Da lira ao valor da mulher no mercado de trabalho
PublishNews, Flavia Bravin*, 08/06/2026
Transição geracional é brilhantemente analisada por Claudia Goldin, professora de Harvard e a primeira mulher a vencer o prêmio Nobel de Economia de forma individual

Flávia Bravin é sócia e diretora de B2G da Cogna | © Divulgação Cogna
Flávia Bravin é sócia e diretora de B2G da Cogna | © Divulgação Cogna
No universo da educação brasileira, no qual tantas mulheres dedicam suas vidas a transformar o futuro do país, olhar para trás nos permite compreender o quanto avançamos e o quanto ainda precisamos caminhar. Minha relação com os estudos e com este mercado são indissociáveis das histórias das mulheres que me antecederam.

Minha avó materna carregava o sobrenome Mezalira. Para ela, o sucesso feminino só vinha de duas formas: Tornando-se professora ou secretária. Quando minha mãe se tornou professora, teria em tese as tardes livres para ficar com os três filhos e férias escolares para viajar conosco. Já eu, ao ingressar no mundo corporativo — na "firma", como ela falava —, tinha virado secretária.

Naquela época, diziam que o sobrenome da minha avó não valia sequer uma lira inteira. A lira, como moeda, deixou de existir. Minha avó também se foi. Mas o valor da mulher no mercado de trabalho e na sociedade tornou-se o eixo central de diversos estudos, políticas, livros e da minha vida pessoal, bem como do mundo que desejo entregar para minha filha, hoje com 17 anos.

Essa transição geracional é brilhantemente analisada por Claudia Goldin, professora de Harvard e a primeira mulher a vencer o prêmio Nobel de Economia de forma individual. Em sua obra Carreira e família: A jornada de gerações de mulheres rumo à equidade (Portfolio-Penguim, 2024), Goldin rastreia a evolução feminina no mercado de trabalho desde o final do século XIX, oferecendo dados que explicam por que o caminho da minha avó foi tão diferente do meu.

Para a geração da minha avó, a escolha do trabalho não passava necessariamente pela vocação: era uma estratégia logística, escolhido para oferecer o que a autora chama de flexibilidade, principalmente para a vida doméstica.

Hoje, muitas das mulheres vistas como bem-sucedidas ou em setores que remuneram melhor estão no que Goldin denominou de "trabalho ganancioso" (greedy work). Carreiras que pagam desproporcionalmente melhor para quem possui disponibilidade quase que 24x7.

Quando eu ia para o trabalho, minha vó dizia “foi para o serviço": uma transação em que eu trocava meu tempo por uma remuneração. Não havia espaço para o conceito de autorrealização, trajetória profissional ou para o desenvolvimento constante de habilidades em desafios complexos.

Usando dados americanos, Goldin mostra que, na geração da minha avó, cerca de 50% das mulheres universitárias nunca se casaram ou tiveram filhos. Aquelas que optavam pelo matrimônio, em sua maioria, abandonavam o emprego. A mulher era a "primeira respondente" universal para qualquer crise doméstica, a que interrompia reuniões ou faltava ao expediente para suprir as demandas do lar.

Felizmente, minha geração conquistou o direito de não ter que escolher entre um ou outro, embora essa conciliação ainda seja feita à base de lutas e sacrifícios. Aprendemos que a carreira é parte fundamental da nossa identidade, mas não a totalidade dela. Se fosse 100%, recairíamos na antiga bipolaridade de que é impossível ser excelente em ambas as esferas.

O meu desejo é que avancemos para além da "sobrecarga da disponibilidade". Precisamos persistir no “e” e não mais no “ou”, nestes novos caminhos para uma sociedade mais igualitária. O "cuidar" — seja dos filhos, dos pais ou do lar — não pode ser um verbo exclusivamente feminino. O conceito da mulher que "dá conta de tudo" sozinha precisa ser superado. Assim como a lira ficou no passado, a ideia de que a flexibilidade deve ser um ônus exclusivo da mulher também precisa ficar.

Trabalho e estudo para que, no mercado de trabalho que minha filha encontrará, o valor de uma mulher seja medido por sua capacidade, sua força intelectual e sua humanidade — nunca mais por frações de uma moeda que já não circula mais.


*Flávia Bravin é sócia e diretora de B2G da Cogna.

[08/06/2026 11:45:03]