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Inteligência Artificial em 2025: O que podemos aprender com as empresas de tecnologia
PublishNews, Fernando Tavares, 19/11/2025
Fernando Tavares destrincha tendências de inteligência artificial e separa possíveis aprendizados para o mercado editorial brasileiro

Acaba de ser publicado o relatório The State of AI in 2025: Agents, Innovation, and Transformation da McKinsey. Como de costume, eles focaram nos suspeitos de sempre: empresas de tech, bancos e manufatura. Nenhuma linha sobre o mercado de livros. Ainda assim, ignorei o foco original e mergulhei no documento com os olhos de quem trabalha no mercado editorial. A conclusão? O que está acontecendo lá fora com a tal ‘IA Agêntica’ é uma antecipação do que vamos assistir nas editoras brasileiras muito em breve.

A principal novidade de 2025, segundo o levantamento, é o avanço acelerado da chamada IA agêntica: sistemas capazes de planejar, executar tarefas de forma autônoma e agir como agentes dentro de fluxos de produção.

Junto com o crescimento dos agentes de IA vem também o crescimento silencioso (porque não aparece nas grandes mídias) dos modelos pequenos de IA (SLM). São modelos de IA que por serem menores possuem um custo menor, destinados a tarefas específicas e que funcionam muito bem nos agentes de IA.

Uma adoção grande, mas superficial

O relatório revela que 88% das organizações entrevistadas dizem usar IA regularmente. Mas tem um detalhe importante: cerca de dois terços ainda estão em fases de experimento ou projetos-piloto, sem integração real à estrutura produtiva. Somente um terço afirma ter escalado a IA de forma consistente.

Ou seja: a adoção é grande, mas a maturidade do uso ainda é baixa, algo que se reflete também no nosso mercado editorial.

IA Agêntica: promessa ou realidade?

Segundo a McKinsey, 62% das empresas já estão experimentando agentes de IA em várias áreas, especialmente em engenharia de software. Mas o que chama a atenção é a rápida entrada desses sistemas na gestão do conhecimento, algo que toca diretamente o coração das editoras.

Naturalmente, é o setor tecnológico, mais rápido na absorção de novidades, que lidera o uso de agentes, seguido pelos segmentos de comunicação/mídia e saúde.

Para o mercado editorial, isso importa por um motivo simples: é nas empresas de tecnologia que surgem hoje os padrões que determinarão como trabalharemos amanhã, inclusive na produção de conteúdo, metadados, marketing e distribuição.

O impacto é real, mas não é milagroso

O relatório desmonta a narrativa de que a IA geraria crescimento explosivo imediato. De fato apenas 39%, das organizações relatam qualquer impacto de IA no resultado financeiro (EBIT) e, quando existe, costuma ser inferior a 5%.

Apesar do impacto financeiro limitado no curto prazo, a IA tem melhorado indicadores cruciais como inovação (64%), satisfação de clientes e diferenciação competitiva, além de trazer eficiência em funções específicas (como TI, manufatura e software).

O que fazem as empresas que, de fato, obtêm resultados?

O relatório chama essas organizações de “high performers” e são cerca de 6% do total. Aqui começam as lições valiosas para o mercado editorial.

  • A liderança está diretamente envolvida. Essas empresas não deixam a IA apenas nas mãos de um time de inovação. Elas mobilizam toda a estrutura da empresa e tratam IA como uma estratégia de negócio.
  • A IA nunca trabalha sozinha. O relatório enfatiza o conceito de human in the loop. Mesmo quando agentes de IA executam tarefas complexas, o ser humano valida, supervisiona e ajusta. O grande diferencial não está em substituir pessoas, mas em combinar IA e conhecimento humano, algo fundamental no nosso mercado editorial.
  • Há investimento real em pessoas. Treinamento aparece como um fator decisivo. Profissionais capacitados para usar IA extraem mais valor em relação aos que apenas “testam a ferramenta”.
  • Estratégia clara de dados, tecnologia e workflow. As empresas de melhor desempenho redesenham processos inteiros, em vez de apenas encaixar IA em etapas isoladas.

