado pela Câmara Brasileira do Livro, que ajudei a escrever dentro da Comissão de Inovação e Tecnologia coordenada pela Cinthya Müller. O segundo foi a encíclica Magnifica Humanitas, assinada pelo Papa Leão XIV no dia 15 de maio.
Confesso que ao ler a encíclica em paralelo ao nosso manual, fiquei imaginando o Papa lendo o manual da CBL! A piada esconde uma coisa séria. Manual setorial brasileiro e documento doutrinal católico chegam à mesma conclusão sobre IA, com palavras diferentes. Não é coincidência. E o que isso diz pra nós editores vale o esforço.
Antes de entrar no mérito, um pequeno parêntese. Quando lemos “carta encíclica do Santo Padre”, pensamos automaticamente em alguém sentado sozinho com uma caneta. Não é bem assim.
Encíclicas são documentos de magistério escritos a muitas mãos. O Papa assina e define a direção, mas o texto passa por consultores, teólogos e, quando o tema exige, por especialistas técnicos. Magnifica Humanitas trata de IA, robótica e por aí vai. Esse tipo de conteúdo não sai do escritório do Papa sem o trabalho de quem entende do assunto por dentro.
O paralelo com o nosso manual é direto. Não foi um texto escrito por uma única pessoa numa tarde de inspiração. Saiu do trabalho colaborativo da Comissão de Inovação e Tecnologia da CBL, com editoras de portes muito diferentes, distribuidores e a própria CBL discutindo cada princípio. Documentos sobre IA não são autoria solitária. São discernimento coletivo.
Isso importa porque, nos últimos dois anos, textos sobre IA viraram quase um gênero de Instagram: opinião servida rápido, sem contexto, sem revisão crítica. Tanto o manual quanto a encíclica fazem o oposto. Levaram tempo. Passaram por muita gente antes de virar texto.
Aqui é onde a piada começa a fazer sentido.
O subtítulo da encíclica é “Sobre a salvaguarda da pessoa humana na era da inteligência artificial”. O primeiro princípio do nosso manual, em letras garrafais, é “Primazia humana e responsabilidade”. Os dois documentos abrem dizendo a mesma coisa, com vocabulário diferente.
Leão XIV escreve que a tecnologia “não é, em si mesma, um mal”, mas que “na prática, não é neutra, porque tem o rosto daqueles que a concebem, financiam, regulam e utilizam”. Nós, no manual, dissemos que a IA deve ser ferramenta de apoio, “não substituta da inteligência, da criatividade e do discernimento humanos”, e que a responsabilidade final pelo conteúdo publicado recai sempre sobre humanos.
A lista dos princípios que aparecem nos dois textos, com nomes às vezes idênticos, às vezes apenas parecidos, é longa:
Não quero nem de longe equiparar o manual com uma encíclica. O que quero mostrar é que a semelhança não é coincidência. Eu poderia fazer a mesma comparação com documentos da ONU sobre uso ético de IA, ou com textos parecidos escritos em lugares distantes. Quando pessoas honestas, vindas de lugares diferentes, olham para o mesmo problema, a resposta tende a se parecer. Proteger quem cria, quem lê e quem trabalha. Proteger a verdade contra a “uniformidade” que, nas palavras da encíclica, “elimina a diversidade”.
Aqui chego ao ponto que me incomoda. Pode ser injustiça minha. Mas princípios bonitos são fáceis de escrever, e cada vez aparecem mais. Manuais, manifestos, encíclicas, declarações de associações. Todo mundo concorda que o humano vem primeiro e que precisa de transparência.
E aí?
Na minha experiência rodando consultoria de IA para editoras, o que mais escuto é isso: “ah, a gente já leu, achou ótimo, mas no dia a dia é difícil aplicar”. A paralisia entre o documento e a operação é a regra, não a exceção.
Por isso o que mais me chama atenção no manual não é a lista de princípios. É a quarta seção, que sugere um caminho de implementação inspirado na ABNT NBR ISO/IEC 42001. Os cinco blocos são:
Esse não é um passo a passo definitivo, mas é um começo razoável e ajustável ao porte de cada editora. Para a pequena, pode ser uma página no Word com ideias e regras. Para a grande, um sistema de governança formal. O ponto é começar.
A encíclica diz isso à sua maneira: “A cada um o seu pedaço da muralha”. Não vai chegar regulação salvadora, nem fornecedor que entregue ética pronta no pacote. Cada editora começa onde está, com o que tem.
Aplicar tudo isso é mais difícil do que escrever. Quem trabalha com IA editorial no Brasil hoje está, na maioria dos casos, num esboço de governança. Ajusta a cada projeto, descobre lacunas no caminho, refaz quando o erro aparece. Inclusive eu.
Falta documentação formal de impacto na maioria das editoras pequenas que conheço. Falta auditoria periódica. Falta canal claro para um cliente ou autor avisar quando um erro grave aparecer em conteúdo gerado por IA.
A questão, hoje, não é mais “como devemos pensar sobre IA”. Os documentos estão aí, os princípios estão lá, alguns assinados por papas e outros por câmaras setoriais. A questão é o que cada um de nós faz na segunda-feira de manhã.
Se você é editor, pequeno ou grande, e ainda não fez isso, sugiro três passos concretos para esta semana:
A leitura da encíclica deixo como sugestão para quem se interessa pelo debate mais amplo, que vai bem além da edição. Há trechos sobre comunicação e sobre desigualdade tecnológica que valem a leitura.
Os princípios já estão escritos, e estão bem escritos. Papa, CBL, União Europeia. Documento a gente tem de sobra. O que falta é o trabalho menos glamuroso, que ninguém aplaude: aplicar.
A muralha é grande. Mas cada um de nós tem um pedaço pequeno para começar. Vamos começar juntos esta semana?
* José Fernando Tavares é especialista em Publicações Digitais e produtos digitais com mais de 14 anos de experiência no mercado editorial, especializado em tecnologia para negócios e Inteligência Artificial para produtividade. Em 2014, fundou a Booknando, empresa especializada em publicações digitais e livros acessíveis. No ano passado, criou a Volyo Audiobooks, focada na produção de audiolivros com uso de Inteligência Artificial. Com formação humanística, busca utilizar a tecnologia para melhorar o mundo. Tem paixão por vinhos e pelo aprendizado diário.
**Os textos trazidos nessa coluna não refletem, necessariamente, a opinião do PublishNews.
Mais de 13 mil pessoas recebem todos os dias a newsletter do PublishNews em suas caixas postais. Desta forma, elas estão sempre atualizadas com as últimas notícias do mercado editorial. Disparamos o informativo sempre antes do meio-dia e, graças ao nosso trabalho de edição e curadoria, você não precisa mais do que 10 minutos para ficar por dentro das novidades. E o melhor: É gratuito! Não perca tempo, clique aqui e assine agora mesmo a newsletter do PublishNews.
Precisando de um capista, de um diagramador ou de uma gráfica? Ou de um conversor de e-books? Seja o que for, você poderá encontrar no nosso Guia de Fornecedores. E para anunciar sua empresa, entre em contato.
O PublishNews nasceu como uma newsletter. E esta continua sendo nossa principal ferramenta de comunicação. Quer receber diariamente todas as notícias do mundo do livro resumidas em um parágrafo?