As vozes que chegam às crianças
PublishNews, Hubert Alquéres e Karine Pansa, 14/08/2026
Artigo escrito a quatro mãos por Hubert Alquéres e Karine Pansa debate mostra que formar leitores também é prepará-los para conviver com a diferença

A boa literatura infantil oferece espelhos para o leitor se reconhecer © Agência Brasil
A boa literatura infantil oferece espelhos para o leitor se reconhecer © Agência Brasil

Poucos anos após o término da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), a jornalista, autora e tradutora alemã Jella Lepman (1891-1970) mobilizou um grupo de pessoas ligadas à literatura infantil em torno de uma ideia: os livros poderiam aproximar povos separados pelo conflito e contribuir para a construção da paz. Dessa iniciativa nasceu, em 1953, o International Board on Books for Young People (IBBY).

A ideia de Lepman era simples e poderosa: crianças que conhecem as histórias umas das outras crescem mais preparadas para compreender culturas diferentes da sua. Mais de sete décadas depois, essa missão permanece atual, embora tenha adquirido novas dimensões.

A intuição continha uma dimensão política que permanece igualmente atual. Sociedades democráticas não dependem apenas da liberdade de falar, mas também da disposição para ouvir. A literatura, especialmente aquela oferecida às novas gerações, constitui um dos primeiros espaços em que se aprende a conviver com experiências, valores e visões de mundo diferentes.

O tema escolhido para o 40º Congresso do IBBY, realizado em Ottawa, “escutar as vozes uns dos outros”, oferece uma chave interessante para compreender essa transformação. Mais do que um lema institucional, ele sintetiza uma mudança de paradigma. O debate internacional parece deslocar-se da tradicional pergunta (que livros devemos oferecer às crianças?) para outra, mais abrangente: quais vozes conseguem chegar até elas?

A programação do congresso tornou essa evolução particularmente evidente. Povos indígenas, crianças refugiadas, bibliotecas em regiões de conflito, jovens leitores e bibliodiversidade apareceram de forma recorrente nas conferências e mesas de debate. À primeira vista, temas bastante distintos. Observados em conjunto, porém, revelam uma preocupação comum: assegurar que toda criança possa encontrar, na literatura, tanto um espaço de reconhecimento quanto uma oportunidade de conhecer realidades diferentes da sua.

Essa perspectiva amplia significativamente a compreensão do papel da literatura infantil. Durante muito tempo, ela foi vista sobretudo como instrumento de alfabetização, transmissão de conhecimento, formação moral ou incentivo à leitura. Essas funções permanecem essenciais. O que se acrescenta agora é outra dimensão: a literatura como espaço de construção da alteridade.

Alteridade, nesse contexto, significa reconhecer o outro como alguém cuja experiência também merece ser conhecida. A criança procura nos livros personagens com os quais possa se identificar, mas também necessita encontrar personagens que lhe apresentem modos distintos de viver, pensar e sentir. A boa literatura infantil realiza essas duas tarefas simultaneamente. Oferece espelhos, nos quais o leitor se reconhece, e janelas, pelas quais descobre o mundo.

Essa preocupação apareceu com particular força nas discussões dedicadas à chamada literatura Young Adult (YA), voltada ao público jovem.

A adolescência deixou de ser tratada apenas como uma etapa de transição entre a infância e a vida adulta para constituir um universo literário próprio, marcado por questões de identidade, pertencimento, diversidade e relações sociais. Não se trata apenas de aumentar uma faixa do mercado editorial, mas de reconhecer que diferentes momentos da formação exigem narrativas capazes de dialogar com experiências igualmente distintas.

Tradução, ilustração e bibliodiversidade completam esse quadro. No universo da literatura infantil, o ilustrador também narra e o tradutor constrói pontes entre culturas. Bibliodiversidade, por sua vez, não significa apenas multiplicar o número de títulos disponíveis, mas assegurar a circulação de diferentes idiomas, culturas, tradições narrativas e formas de representar a infância. Em sociedades cada vez mais plurais, ampliar o repertório literário significa também redimensionar as possibilidades de compreensão do outro.

Essa reflexão dialoga de maneira particular com a realidade brasileira. O país construiu, ao longo das últimas décadas, uma das mais sólidas tradições de literatura infantil e juvenil, com autoras como Lygia Bojunga, Ana Maria Machado e Ruth Rocha, entre tantos outros escritores, ilustradores e tradutores. Uma literatura que ganhou força justamente quando deixou de tratar a infância apenas como território de histórias edificantes e passou a incorporar conflitos, desejos, medos, diferenças e ambiguidades próprios da experiência humana.

O contraste com alguns episódios recentes no Brasil é inevitável. Obras vêm sendo questionadas ou retiradas de escolas e bibliotecas não por sua qualidade literária, mas pelo desconforto provocado por determinados temas, personagens ou visões de mundo. É legítimo discutir adequação etária, critérios pedagógicos e mediação da leitura. Outra coisa é pretender proteger crianças eliminando de seu horizonte aquilo que contraria as convicções dos adultos.

Nesse ponto, Ottawa oferece uma inversão reveladora. Enquanto no Brasil, em alguns casos, se discute quais vozes devem deixar de ser ouvidas, o debate internacional procura identificar quais vozes ainda não estão sendo escutadas. São movimentos em direções opostas. Um reduz o repertório; o outro procura ampliá-lo.

A diferença não é apenas literária ou pedagógica. É também política. Uma sociedade democrática não se constrói oferecendo às novas gerações apenas ideias com as quais seus pais, professores ou governantes concordam. Forma-se para a democracia quando se desenvolve a capacidade de entrar em contato com perspectivas diferentes, examiná-las criticamente e conviver com a divergência. O oposto do cancelamento não é a concordância. É a convivência.

Isso não significa transformar qualquer livro em obra adequada para qualquer idade nem retirar das famílias e dos educadores a responsabilidade sobre a formação das crianças. Significa reconhecer a diferença entre mediação e interdição. A primeira contextualiza, acompanha, educa e promove o diálogo; a segunda simplesmente elimina a possibilidade de encontro com aquilo que incomoda.

A literatura infantil assume, assim, uma responsabilidade que ultrapassa a formação de leitores. Ela participa da formação de cidadãos capazes de viver em sociedades culturalmente complexas, nas quais diferenças não são acidentes a serem corrigidos, mas parte constitutiva da vida em comum.

“Escutar as vozes uns dos outros” recupera, mais de 70 anos depois, a intuição de Jella Lepman. Livros não eliminam conflitos nem fazem desaparecer divergências. Podem, entretanto, ensinar algo indispensável às sociedades democráticas: o outro não precisa pensar como nós para ter o direito de contar sua história. Antes de aprender a conviver com a diferença, é preciso reconhecer sua existência. E estar disposto a ouvi-la.


* Hubert Alquéres é vice-presidente da Câmara Brasileira do Livro (CBL) e curador do Prêmio Jabuti e Karine Pansa é diretora da Câmara Brasileira do Livro (CBL). Ambos participaram do 40º Congresso do International Board on Books for Young People (IBBY), realizado em Ottawa, Canadá, entre os dias 6 e 9 de agosto de 2026.

[14/08/2026 12:46:16]