
Leituras que nos levaram à reflexão sobre o impacto da pesquisa e sobre as “lentes” ou “trilhas” escolhidas para a leitura desse “retrato”.
Difícil mensurar o impacto da Pesquisa.
Acreditamos, pelas inúmeras manifestações e a ampla repercussão em mídias e em eventos e debates, que a divulgação sobre a queda de leitores provocou reflexões e inquietações.
Torcemos para que essas inquietações tenham levado a mais projetos, investimentos e práticas de leitura: pessoais, coletivas e em organizações. Que tenham estimulado debates sobre a necessidade de se aprofundar o diagnóstico para orientar ações mais exitosas para a formação leitora no contexto educacional e para entender a queda no interesse pelo livro daqueles que são leitores.
Desde o início de 2025, após o lançamento da Retratos, houve uma ampliação substancial nas práticas leitoras coletivas e no consumo de livros. Números que indicam o aumento do interesse por: Clubes de Leitura; pelo compartilhamento de experiências mediadas por leituras coletivas; eventos do livro com recordes de frequentadores e filas, especialmente de jovens; por influenciadores digitais literários (milhares de seguidores de Booktokers e milhões de acessos no TikTok); plataformas digitais de livros e leitura. Pesquisa da CBL (2026) sobre o comportamento do consumidor de livros revelou elevação no percentual de consumidores (2%).
Leituras da Retratos por outras “lentes”
Não sabemos se essas iniciativas foram impulsionadas pela inquietação com a retratação de leitores ou se reagiram a um crescimento represado pela pandemia e/ou pelo desmonte de políticas públicas do livro e leitura nos anos anteriores.
A sexta edição da Retratos refletiu impactos na formação de leitores e no acesso a livros entre 2020 e 2024. O resultado do afastamento dos estudantes de aulas presenciais e de bibliotecas, pode ser identificado, em especial, na queda de 9% de leitores na faixa de 05 a 10 anos, quando a presença do professor é fundamental. Sabemos que a grande maioria das crianças dependiam de celulares de seus pais para acompanharem aulas.
Mas, apesar do impacto da revelação de que pela primeira vez temos mais não leitores (53%) do que leitores, a série histórica da pesquisa mostra que mantemos o mesmo patamar: desde 2007, cerca da metade dos brasileiros revelam que não são leitores de livros. Somente na edição de 2015, identificamos uma maior elevação atingindo 56% de leitores. Certamente, como resultado das políticas públicas e ações voltadas a promover a leitura nos anos anteriores.
A importância e a legitimidade da Retratos no meio acadêmico
Recebemos muitos retornos positivos e convites de universidades para apresentarmos a pesquisa em seminários e para disponibilizarmos dados para pesquisas acadêmicas, teses e estudos com os alunos.
O mais recente convite foi para compor a mesa “Retratos da Leitura no Brasil”, no Colóquio Nacional de Literatura Infanto/Juvenil na Graduação (UFRJ e UNESP). Professores universitários organizaram o encontro para defender a inclusão da Literatura infantojuvenil no currículo de formação de professores.
Nesse Colóquio, o Professor Dr. Thiago Alves Valente (UNESP/UENP) que compôs a mesa, respondeu a um questionamento importante sobre a comparação de resultados com base em pesquisas acadêmicas, que investigam práticas leitoras em determinados territórios, e uma pesquisa de abrangência nacional que propõe conhecer o comportamento da população brasileira, retratando toda sua diversidade socioeconômica e cultural. O professor esclarece a seus alunos pesquisadores a diferença quanto à metodologia e a amostra que compõe um mapeamento macroestrutural sobre a leitura no Brasil e a metodologia e objeto de estudo de pesquisas acadêmicas, com base teórica, que investigam em microterritórios, intervenções, práticas e leituras de obras literárias. Trabalhos fundamentais para identificar caminhos para formar leitores, mas, enquanto pesquisas acadêmicas, carecem de abrangência e continuidade no tempo. Sem dúvida, esses estudos poderiam orientar programas de formação, como o proposto neste Colóquio, e serem “abraçados” por políticas públicas.
Recorro à essa fala para responder a indagações sobre a queda da leitura revelada pela Retratos 6, ao não refletir o crescimento no interesse de leitores, já mencionado, em: eventos do livro, práticas leitoras coletivas, plataformas digitais de livros e leituras e milhares de seguidores de influenciadores digitais.
De fato, os números são contraditórios.
Essas indagações têm fundamento e apontam para as diferentes realidades e “brasis” que compõem nossa sociedade e que estão representadas na amostra da pesquisa. Para entender a diferença, é fundamental destacar que 93.4 milhões de brasileiros declararam ter lido ao menos uma parte de um livro — impresso ou digital — de qualquer gênero. É um número impactante e que movimenta as práticas leitoras e a cadeia produtiva (38 milhões de brasileiros declararam terem comprado livros em um período de três meses).
