
Não creio que a Tia Lenir tivesse faro para livros. Ela vendia potes e brincos, e o livro entrava junto, quase de carona. Ainda assim, funcionou como curadoria. Alguém colocou na minha mão as coleções que me formaram, antes de eu saber que existia um mundo de livros para escolher. Naquele tempo havia até quem passasse nas escolas, aplicasse um teste psicológico nas crianças e, no fim, vendesse uma enciclopédia para os pais. Curadoria, do jeito torto daquela época, também era isso.
Lembrei da Tia Lenir esta semana, montando minha fala para uma mesa na Flip sobre a virada de plataforma do livro na Casa PublishNews. Lembrei dela porque ela era curadora.
O governo entra no jogo
Em abril, o Ministério da Educação lançou o MEC Livros. É uma biblioteca digital gratuita, aberta pelo login gov.br, que nasceu com quase 8 mil obras e promete chegar a 25 mil. Em duas semanas passou de 440 mil cadastros e quase 200 mil empréstimos. Não é o PNLD, não é livro didático mandado para a escola. É literatura para qualquer cidadão, do domínio público ao best-seller licenciado. O Estado entrou de vez no jogo das plataformas.
Entrou falando a língua das plataformas. O MEC Livros empresta com prazo, como uma Netflix de livros. Tem um agente de inteligência artificial que sugere leituras pelo seu perfil. Traz recurso para dislexia e leitor de tela. E, num detalhe que me fez sorrir, converte obras de PDF para ePub para melhorar a leitura na tela. Faço isso há quinze anos na Booknando. Agora o governo federal faz também, em escala.
Por que isso importa? Porque o retrato é duro. A 6ª Retratos da Leitura no Brasil mostrou que 53% da população não leu um único livro nos últimos três meses. Somos hoje 93,4 milhões de leitores, menos do que já fomos. O problema brasileiro nunca foi falta de vontade de ler. Foi falta de acesso. E plataforma, no fundo, é uma máquina de acesso.
O livro como serviço, não como pacote
As empresas nascidas digitais entenderam isso antes da cadeia tradicional. O caso mais claro é o Skeelo. Fechou 2025 com R$ 160 milhões de receita e um catálogo de 200 mil títulos. Mais interessante que o tamanho é o caminho até o leitor. Não é você que assina. É a sua operadora de telefonia que embute o app no plano, e o livro chega junto com a franquia de dados. O mercado batizou isso de B2B2C, um nome feio para uma ideia simples, a de que o livro pega carona em quem já tem milhões de clientes. Metade do consumo por lá, aliás, é de audiolivro e de gente que não comprava livro impresso.
O cofundador do Skeelo Rodrigo Meinberg resume numa frase que eu assino embaixo. Para ele, o que sempre faltou no Brasil foi distribuição eficiente, não interesse por leitura. É a mesma tese do MEC Livros, dita por um empresário.
Onde a curadoria foi parar
Se distribuir ficou fácil, escolher ficou difícil. Um catálogo de 200 mil títulos a um toque não é uma bênção óbvia. É um oceano. E ninguém lê um oceano.
Precisamos abrir a caixa preta dessa palavra, curadoria.
O sistema de recomendação de uma plataforma é, no fundo, um curador que aprendeu o seu gosto observando o que você lê. Some a isso o BookTok. Vídeos de trinta segundos, gente chorando com o final de um livro, e de repente uma edição some das prateleiras. A pesquisa do Reglab sobre o BookTok no Brasil descreve o algoritmo do TikTok como um curador que apresenta gêneros e autores que o leitor não procuraria sozinho. Não é pouca coisa. Machado de Assis voltou a ser best-seller depois de viralizar. A própria Retratos da Leitura aponta que, para 22% dos leitores de literatura, o interesse por um livro nasce de um influenciador.
O que mais me interessa no estudo do Reglab foi a conclusão. O BookTok não substitui a curadoria. Ele interage com ela. Era mais ou menos o que a Tia Lenir fazia sem querer, agora rodando num sistema de recomendação e em milhares de leitores ao mesmo tempo. A mediação não morreu. Trocou de lugar. Antes passava pela escola, pelo crítico, pela editora, pelo livreiro, pela vendedora de porta em porta. Hoje a curadoria humana divide a mesa com a curadoria algorítmica.
