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Metadados como a 'Alma Digital': O sucesso de um livro agora depende da conversa com a IA?
PublishNews, José Fernando Tavares, 09/02/2026
"Hoje quero falar sobre um outro aspecto estratégico do mercado, a discoverability, ou a possibilidade de seu livro ser encontrado em uma loja online", diz o colunista. Leia!

'Investir na infraestrutura técnica e em metadados inteligentes é, hoje, um dos atos mais profundo de defesa da voz de um autor' | © Freepik
'Investir na infraestrutura técnica e em metadados inteligentes é, hoje, um dos atos mais profundo de defesa da voz de um autor' | © Freepik
O ano de 2026 marca um ponto de inflexão para o mercado editorial mundial. Nos últimos meses estamos discutindo o impacto de IAs que redigem textos e são assistentes criativos, ferramentas como o Ask This Book, que permitem "conversar" com uma obra, e ainda a problemática fundamental do respeito dos direitos autorais.

Hoje quero falar sobre um outro aspecto estratégico do mercado, a discoverability, ou a possibilidade de seu livro ser encontrado em uma loja online.

A Amazon está lançando o Amazon Rufus. É um assistente de compras, movido por IA generativa que age não apenas como um sistema de busca, mas como um novo curador cultural que altera a lógica de sobrevivência de qualquer título no oceano digital. Importante: o recurso é usado para todo tipo de produtos, não só para livros.

Este tipo de sistema de busca não é uma novidade absoluta. No Brasil, temos a Lu da Magalu que já desempenha algumas destas funções. O fato é que a Amazon, sendo o maior reseller de livro no Brasil, traz um impacto muito grande para a cadeia do livro.

O Rufus já opera nos EUA e sua implementação no Brasil é aguardada para o final deste ano. Este tipo de assistente de compras traz um alerta urgente: a era da "palavra-chave literal" morreu, e o que define o sucesso de um livro agora é a sua infraestrutura de metadados.

Para quem não viu as páginas oficiais da Amazon sobre o Rufus: https://www.aboutamazon.com/ne... e https://www.amazon.com/Rufus/b...

Para quem quer saber mais sobre a Lu do Magalu: http://magazineluiza.com.br/blog-da-lu/c/dl/dldc/magalu-revoluciona-o-varejo-a-jornada-de-compra-completa-agora-pelo-whatsapp/13882/.

Da busca por palavras à busca por intencionalidade (semântica)

Para entender por que esta tecnologia é disruptiva, precisamos olhar para a tecnologia atual de busca usada nas lojas online e na web. Durante décadas, operamos na busca léxica. Se um leitor digitasse "livro resiliência emocional", o algoritmo da livraria buscava a correspondência exata desses termos no título ou na sinopse. Se o seu livro usasse o sinônimo "superação de traumas", ele poderia simplesmente não aparecer.

Com o Rufus e os grandes modelos de linguagem (LLMs), migramos para a busca semântica:

  • O que é: A máquina agora entende a intenção e o contexto por trás da pergunta.
  • Como funciona: Se o usuário pergunta: "Quero um livro para dar de presente ao meu pai, que gosta de histórias de tribunal, mas que não sejam muito violentas", a IA não busca apenas por etiquetas. Ela analisa os campos semânticos (vetores de significado) para conectar conceitos como "tribunal", "advocacia" e "suspense ético", filtrando obras que seus metadados sinalizam como "violentas".

Neste cenário, um livro com metadados pobres torna-se, para o algoritmo, um livro invisível.

Arte e dados

Precisamos aceitar uma nova realidade: em 2026, um livro é um objeto híbrido. Ele é, simultaneamente, um artefato cultural humano e uma densa camada de dados digitais. No mercado digital atual, a qualidade literária de uma obra pesa tanto quanto a qualidade dos dados que a descrevem, os famosos e pouco valorizados "metadados”.

Os metadados deixam de ser a "papelada chata" da publicação para se tornarem o motor invisível da descoberta. Se a IA não consegue ler a "alma cultural" do livro através de padrões técnicos como o Thema (que capta nuances regionais e temáticas), ela não terá confiança para recomendá-lo como uma resposta definitiva ao usuário.

Thema & ONIX: Os padrões globais de comunicação do mercado editorial. O ONIX carrega os dados; o Thema dá o significado (contexto cultural e temático). Juntos, eles são o DNA digital do livro.

GEO: a nova fronteira da visibilidade

Se no passado recente o foco era o SEO (otimização para motores de busca), o presente exige o GEO (otimização de mecanismos generativos). O objetivo não é mais apenas aparecer em uma lista de "dez links azuis", mas ser a fonte que a IA cita em sua resposta sintetizada ao leitor.

O Generative Engine Optimization (GEO) é a estratégia de otimização de metadados para que o conteúdo seja não apenas "encontrado", mas lido, compreendido e citado pelos sistemas de Inteligência Artificial generativa (como ChatGPT, Gemini, Perplexity e o Amazon Rufus).

