
O Encontro de Editores, Livreiros, Distribuidores e Gráficos (EELDG), realizado pela Câmara Brasileira do Livro (CBL) no Guarujá (SP), conclui sua quinta edição nesta sexta-feira (15) consolidado como um dos principais eventos do calendário do mercado editorial brasileiro. Além das apresentações e discussões com temas de vanguarda para o setor do livro, o formato do encontro — três dias em um hotel — permite conexões e conversas raras no dia a dia, quando os profissionais se concentram em suas empresas e trabalhos.
Nesta quinta-feira (14), a CBL apresentou o Manual de boas práticas de inteligência artificial em editoras brasileiras, um documento inédito que oferece diretrizes éticas e práticas para o setor editorial nacional diante da expansão acelerada das tecnologias de IA Generativa. A publicação aborda o impacto nos processos editoriais e, ao mesmo tempo, traz um olhar específico para a realidade brasileira, dedicando atenção especial aos desafios das pequenas e médias editoras.
O manual está disponível gratuitamente no site da CBL. Para fazer o download, acesse aqui.
A ideia surgiu na Comissão de Inovação e Tecnologia, coordenada por Cinthya Müller, da Editora Todavia e Baião, e composta por Camila Cabete Machado, da HarperCollins Brasil; Daniel Pinsky, das Editoras Contexto e Labrador; Gerson Ramos, da Editora Planeta; José Fernando Tavares, da Booknando e colunista do PublishNews; Marcelo Gioia, da Bookwire, e Simei Junior, agora na MVB América Latina; e Fernanda Garcia e Lis Ribeiro, da CBL.
“Este manual nasce da convicção de que a inovação precisa caminhar ao lado da responsabilidade. A inteligência artificial abre novas possibilidades para o setor editorial, mas também exige atenção à proteção dos direitos autorais, à valorização da criação humana e ao equilíbrio do mercado. Nosso objetivo é oferecer um guia que ajude as editoras brasileiras a avançarem com segurança, ética e consciência do seu papel cultural”, destaca Sevani Matos, presidente da CBL.
"A ideia do manual surgiu ao percebermos que nossas reuniões convergiam para o mesmo tema e que as dúvidas eram sempre semelhantes e complementares. Esperamos que o guia sirva como uma bússola para os editores e que ajude a desmistificar o mito de que a IA 'cria', quando na verdade ela indexa o conteúdo existente na internet, entregando-o de forma organizada", explica Cinthya Müller, coordenadora da Comissão de Inovação e Tecnologia da CBL.
Quatro capítulos, do princípio à prática
O documento está estruturado em quatro eixos: Princípios Fundamentais, como primazia humana, direitos autorais, autoria, transparência, combate a vieses e proteção de dados; Diretrizes Práticas para Casos de Uso, com orientações para geração de texto, tradução, revisão, criação de imagens e marketing; Desafios Específicos das Editoras Brasileiras; e Sugestões de Implementação, que incluem recomendações sobre liderança, planejamento, gestão de riscos, uso cotidiano e comunicação com autores, leitores e fornecedores.
O documento destaca que a produção das IAs generativas é derivada de padrões aprendidos, e não original no sentido humano, razão pela qual a autoria implica responsabilidade legal e moral que só pode ser atribuída a pessoas. Também recomenda que editoras estabeleçam contratos claros com autores e colaboradores sobre o uso de obras no treinamento de modelos.
O guia de casos de uso detalha o que é permitido, o que é obrigatório e quando é necessário informar o leitor. Na geração de texto, por exemplo, a IA pode ser utilizada para brainstorming e rascunhos, desde que haja revisão humana completa, incluindo checagem de fatos, e reescrita substancial para garantir a voz autoral. Na criação de imagens, a orientação é priorizar artistas humanos e, quando houver uso de IA, assegurar que a ferramenta opere com bases legais claras de treinamento.

O capítulo dedicado aos desafios brasileiros destaca que a maioria das IAs globais reflete perspectivas e bases de dados do chamado Norte Global, o que pode invisibilizar ou distorcer a cultura, a história e as nuances linguísticas brasileiras. Nesse contexto, o manual recomenda o incentivo ao desenvolvimento de tecnologias treinadas com dados nacionais e em português brasileiro, além de cobrar maior representatividade das culturas lusófonas por parte de fornecedores globais.
Por fim, o capítulo de Comunicação e Relacionamento orienta as editoras a adotarem transparência em todas as interações. O documento recomenda informar claramente quando o público estiver interagindo com sistemas de IA, como em atendimentos automatizados ou audiolivros com voz sintética, e criar canais acessíveis para que funcionários, leitores e autores possam reportar problemas ou usos indevidos da tecnologia. Em relação aos fornecedores, a orientação é exigir documentação completa sobre o funcionamento dos sistemas contratados.
As sugestões de implementação são fundamentadas na ABNT NBR ISO/IEC 42001, norma internacional que orienta a gestão ética e responsável da inteligência artificial em organizações.
Campanha e endowment
Ainda na quarta-feira (13), a CBL apresentou a campanha "Meu Livro, Meu Estilo", desenvolvida em parceria com a agência Almap, com o objetivo de ampliar o universo de leitores e fazer com que mais pessoas se sintam acolhidas pelo livro. Diego Drumond, coordenador da comissão, apresentou os detalhes do Fundo Patrimonial para a Valorização do Livro, uma estrutura de endowment com aporte inicial de R$ 15 milhões da CBL, aberta a doações externas. "O fundo recebe um aporte inicial da CBL, mas está aberto a doações de qualquer interessado. A rentabilidade dos investimentos é integralmente destinada ao trabalho da comissão", disse Drumond.
A mesa "Movimento de Valorização do Livro e Lançamento do Fundo Patrimonial" teve as presenças de Carolina Riedel, diretora de marketing e vendas do Grupo Editorial Pensamento; Daniel Pinsky, sócio-diretor da Editora Contexto e fundador da Editora Labrador; Diego Drumond, vice-presidente financeiro da CBL e sócio da Faro Editorial e da Drummond Livraria; e Sevani Matos. “Uma das missões é também apoiar ações no âmbito do PNLL”, disse a presidente da CBL.
*Com informações da CBL.