Riscos concretos: a imprecisão como ameaça

Mais de 51% das empresas sofreram algum problema relacionado à IA. O mais comum? Imprecisão.

Isso não é surpresa, pois modelos de IA não têm compromisso com a verdade; eles são geradores de texto estatístico. Outros riscos citados incluem falhas de segurança cibernética, uso indevido de dados e decisões incorretas tomadas de forma autônoma.

E o mercado editorial?

Diferentemente dos setores analisados pela McKinsey, não temos hoje pesquisas sistemáticas que retratem o uso de IA pelas editoras brasileiras. O que sabemos é empírico, obtido em conversas com editoras e observação de mercado.

Mas o cenário é parecido com o das empresas analisadas no relatório, apenas com uma lentidão natural maior:

O uso existe, mas nem sempre está integrado aos processos: As editoras usam IA para tarefas pontuais como escrever e-mails, gerar resumos, revisar textos, criar ideias de marketing, criar imagens de capa. Mas ainda não incorporaram IA ao fluxo de produção, à gestão de catálogo, à análise de mercado ou à experiência do leitor.

O mercado editorial adota tecnologia mais devagar, e isso neste momento não é ruim!: A lentidão do mercado editorial em adotar novas tecnologias, que tantas vezes criticamos, acabou virando nosso trunfo. Enquanto outros setores correm para mitigar riscos, as editoras têm tempo para observar, testar e aprender antes de aplicar e usar a IA mais massivamente.

Falta enxergar IA como plataforma, não apenas como ferramenta: Hoje, a IA é vista como “assistente”, “estagiário”, “produtor de rascunhos” ou outras metáforas do gênero. Mas o impacto mais profundo virá quando entendermos a IA como infraestrutura, capaz de transformar processos inteiros.

Um exemplo claro está no artigo do The New Publishing Standard, The Keyword is Dead: How LLM Search Transforms Book Discovery: Os sistemas de busca por voz e linguagem natural estão alterando radicalmente a forma como livros são descobertos. Isso exige repensar metadados, descrições de títulos e toda a cadeia de marketing, uma mudança estrutural, não cosmética.

Este é um típico exemplo de mudanças que a inteligência artificial está trazendo ao nosso mundo enquanto plataforma e não somente como um chat de conversa. Só para confirmar este ponto, esta discussão sobre busca e descoberta de conteúdos está sendo levada bem a sério pela WEB com discussões intensas sobre o impacto da IA na WEB (confira o vídeo do Observatório Brasileiro de Inteligência Artificial).

Conclusão: o futuro não é automático

O relatório da McKinsey deixa claro que, em 2025, a IA ainda não transformou o valor empresarial em larga escala. Mas ele também desenha o mapa do que falta para isso acontecer.

Para o mercado editorial, a mensagem final é que não basta usar a tecnologia para fazer as mesmas coisas mais rápido. O verdadeiro salto virá do redesenho de processos, do investimento em governança e habilidades das equipes e, principalmente, de uma liderança ativa que entenda a IA como parte do negócio.

A boa notícia? Ainda estamos no tempo certo de aprender com os erros e acertos das empresas de tecnologia antes de virar a página.

* José Fernando Tavares é especialista em Publicações Digitais e produtos digitais com mais de 14 anos de experiência no mercado editorial, especializado em tecnologia para negócios e Inteligência Artificial para produtividade. Em 2014, fundou a Booknando, empresa especializada em publicações digitais e livros acessíveis. No ano passado, criou a Volyo Audiobooks, focada na produção de audiolivros com uso de Inteligência Artificial. Com formação humanística, busca utilizar a tecnologia para melhorar o mundo. Tem paixão por vinhos e pelo aprendizado diário.

**Os textos trazidos nessa coluna não refletem, necessariamente, a opinião do PublishNews.

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