Explicando de forma simples:

  • No antigo SEO (Search Engine Optimization): O objetivo era fazer seu livro aparecer no topo de uma lista de links azul (ex: "10 melhores livros de fantasia"). Você usava palavras-chave repetidas para ganhar o clique.
  • No novo GEO: O objetivo é fazer com que a IA use o seu livro como fonte da resposta direta que ela dá ao usuário. Você usa dados estruturados e contexto para ganhar a citação.

Antigo SEO (Busca Léxica)

Novo GEO (Busca Semântica)

Objetivo

Aparecer no topo da lista (clique)

Ser a fonte da resposta (citação)

Mecanismo

Palavras-chave repetitivas

Dados estruturados e contexto

Resultado

Lista de 10 livros sobre o assunto

Resposta sintetizada e direta

Para o editor, entender o GEO é uma questão de sobrevivência digital por três motivos fundamentais:

1. A mudança na jornada do leitor

O comportamento de busca mudou de "procurar" para "perguntar". Em vez de digitar "livros sobre economia" e navegar por vários sites, o leitor agora pergunta ao Gemini ou ao Rufus: "Recomende um livro que explique a economia brasileira para leigos de forma simples".

Se os metadados do seu livro não estiverem otimizados para GEO, a IA não saberá que sua obra é a resposta para essa pergunta específica, e o livro será efetivamente invisível nessa conversa.

2. O livro precisa ser uma "fonte de verdade"

Ao contrário do Google antigo, que apenas indexava páginas, as IAs generativas tentam construir respostas coerentes. Para isso, o editor precisa garantir que os dados do livro funcionem como fatos inquestionáveis.

Autoridade: O GEO exige que você vincule o livro a identificadores de credibilidade, como o ORCID do autor ou prêmios literários. Isso sinaliza para a IA que aquela obra é uma fonte confiável e merece ser citada.

Dados Estruturados (Schema.org): É a linguagem técnica que diz à IA: "Isto não é apenas um texto solto na web, isto é uma entidade 'Livro', escrita por 'Autor X', sobre o 'Assunto Y'". Sem essa etiqueta técnica (JSON-LD), a IA pode ignorar a existência da obra,.

3. Evitar a "alucinação" da máquina

Se a editora não fornecer informações claras e ricas (sinopses que explicam o contexto em vez de apenas vender mistério), a IA pode inventar informações sobre o livro ou classificá-lo incorretamente. O GEO é a ferramenta de controle do editor para garantir que a voz do autor seja preservada e transmitida corretamente pelos algoritmos.

Em resumo: enquanto o SEO lutava por cliques, o GEO luta por citações e recomendação. Em 2026, se a IA não consegue ler e entender seus metadados, ela não consegue recomendar seu livro.

A importância dos reviews

Para deixar as coisas ainda mais interessantes, o assistente Rufus utiliza as avaliações do produto, não apenas para saber se o produto é "bom" ou "ruim", ele utiliza as resenhas como fontes de dados estruturados para construir um "Grafo de Conhecimento" (Knowledge Graph).

Um "Grafo de Conhecimento" é como um mapa que conecta informações (fatos, conceitos, entidades) de uma forma que um computador pode entender. O grafo permite que o computador não apenas encontre a informação, mas também entenda o relacionamento entre as informações, tornando as buscas mais inteligentes e a compreensão do mundo mais profunda.

Para o Rufus, o que os usuários escrevem nas avaliações é tratado como "verdade fundamental" (Ground Truth), sobrepondo-se muitas vezes ao que o próprio editor ou vendedor escreveu na descrição oficial!

Como o editor deve agir agora

Uma premissa: estou aqui apresentando o sistema de busca da Amazon, mas as mesmas funcionalidades valem para os sistemas de busca do Google, para a Lu do Magalu ou o copilot (Microfost) que faz busca na web. Não se trata de um caso isolado, mas de uma mudança de paradigma na forma como buscamos conteúdos.

Então, para que seu catálogo não desapareça no "vácuo" do Rufus, ou que qualquer outro buscador baseado em IA generativa, o editor deve adotar quatro pilares de ação imediata:

1. Otimização de frases nominais (NPO) e sinopses RAG-Ready

Apesar do subtítulo acima parecer uma sopa de letrinhas, entender o conceito de frases nominais e de RAG vai te ajudar a preparar melhor os metadados.

RAG-Ready (Retrieval-Augmented Generation): Refere-se a textos (como sinopses) preparados para que a IA possa "recuperar" fatos rapidamente e "gerar" uma resposta precisa. Um texto RAG-Ready é informativo, direto e sem rodeios que confundem a máquina.

NPO (Noun Phrase Optimization): É a técnica de substituir adjetivos vagos ("livro emocionante") por frases nominais ricas em contexto ("suspense psicológico sobre luto e redenção"). É dar "substância" para que o algoritmo entenda exatamente o que o livro trata. O Rufus "lê" sua sinopse para extrair respostas em tempo real e portanto:

Abandone frases genéricas: Em vez de frases genéricas como "uma jornada inesquecível", use frases ricas em contexto: "Um guia prático de resiliência emocional para profissionais que enfrentam burnout em ambientes corporativos de alta pressão".