As “lentes” para a ler pesquisas sobre leitura– um esclarecimento necessário
Como esclarece o professor Thiago, a Retratos da Leitura no Brasil é uma pesquisa com abrangência nacional (macroestrutural) e a amostra representa toda a população brasileira, com mais de cinco anos. Proporcionalmente, representa todos os estratos da população (segundo PNAD), por: idade, classe social, renda, escolaridade, local da moradia, raça, gênero, religião e se são estudantes ou não.
Para garantir essa representatividade da população, optou por ser domiciliar face a face. Uma pesquisa por celular ou email, como ocorre em pesquisas de mercado ou sobre consumo, não possibilita essa representatividade da população na amostra.
Apesar da Retratos incluir na investigação questões sobre práticas coletivas, participação em eventos, leitura em braile, áudio livro e outros hábitos e interesses, o percentual dessas respostas é pequeno para impactar nos dados sobre o comportamento leitor dos brasileiros. Esses estudos demandam outra metodologia e amostra representativa dos territórios onde as práticas acontecem, como pesquisas realizadas pelo Instituto Pró-Livro em Bienais de SP e Rio (2019 e 2022) e na FLUP (2019).
Sobre o indicativo de leitura, apesar de manter o livro como referência para a construção da série histórica, a sexta edição também investigou o perfil, interesses e percepções de leitores digitais e de leitores de literatura fora do livro (que recebem: poesias, contos, trechos de romances ou crônicas, por aplicativos de mensagens ou redes sociais). Traz, também, avaliação sobre a preferência, a compreensão, e a imaginação na leitura em papel ou no digital.
A “fuga” de leitores também em outros países
É importante destacar que o declínio na leitura de livros e na leitura por prazer também ocorreu em outros países, com diferentes realidades sociais e culturais, e teve grande repercussão junto àqueles que reconhecem o poder da leitura e da literatura no desenvolvimento pessoal e no desenvolvimento social e humano de uma sociedade democrática.
Na Espanha, a queda no percentual de leitores levou a Federação de Grêmios de Editores da Espanha a propor um Manifesto pelo Livro e pela Leitura, que apresenta manifestação da escritora e pesquisadora Irene Vallejo. O Manifesto deve ser publicado no Brasil (Editorial Dublinense), com prefácio assinado por mim.
Levantamento de pesquisadores da Universidade da Flórida revelou que a proporção dos que leem por prazer caiu de 28%, em 2003, para 16%, em 2023, uma queda de 3% ao ano. O Reino Unido, frente ao mesmo diagnóstico, lançou o Ano Nacional da Leitura (2026) para promover a leitura por prazer.
Vivemos tempos de quebras de paradigmas. Parece que “tudo que era sólido desmancha no ar”.
— O livro e a leitura como “lentes” e “refúgios”
Importantes teóricos, como Michele Petit, defendem o valor da leitura profunda. Marshall Berman, ao profetizar que “tudo que é sólido desmancha no ar”, pregava que se não construirmos uma visão crítica sobre a realidade seremos tragados pela desinformação e, facilmente, manipulados por interesses que podem não ser os nossos.
Vivemos profundas contradições na abundância de informações, e de desinformação, que impactam na capacidade de reter, de refletir e de interpretar, como nos diz José Castilho (edição 314; Rascunho). A desconstrução chega às narrativas e à construção do pensamento. Mediadores tradicionais, tão importantes para ajudar nessas “leituras”, concorrem com influenciadores digitais.
A leitura crítica e autônoma é o antídoto e a “lente” para nossa visão de mundo e para não sermos manipulados pela desinformação. Nos momentos de desconstrução, os livros podem ser nosso refúgio e nutrir nossa resistência na defesa de valores, da justiça social, da democracia e da sociedade que acreditamos.
A literatura pode despertar da submissão e da manipulação, ao trazer a visão sobre outras realidades, sobre injustiças e ao resgatar a vontade de pensar, de imaginar, de refletir e de construir sua interpretação sobre a realidade.
Se acreditamos nessas teses, saber que mais de 100 milhões de brasileiros não são leitores de livros, preocupa, em especial, quem acredita no poder da leitura na construção de uma visão crítica sobre a realidade social e política do Brasil. Mas, leva, também a outras reflexões: o que deixamos de fazer ou onde investir para melhorar esse “retrato” e oferecer essa “lente” para aqueles que não são leitores de livros?
Qual leitura desperta uma visão crítica?
A leitura que acontece fora dos livros tem o mesmo poder da leitura em livros impressos ou digitais para despertar a consciência crítica e a reflexão? Talvez, para acesso à informação, a notícias, a divulgação de fatos ou descobertas, elas sejam mais rápidas e de maior alcance e facilidade para o compartilhamento. Mas, também dizem os pesquisadores, “desmancham no ar” sendo substituídos pela notícia mais recente, e sem o tempo de aprofundar a reflexão.
