Toda semana a conversa volta. No grupo de WhatsApp, no corredor da feira, naquele almoço com colegas: a inteligência artificial vai acabar com os autores, vai acabar com os tradutores, vai acabar com o trabalho intelectual, vai acabar com o livro. Do outro lado da mesa, alguém igualmente convicto responde que a IA vai resolver tudo, escrever tudo, traduzir tudo, e que daqui a pouco a editora roda sozinha.
Calma.
Quem trabalha de verdade com inteligência artificial, todos os dias, com as mãos no código e no texto, sabe que nenhuma das duas histórias se sustenta. A IA não é a salvadora dos mundos nem a destruidora deles. Ela é uma tecnologia que está, sim, provocando mudanças profundas e aumentando a complexidade de quase tudo que fazemos. Mas tratar isso com fé ou com pânico é a forma mais rápida de errar feio. O que tenho observado é que, no esforço de parecer racionais sobre a IA, somos nós, humanos, que viramos os irracionais da conversa.
Por isso quero trazer aqui uma abordagem que me ajudou a colocar esse debate num lugar mais sóbrio. É a tríade das inteligências, formulada pelo cientista da computação Silvio Meira com André Neves, Rui Belfort, Filipe Calegario e Vinícius Garcia, gente da UFPE e da TDS.company. Ela não promete nada. Só organiza o pensamento. E às vezes é disso que a gente precisa.
A ideia em uma frase: inteligência nunca foi uma coisa só
A tese de Meira parte de uma observação simples e que costuma passar batida. A gente trata inteligência como se fosse uma propriedade de cada cabeça, isolada. Não é.
Sempre tivemos pelo menos duas inteligências convivendo.
A primeira é a inteligência individual, a sua, a minha: a capacidade de aprender, raciocinar, resolver problemas e se adaptar. É de onde vêm a criatividade, a intuição editorial, a leitura crítica de um original.
A segunda é a inteligência social, que é a capacidade de grupos de pessoas aprenderem e resolverem juntos o que ninguém resolveria sozinho. O exemplo que Meira usa é o de um time de software, mas troque por uma equipe editorial e a ideia fica óbvia. O editor, o preparador, o revisor, o diagramador e o designer produzem juntos um livro de uma qualidade que nenhum deles entregaria sozinho. A inteligência do time é maior do que a soma das cabeças.
E agora chega a terceira: a inteligência artificial, a capacidade de máquinas e sistemas de aprender, raciocinar (de forma limitada, é bom lembrar), resolver problemas e analisar volumes de dados numa escala que nós não alcançamos. A diferença de origem é o ponto que Meira faz questão de marcar. As duas primeiras são fruto da evolução biológica e cultural. A terceira é feita de algoritmos, dados e processamento. Ela não nasceu, foi construída.

O pulo do gato não está nas três. Está entre elas!
Se a história parasse em “existem três tipos de inteligência”, seria só mais uma classificação elegante para encher slide de palestra. O que dá força à ideia é a interação.
Meira diz que a IA não é só uma ferramenta nova. Ela é uma nova dimensão da inteligência. E o erro mais comum das empresas, inclusive das editoras, é pegar o processo como ele já existe e enfiar a IA dentro dele, esperando que tudo continue igual só que mais rápido. Não é assim que funciona. A graça está em fazer as três conversarem.
Um exemplo do nosso mundo, não do mundo da tecnologia. Imagine a editora avaliando um original estrangeiro para decidir se compra os direitos. A inteligência individual entra na leitura crítica: esse livro tem apelo literário? Conversa com o nosso catálogo? Faz sentido para os nossos leitores? A artificial entra logo depois, resumindo o calhamaço inteiro numa tarde, levantando dados de vendas de títulos parecidos, mapeando o que a concorrência já publicou no gênero. E a social fecha o ciclo: o conselho editorial senta, cruza a leitura humana com os dados, e decide junto se vale a aposta.
A ordem não é fixa, às vezes a IA entra no começo, fazendo as perguntas que destravam a discussão. Mas nenhuma das três decide sozinha. A boa decisão mora no encontro delas.