Integração, não troca
Preciso desarmar um medo antigo do setor, o de que o digital vem matar o físico. Os números dizem o contrário. A Bookwire Brasil mostrou o audiolivro crescer mais de 100% em receita fora do canal de telecom, e já chegar perto do e-book, sem sinal de comer o impresso. Relatórios da Nielsen e da associação de editores americana apontam a mesma coisa lá fora. Impresso, digital e áudio crescem juntos, cada um no seu momento de leitura ou de escuta. A plataforma não troca um formato por outro. Faz o livro chegar mais longe, sobretudo onde não há livraria nem biblioteca por perto.
Seria desonesto parar no otimismo. Há sombras, e elas também são técnicas. A primeira é a concentração. Três plataformas já respondem por cerca de 85% das compras de livro digital no país. E concentração tem rosto. Em 2021, a Amazon comprou as licenças da Auti, a operação de audiolivros das editoras Arqueiro, Sextante e Record, e abriu caminho para a Audible chegar ao Brasil. Parte do áudio nacional já foi vendida para a plataforma. Fazer o livro chegar mais longe é ótimo. A pergunta incômoda é quem fica com o dinheiro no meio do caminho.
A segunda sombra é a padronização. O algoritmo empurra o que já vende, e a prateleira acaba tomada por poucos gêneros parecidos. Aqui a curadoria humana deixa de ser enfeite e vira contrapeso.
A terceira toca no meu próprio trabalho, e confesso que ainda me divide. Nós produzimos audiolivros na Volyo, e sei que o gargalo do Brasil é de oferta. Saem menos de 500 títulos em português por ano, enquanto milhares de obras que vendem bem seguem sem versão em áudio. A voz sintética, como a que o Spotify acaba de anunciar com a ElevenLabs, promete furar esse gargalo. Promete também dispensar o narrador humano. Há alguns anos eu diria que é só ganho de escala. Hoje acho que a pergunta certa é outra. Onde a IA amplia acesso sem esvaziar o ofício? Não tenho a resposta pronta.
O que a cadeia pode fazer agora
Começo por três frentes, todas concretas.
Metadados primeiro. Se a descoberta virou algorítmica, o livro precisa ser legível por máquina. ONIX bem preenchido, palavras-chave pensadas, descrição decente. Um livro mal descrito é invisível para o algoritmo, por melhor que seja o texto.
Áudio e acessibilidade tratados como produto, não como enfeite colado no fim do projeto. Aquelas milhares de obras que vendem bem e não têm áudio são um mercado esperando para ser feito. E acessibilidade, além de dever, é alcance. O MEC Livros já nasceu com leitor de tela e suporte a dislexia, e a cadeia privada não pode ficar atrás do governo nesse ponto.
Curadoria como marca, por último. Se escolher bem virou o ativo mais caro, a editora com faro e a livraria com voz própria têm mais a ganhar, não menos. O algoritmo entrega escala. A curadoria entrega confiança. Juntas, fazem o leitor voltar.
Volto à Tia Lenir
Ela não tinha catálogo de 200 mil títulos nem agente de IA. Não tinha nem faro para livros, para ser honesto. O que me formou foi meio o acaso. A coleção certa, na sacola certa, na mão de alguém que passava para vender vasilha.
É aqui que eu me obrigo a ser justo com o algoritmo. A gente torce o nariz para a curadoria da máquina, como se a recomendação humana fosse sempre nobre e a da máquina sempre suspeita. A tensão existe, já falei dela. Mas a curadoria humana também é, muitas vezes, pura coincidência. Um parente que aparece com a sacola, um professor que gostava de certo autor, um vendedor que bateu na porta na hora certa. O algoritmo é coincidência em escala. E às vezes ele acerta o livro que vira a chave de uma criança.
A virada de plataforma não encerra a figura da Tia Lenir. Ela pede que a gente a reinvente, com uma diferença. Agora dá para escolher, de propósito, ser a boa coincidência na vida do leitor. A tecnologia é a ponte, não o destino.
Minha pergunta para você, do outro lado da cadeia, é simples. Diante de um leitor que hoje tem acesso a tudo e tempo para quase nada, você quer ser mais um item no catálogo do algoritmo, ou quer ser a curadoria em que ele confia?
Para ir além
* José Fernando Tavares é especialista em Publicações Digitais e produtos digitais com mais de 14 anos de experiência no mercado editorial, especializado em tecnologia para negócios e Inteligência Artificial para produtividade. Em 2014, fundou a Booknando, empresa especializada em publicações digitais e livros acessíveis. No ano passado, criou a Volyo Audiobooks, focada na produção de audiolivros com uso de Inteligência Artificial. Com formação humanística, busca utilizar a tecnologia para melhorar o mundo. Tem paixão por vinhos e pelo aprendizado diário.
**Os textos trazidos nessa coluna não refletem, necessariamente, a opinião do PublishNews.
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