
A pergunta "E se um livro pudesse conversar com a gente?", antes confinada à ficção científica, tornou-se uma realidade prática. Com o “Ask This Book”, ainda disponível apenas para textos em inglês, a Amazon fez mais do que atualizar um software; ela alterou a natureza do e-book. O que antes era um arquivo estático passa a ser visto como um "companheiro de leitura algorítmico".
Mas, antes que os mais desconfiados com a tecnologia acendam as tochas e os entusiastas estourem o champanhe, precisamos descer ao chão de fábrica da tecnologia e entender o que está acontecendo. Como profissionais do livro, não podemos nos dar ao luxo de temer a "caixa preta" da IA. Precisamos abri-la. E o que encontramos lá dentro nos traz três lições urgentes sobre acessibilidade, direitos autorais e a própria arquitetura da informação.
Não é clonagem, é recuperação de conteúdo (entenda o RAG)
O maior erro que vejo nas discussões acaloradas dos últimos dias é a confusão conceitual. Quando falamos de IA no mercado editorial, o pânico imediato é: "Eles estão treinando a máquina com meu texto para escrever como eu!". Calma. É crucial diferenciar Treinamento de Modelo da técnica chamada RAG (Retrieval-Augmented Generation).
O que o Kindle está fazendo não é "aprender a escrever" como o autor para gerar finais alternativos (pelo menos não com este recurso!). A tecnologia usada, o RAG, transforma o livro em um banco de dados consultável. Pense nisso não como um autor fantasma, mas como um super-bibliotecário. O sistema não inventa nada; ele varre o texto, encontra a resposta exata para a dúvida do leitor e a entrega usando os recursos da IA para deixar a resposta com um tom mais coloquial. É uma evolução da barra de busca, não um plágio criativo.
Por que isso importa para o editor? Porque se você não entende a diferença técnica entre "clonar estilo" e "indexar conteúdo para busca avançada", você não consegue negociar contratos. O problema não é a tecnologia roubar a alma do autor, mas sim quem controla essa tecnologia. E isso nos leva ao segundo ponto.
O livro agora é dado: o ganho de valor
A tecnologia é fascinante, mas a estratégia de negócios da Amazon é, no mínimo, questionável. Ao implementar o “Ask This Book” como um padrão ("always-on"), sem pedir licença e sem oferecer remuneração, ela estressa mais uma vez as relações com a cadeia produtiva.
O recurso gera um valor imenso. Ele prende o usuário no ecossistema Kindle, impedindo-o de migrar para plataformas abertas (onde o ePub é apenas um arquivo mudo). Se a Amazon agrega diferencial ao seu produto usando a sua matéria-prima (o texto), por que apenas ela lucra com isso?
A Amazon deveria, obrigatoriamente, ter criado um mecanismo de Opt-in (adesão voluntária) ou, no mínimo, um modelo de remuneração por "consultas assistidas", similar ao pagamento por páginas lidas do Kindle Unlimited. Ao tratar o conteúdo alheio como mera infraestrutura para seu software, a empresa desrespeita os arquitetos originais da obra: os autores e editores. A inovação não pode ser um cheque em branco sacado contra os direitos do criador.
A lição: O valor do livro mudou. Se o livro agora é um serviço de consulta, o contrato de edição precisa prever licenciamento de dados, não apenas royalties de venda unitária.
Acessibilidade cognitiva e o futuro da leitura
Deixando a disputa econômica de lado por um instante, precisamos olhar para o leitor. O impacto desse recurso na forma como lemos é profundo e, arrisco dizer, positivo para a acessibilidade.
Pense no leitor com TDAH, ou naquele que retoma um livro denso de fantasia após meses de pausa, ou ainda em pessoas com dificuldades de memória de curto prazo. Para esses leitores, um livro complexo pode ser uma barreira intransponível. O “Ask This Book” atua como uma prótese cognitiva. A capacidade de perguntar "Quem é este personagem?" ou "O que aconteceu na cena do castelo?" sem receber spoilers (já que o sistema respeita o ponto de leitura atual) democratiza o acesso a narrativas complexas.
Transformar a leitura de um monólogo solitário em um diálogo assistido pode recuperar leitores que o mercado estava perdendo para as redes sociais.
O que o editor pode fazer?
Enquanto discutimos se o PDF é livro digital, as big techs estão redefinindo a experiência de leitura. O recurso de RAG e a interação via chat não deveriam ser exclusividade do jardim murado da Amazon. As editoras deveriam estar pensando em como implementar metadados ricos e camadas de interação em seus próprios arquivos e plataformas. O autor hoje é um arquiteto de mundos, e o editor precisa ser o engenheiro que garante que esse mundo seja habitável, acessível e, acima de tudo, sustentável economicamente na era da inteligência artificial.
Não deleguem o futuro. Entendam melhor como funciona a IA e suas tecnologias anexas, exijam seus direitos, mas não fechem os olhos para a revolução na leitura que está acontecendo.
Finalizo deixando o convite a uma ação e a uma reflexão:
* José Fernando Tavares é especialista em Publicações Digitais e produtos digitais com mais de 14 anos de experiência no mercado editorial, especializado em tecnologia para negócios e Inteligência Artificial para produtividade. Em 2014, fundou a Booknando, empresa especializada em publicações digitais e livros acessíveis. No ano passado, criou a Volyo Audiobooks, focada na produção de audiolivros com uso de Inteligência Artificial. Com formação humanística, busca utilizar a tecnologia para melhorar o mundo. Tem paixão por vinhos e pelo aprendizado diário.
**Os textos trazidos nessa coluna não refletem, necessariamente, a opinião do PublishNews.
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