Demorei a enxergar isso. Por um tempo eu usava a IA como um pedreiro mais rápido, pedindo tijolo por tijolo. O salto veio quando parei de tratá-la como mera executora de tarefa e passei a tratá-la como uma das inteligências da mesa, com voz, mas sem a palavra final. A palavra final continua sendo humana. Tem que continuar.
A intencionalidade é o que muda tudo
Aqui está, para mim, o coração da abordagem, e o que a separa das conversas de bar. As três inteligências não existem para rodar sozinhas em direção a lugar nenhum. Elas precisam de uma intencionalidade. E a intencionalidade que vale a pena perseguir é simples de dizer e difícil de praticar: melhorar a qualidade de vida das pessoas.
Isso reorganiza o debate inteiro. A pergunta deixa de ser “a IA vai me substituir?” e passa a ser “como eu uso essas três inteligências juntas para fazer um trabalho melhor, mais acessível, mais humano?”.
Para quem produz livro, isso é território conhecido.
Acessibilidade, alcance, qualidade de leitura, preservação do repertório de um autor: tudo isso é qualidade de vida, e tudo isso pode ser ampliado quando as três inteligências trabalham com propósito.
Nem toda IA é a mesma IA. E isso quase nunca vira notícia
Agora preciso cutucar um ponto que me incomoda. A discussão pública sobre IA trata “a IA” como um bloco único, como se todas as empresas e todos os modelos fizessem a mesma coisa, da mesma forma, com a mesma ética. Não fazem!
Existe uma diferença real, e enorme, entre empresas que treinam seus modelos com dados licenciados, com consentimento de quem criou as obras, e empresas que simplesmente raspam tudo o que encontram alegando “uso justo”. Tanto que já existe certificação para isso.
A Fairly Trained, organização sem fins lucrativos fundada por Ed Newton-Rex, que saiu da vice-presidência de áudio da Stability AI exatamente por discordar dessas práticas, concede um selo às empresas que provam ter licenciado os dados de treino e não se apoiam na brecha do “fair use”. É o equivalente a um selo de comércio justo, só que para IA.
Você ouviu falar disso na grande imprensa? Provavelmente não. E o motivo é desconfortável: empresa que respeita direito autoral não dá manchete. “Companhia treina modelo com dados licenciados e paga os criadores” não vende jornal, não rende thread, não rende a indignação que move o clique. O que vira notícia é o escândalo, o processo, a obra roubada.
Tudo isso é real e precisa ser cobrado, sem dúvida. Mas quando só o escândalo aparece, a gente acaba acreditando que não há alternativa, que toda IA é igualmente predatória. E aí joga fora, junto com a água suja, a possibilidade de escolher melhor.
Eu seria desleal com você se parasse por aqui, no tom bonito. Esse equilíbrio todo tem um preço, e quem trabalha no mercado já está sentindo.
A IA de hoje não faz só a tarefa chata de bastidor. Ela traduz capítulos inteiros, revisa, resume, escreve texto de orelha, e numa qualidade que, para boa parte do mercado de massa, já passa. Fingir que a IA “só ajuda” seria fingir que não vejo o que vejo: os postos de entrada, o tradutor que está começando, o redator de apoio, o estagiário de preparação, esses já estão minguando. Isso é real e dói. Não dá para tratar como dano colateral de um texto otimista.
Então por que insisto na palavra final humana? Não porque a máquina não dê conta da execução. Ela dá, e cada vez mais. Insisto porque há uma diferença entre o que a tecnologia consegue fazer e o que nós decidimos entregar ao leitor com o nosso nome na lombada.
Isso é escolha editorial, não limitação técnica. E escolhas têm consequências, inclusive para quem está chegando na profissão. A pergunta honesta não é ‘a IA pode?’, é ‘que mercado de trabalho a gente quer construir enquanto ela pode?
Tem ainda a conta que não fecha sozinha. Escolher a ferramenta ética, treinada com dados licenciados, em geral custa mais caro do que pegar a opção que raspou meio mundo de graça.