Neurocientistas defendem a potência da leitura em livros impressos — para o desenvolvimento cognitivo, para a construção de conhecimentos e dos pensamentos, para o despertar de emoções, empatia e fantasias — em especial, para crianças e adolescentes.
A mudança trazida pelo digital é irreversível?
Não podemos ignorar que as transformações, em especial trazidas pelo digital, são irreversíveis. Mas, se continuarmos a acreditar na importância da leitura profunda para a formação de leitores reflexivos, críticos e autônomos, é urgente investigar como essas transformações impactam na necessidade, ou na possibilidade, de desenvolver novas habilidades e um letramento digital crítico. Um desafio que se amplia para garantir direitos e a equidade no acesso à tecnologia digital e na formação de leitores digitais críticos.
Alguns profetizam a “desmaterialização” do livro (como aconteceu com discos e CDs), porém, penso que já convivemos com narrativas (lineares) fora do livro (vídeos, filmes, audiolivros). Difícil imaginar o futuro sem o livro para acessar o conhecimento produzido pela humanidade, e, para o registro, por meio da linguagem escrita, do conhecimento e das histórias vividas ou inventadas na ficção.
É possível essa “migração” do livro para narrativas orais, desconstruídas e com a transversalidade em diferentes mídias, sem perdas ou dispersões na defendida capacidade da leitura de desenvolver habilidades de concentração e reflexão? Ao “solver” as histórias contadas, esses leitores conseguem construir a narrativa na imaginação ?
Há receios quanto a essa dispersão e os múltiplos estímulos e linguagens nas telas digitais. Segundo Johann Hari, pesquisador e escritor escocês, em “Foco Roubado”, o mundo virtual atrapalha a concentração, gerando a falta de foco. Para ele, o “silêncio” e o tempo são fundamentais para o pensar e para as análises e novas ideias, e defende, para isso, a leitura “linear”.
Outras motivações surgem amparadas na potência das redes sociais como instrumento de formação de opinião, de interesses, de compartilhamento de ideias, de pertencimento a grupos e de construção de personalidades. Os Booktokers se consolidam como os grandes influenciadores de leitores (ou seguidores) e de consumidores de livros e de ficção. Sem dúvida, essas motivações explicam os novos conceitos que orientam eventos do livro, práticas coletivas de leitura e plataformas de leitura.
Para especialistas na área da leitura e da formação do leitor de literatura, a leitura de entretenimento não desperta o gosto pela literatura e não forma um leitor autônomo e crítico. Certamente, um leitor que segue influenciadores para escolher seus livros, ou, para compartilhar resenhas, não deve ser um leitor autônomo ou crítico.
Novos Desafios
Reconhecer como as transformações no cenário da leitura, com o impacto das tecnologias digitais e a expansão da internet no ato de ler, podem redefinir o comportamento leitor dos brasileiros e ampliar o desafio para formar leitores críticos e despertar o gosto pela leitura, é o desafio que se impõe.
Na leitura digital, a construção de significados e a reflexão exige dos leitores habilidades com navegação não linear entre conteúdos e com a multimodalidade (texto escrito, imagem, som e vídeo). Além disso, o fluxo acelerado de informação instantânea, impactam diretamente os modos de recepção, processamento e avaliação dos conteúdos lidos, exigindo competências de leitura crítica capazes de distinguir informações confiáveis de desinformação e manipulações discursivas. É essencial formar leitores capazes de transitar criticamente entre diferentes suportes e linguagens.
Se a transformação for irreversível, é urgente e complexo desenvolver essas habilidades e um letramento digital crítico na formação de leitores no contexto educacional e em promover essas habilidades em leitores fora da escola.
O desafio será identificar parâmetros que orientem a reconfiguração do contexto educacional para a formação de leitores com novas competências cognitivas, afetivas e sociais, com habilidade de navegar em ambientes digitais complexos, avaliar a credibilidade das fontes e colaborar com outros leitores e produtores de conteúdo.
Para aqueles que estão fora do contexto educacional, o desafio será descobrir como despertar no leitor para a importância de “navegar” no ambiente digital de forma autônoma, sem ser manipulado e invadido por informações ou desinformações impulsionadas pelos logaritmos, que limitam sua curiosidade e sua capacidade de reflexão e crítica.
Se não resta alternativa frente a avalanche de transformações e de crenças no poder dessas novas formas de ler, é urgente descobrir e garantir como proteger a autonomia na escolha do que ler, de refletir, de imaginar e de questionar, mesmo que seja para além do livro.
É urgente que políticas públicas garantam essa “proteção” à leitura, a todos(as), e que garantam o direito ao acesso à tecnologia digital e à conscientização e a habilidade para navegar e ler no ambiente digital de forma autônoma e com visão crítica sobre a realidade, como condição para nosso desenvolvimento social, humano e democrático.







