Bookmaxxing: o wellness literário
PublishNews, Gabriel Mattos, 03/06/2026
"A pauta da performance literária não é nova, mas ela vai ganhando mais camadas e camadas, sempre com umas nomenclaturas bonitas que 'explicam' o fenômeno", diz o pesquisador na coluna de junho

Gabriel Mattos © Monica Ramalho
Gabriel Mattos © Monica Ramalho

Ler na esteira da academia, ligar uma lareira fake do Youtube, levar o kindle para todos os lugares, ouvir audiobooks enquanto você limpa a casa: esses são os conselhos da TikToker Rachel Lachanse para você maximizar o seu tempo de leitura, ou melhor, botar a sua vida em "bookmaxxing”.

O termo “maxxing” é um sufixo que coloca um monte de coisas da nossa vida cotidiana em produtividade máxima. Ele ganhou força recente com o “looksmaxxing”, comunidade onde homens jovens buscam padrões de beleza a qualquer custo e acabam escalando o discurso para o submundo da “manosfera". Mas várias outras comunidades aproveitaram o hype também. Tem sleepmaxxing pra turma que dorme com Garmin no pulso e mede qualidade do sono, tem healthmaxxing pra turma da proteína, por aí vai.

A pauta da performance literária não é nova. Inclusive já batemos esse papo por aqui em outras colunas. Mas ela vai ganhando mais camadas e camadas, sempre com umas nomenclaturas bonitas que “explicam” o fenômeno.

O próprio #Booktok nasce um pouco assim. Quando fui a campo entrevistar booktokers, elas mesmas disseram que não nasceram booktokers, se tornaram booktokers. O fenômeno simplesmente acontece e depois a gente corre atrás para colocá-lo em uma caixinha etimológica com delimitações claras para nós, pesquisadores.

E desde que a gente deixou de viver para postar, e passou a postar para viver, praticamente todas as nossas atividades mundanas se tornam validadas só - e isso é inegociável - depois do conteúdo postado. O #TáPago saiu do crossfit e chegou na literatura.

A gente pode chegar à conclusão de que é melhor malhar o cérebro com Saramago do que só malhar bíceps com halteres. E, de fato, é maravilhoso que, de alguma forma, a rede social nos aproxime dos livros. Se vender mais livros não necessariamente significa ler mais, é indiscutivelmente importante para toda a cadeia de produção editorial que a literatura esteja no hype. Seja qual for esse hype.

Mas a performance também nos engole. Se a vida wellness está tão na moda que até a Apple deu uma zoada em seu último comercial, a lógica performática foi plataformizando o nosso consumo em todas as frentes. É a foto dentro do cinema, o show presencial que você assiste pela tela do celular (gravando vídeos que serão eternamente esquecidos) e, claro, as indicações literárias que te geram um baita capital cultural para o seu instagram aesthetic.

Se estamos vendendo (ou lendo) mais livros, eu já tô feliz. Se esse fenômeno é puxado pelas gerações mais jovens, melhor ainda. Mas pode ser que você não precise da lareira fake na tela do Youtube ou de contabilizar páginas diárias como um whey protein literário. Leia do seu jeito, no seu tempo, no seu gosto. Leia.

[03/06/2026 10:03:46]