E a editora brasileira média trabalha com margem espremida, às vezes sobrevivendo no fio. Pregar a virtude sem reconhecer esse aperto seria fácil e falso. Nem toda escolha ética é mais cara, vale dizer, mas quando é, é uma decisão difícil de verdade.
Não tenho fórmula mágica para isso. Tenho só a convicção de que a procedência precisa entrar na conta, ao lado do preço, e não ser ignorada como se não existisse.
E aqui preciso corrigir uma coisa que pode ter soado ingênua. Quando falo numa intencionalidade voltada para a qualidade de vida, não estou jogando essa responsabilidade inteira no colo do editor que abre a ferramenta na segunda-feira. Seria injusto.
A intencionalidade de quem constrói os grandes modelos é, antes de tudo, lucro e eficiência, e um editor sozinho não dobra a mão de uma empresa de trilhões.
O contrapeso é coletivo. É o setor se organizando, e a CBL já publicou um manual de boas práticas de IA para editoras brasileiras. É a regulação em discussão, como o marco legal da IA, o PL 2338, que tramita no Congresso e mexe diretamente com direito autoral. É a soma de muitas escolhas pequenas virando demanda de mercado.
A escolha individual é uma parte importante da corrente. Não é a corrente inteira.
O que o editor pode fazer com isso na segunda-feira
A abordagem da tríade é boa porque sai do papo abstrato. Então vamos ao prático.
1. Troque a pergunta do medo pela pergunta do propósito.
Em vez de “a IA vai me substituir?”, pergunte “que parte do meu trabalho fica melhor se as três inteligências conversarem?”. A primeira pergunta paralisa. A segunda coloca você no comando.
2. Mapeie onde cada inteligência rende mais.
O olhar editorial e a decisão crítica são individuais. A construção do livro é social. A análise de grandes volumes, a padronização de metadados, a verificação de consistência, isso a IA faz bem e rápido. Distribua os papéis com clareza.
3. Guarde a palavra final para o humano.
Use a IA para acelerar e criticar, mas a decisão sobre o que vai para o leitor é sua. Isso é escolha editorial e responsabilidade profissional, não desconfiança da máquina.
4. Faça a pergunta da procedência.
Antes de adotar uma ferramenta, pergunte como o modelo foi treinado e se há respeito a direitos autorais. Coloque a procedência na planilha, ao lado do preço.
5. Comece pequeno, mas comece.
Pegue um processo só, talvez a checagem de metadados ou a primeira leitura de um original, e teste a tríade ali. Aprenda, ajuste, depois expanda.
Para fechar
A IA é uma tecnologia que aumenta a complexidade do nosso ofício, e complexidade não se enfrenta com slogan, nem o catastrófico nem o salvacionista. Se enfrenta com pensamento claro, e a tríade de Meira é uma boa ferramenta de pensamento.
Individual, social e artificial, trabalhando juntas, com uma intenção definida e com os olhos abertos para o custo da transição.
No fim, a tecnologia vai ser o que a gente, junto, decidir fazer com ela. Não sei se o mercado editorial brasileiro está pronto para essa conversa madura. Sinceramente, alguns dias acho que sim, outros não. Mas sei que ela é melhor do que o pânico do café.
Minha pergunta para você é: na sua editora, a IA vai entrar como um peão que faz tarefa mais rápido, ou como uma terceira inteligência sentada à mesa, ajudando a decisão humana a ser melhor?
* José Fernando Tavares é especialista em Publicações Digitais e produtos digitais com mais de 14 anos de experiência no mercado editorial, especializado em tecnologia para negócios e Inteligência Artificial para produtividade. Em 2014, fundou a Booknando, empresa especializada em publicações digitais e livros acessíveis. No ano passado, criou a Volyo Audiobooks, focada na produção de audiolivros com uso de Inteligência Artificial. Com formação humanística, busca utilizar a tecnologia para melhorar o mundo. Tem paixão por vinhos e pelo aprendizado diário.
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