
Seis da manhã em um dia qualquer. O despertador toca, e a correria começa: acorda a filha adolescente, prepara o café da família e do cachorro, olha a agenda na esperança de ter um dia tranquilo (nunca é), corre no banho, faz a marmita e já pega a primeira reunião remota no elevador a caminho do escritório, enfrentando o trânsito de sempre. No fim do dia, a exaustão é tanta que mal dá tempo de conversar com a família. Depois do jantar, ainda tem a louça na pia antes de deitar, e, na manhã seguinte, tudo recomeça. Até os intervalos curtos acabam confiscados por pendências no WhatsApp, como marcar médicos, organizar caronas ou comprar ração no pet shop.
Essa rotina não é exceção, mas, sim, a regra nas grandes cidades, onde as 24 horas do dia parecem insuficientes para cumprir o planejado, quanto mais acomodar um momento de relaxamento ou de aprendizado que nos traga prazer. Buscar pausa e calma deveria ser natural, mas, hoje, requer treino e disciplina.
Neste contexto, a pergunta que não cala é: quantos livros você anda lendo por ano? Está alinhado com aquela resolução de ano novo? Estar com as mãos e olhos disponíveis não é para qualquer rotina. Segundo a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil de 2024, os brasileiros leem em média 2,07 livros inteiros por ano, e a principal razão de não lerem mais é a pura e implacável… falta de tempo!
A boa notícia é que há uma luz no fim do túnel, ou seria um som? Audiolivro – a brilhante possibilidade de um momento de prazer que transforma o tempo cansativo, chato e monótono em uma experiência imersiva de literatura. O trânsito fica mais fácil, as receitas saem mais inspiradoras e gostosas, as plantas são regadas com alegria, e algo mais interessante pode ser dito na hora do jantar.
Quando falamos do audiolivro, há muita especulação sobre a canibalização da leitura. Na verdade, são formatos para serem usados em ocasiões diferentes. Imagine você, na cozinha, tentando ler um capítulo enquanto a água do macarrão ferve. Se a leitura for boa, na hora que você lembrar do jantar, a água já evaporou! O áudio permite cozinhar, passear com o cachorro, molhar plantas e arrumar a casa na companhia de uma história que você escolheu, e você ainda pode escutar no seu ritmo. Não é à toa que 51% dos ouvintes consomem conteúdo em áudio enquanto realizam tarefas domésticas ou se deslocam, permitindo uma média de consumo de 4,9 títulos por mês (os dados são do estudo Audible Compass 2025, conduzido pela consultoria Verian).
Aliás, falando em academia, eu posso dizer que, após os 40 anos, a musculação se tornou um ato necessário para a saúde, mas, para mim, esse é o único momento em que o tempo passa devagar. Eu costumava chegar já querendo ir embora. Isso mudou completamente com os audiolivros. Quando eu inicio meu treino, já estou dentro de um cenário, em um suspense que não vejo a hora de desvendar, em um romance torcendo pelo final feliz, ou em um curso que me atualiza como executiva e líder.
Estudos mostram que o consumo de audiolivros aumenta o consumo de literatura em todos seus formatos, pois a conexão com a cultura torna-se mais presente, parte do cotidiano. E se você está se perguntando “mas o audiolivro vale como leitura?”, minha opinião é clara e direta. Quando você termina de ler um livro, o que fica com você? A história, a imaginação, as personagens, o aprendizado, as dicas, as reflexões? Tudo isso também permanece com você ao escutar um audiolivro. O conteúdo é o mesmo. A diferença é que esse formato cabe de forma mais constante no dia a dia atribulado, e, assim, você cresce, aprende, imagina mais do que quando depende apenas do formato escrito das obras.
Não é à toa que 80% dos brasileiros, quando questionados se o áudio ajudou em sua saúde mental, mostram-se de acordo (Audible Compass 2025). Não por acaso, "Saúde & Bem-estar" é um dos gêneros mais ouvidos no Brasil, refletindo uma busca por autodescoberta, descanso das telas e alívio do estresse. E existe uma lista de títulos que podem ajudar!
Para refletir sobre o impacto das mídias sociais, sugiro A geração ansiosa (Companhia das Letras), de Jonathan Haidt, que traz importantes reflexões embasadas em pesquisas, mostrando que não estamos plantando um futuro melhor para nós nem para nossos filhos – mas que é possível ajustar.
Se você está chegando à menopausa ou convive com alguém que está, vale a escuta de Menopausa – O momento de fazer as escolhas certas para o resto da sua vida (Contexto), da jornalista Mariza Tavares. Essa fase é complicada para quem está ao lado, mas é ainda mais desafiadora para quem está com os hormônios despencando. Vale aprender e entender mais sobre o assunto.
Se sua rotina corrida inclui cuidar de filhos, sugiro a recém-lançada audiossérie Como ser mãe? (Audible), com a psicanalista Vera Iaconelli e a escritora Andréa del Fuego. Não há uma fórmula, e ninguém tira nota dez, mas estamos sempre tentando nosso melhor. Passamos por momentos de dor e achamos que estamos sozinhos nesse lugar. No entanto, está todo mundo no mesmo barco – errando, tentando acertar.
Em tempos passados, os momentos de pausa eram mais abundantes. Hoje, eles são tão raros que consideramos verdadeiros presentes. Mas será que merecemos um tempinho assim apenas nos fins de semana? Será que isso é suficiente para nossa satisfação e, mais do que isso, para nossa saúde mental? Acredito que não.
Mudar a rotina é difícil, mas podemos encontrar maneiras de torná-la mais leve, enriquecedora, conectada. O audiolivro é uma ferramenta poderosa que pode nos ajudar.
E você, o que anda escutando este ano?