Pense em perguntas e respostas: Identifique as 10 principais dúvidas dos seus leitores e garanta que a sinopse ou os bullet points respondam a elas de forma direta. Se o leitor pergunta se o livro é para crianças, a resposta "Ideal para leitores de 8 a 12 anos" deve estar legível para a máquina.

2. Evite campos vazios

Para a IA, um campo vazio é uma incerteza; e incerteza gera exclusão.

Preencha todos os atributos: no seu integrador de metadados (Metabooks, Bookwire ou outros), não deixe campos como "Público-alvo", "Tipo de Material", "Orelha" ou "Uso Específico" em branco.

Use termos padronizados: Não invente nomes de cores ou categorias. Use a taxonomia que a máquina já entende (ONIX e Thema) para garantir que você seja alocado no "balde de intenção" correto do algoritmo.

3. Review Mining (mineração de reviews): aprenda a língua do seu Leitor

Review Mining: O ato de "garimpar" as avaliações dos leitores. Serve para descobrir como as pessoas realmente descrevem seu livro e usar esse vocabulário nos seus metadados, conectando a linguagem da editora à linguagem do leitor.

Como disse acima a IA da Amazon (Rufus) confia mais no que os leitores dizem do que no que a editora escreve.

Extraia o vocabulário real: Use ferramentas de IA para analisar as avaliações (reviews) e identificar quais termos os leitores usam para descrever a "vibe" do livro.

Atualize os metadados: se os leitores dizem que o livro de suspense é "perfeito para ler no avião", inclua essa informação nos seus metadados de marketing. Isso cria uma conexão semântica que a IA usará para recomendar a obra em buscas por "livros para viagem".

4. Implementação de dados estruturados (schema.org)

A preocupação não deve ser apenas com os metadados nas lojas, mas também com o seu site. Sua visibilidade depende de como os buscadores baseados em IA enxergam seu site.

JSON-LD / Schema.org: É o "cartão de visitas digital" do seu livro. É um código invisível para humanos, mas essencial para que IAs (como Gemini e ChatGPT) saibam que aquela página da web descreve um objeto específico chamado "Livro", com autor, preço e tema.

JSON-LD para Livros: Implemente o código Schema.org específico para livros em cada página de produto no site da editora.

Sinais de autoridade: Inclua metadados que comprovem a autoridade, como prêmios recebidos, citações na mídia e o identificador ORCID do autor. Isso reduz o risco de "alucinação" da IA e aumenta as chances de citação.

Embora os assistentes de inteligência artificial valorizem muito a opinião dos leitores nas avaliações, o editor não deve ser um espectador passivo dessa narrativa. É aqui que os dados estruturados (como o Schema.org) exercem sua função mais nobre: a de âncora de resistência.

Enquanto as resenhas de usuários podem ser subjetivas, carregadas de opiniões pessoais ou até imprecisas, o uso correto de códigos invisíveis de identificação (como o JSON-LD) funciona como a "certidão de nascimento" da obra. Ao fornecer à máquina uma base sólida de informações verificáveis, o editor estabelece uma fonte de verdade que serve de contrapeso aos algoritmos. Isso garante que, mesmo que o público debata o significado da obra, os dados centrais, como o gênero real, prêmios recebidos e a biografia oficial, permaneçam protegidos contra as 'alucinações' ou invenções dos sistemas inteligentes.

Conclusão

Em 2026, o editor de sucesso tornou-se um curador de dados. Se no passado a preocupação terminava na revisão do texto, hoje ela se estende à construção de sua identidade algorítmica.

Diante disso, surge a provocação: seria o editor do futuro mais um cientista de dados do que um mestre das letras? Acredito que resposta reside no equilíbrio. Não se trata de substituir a sensibilidade literária pela frieza estatística, mas de usar a técnica para proteger a arte. Tornar uma sinopse "pronta para IA" (RAG-Ready) não significa abrir mão da sedução da escrita, mas garantir que essa sedução chegue aos ouvidos certos.

Investir na infraestrutura técnica e em metadados inteligentes é, hoje, um dos atos mais profundo de defesa da voz de um autor. Afinal, em um mundo governado por assistentes inteligentes, se a IA não consegue ler a essência do seu livro, ela não terá confiança para recomendá-lo. O endereço de um livro tornou-se dinâmico e semântico; cabe ao editor garantir que, no oceano digital, a bússola da inteligência artificial sempre aponte para a sua obra.

Referências Bibliográficas para aprofundar

* José Fernando Tavares é especialista em Publicações Digitais e produtos digitais com mais de 14 anos de experiência no mercado editorial, especializado em tecnologia para negócios e Inteligência Artificial para produtividade. Em 2014, fundou a Booknando, empresa especializada em publicações digitais e livros acessíveis. No ano passado, criou a Volyo Audiobooks, focada na produção de audiolivros com uso de Inteligência Artificial. Com formação humanística, busca utilizar a tecnologia para melhorar o mundo. Tem paixão por vinhos e pelo aprendizado diário.

**Os textos trazidos nessa coluna não refletem, necessariamente, a opinião do PublishNews.

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