
Teremos este ano mais uma edição do Encontro de Editores, Livreiros, Distribuidores e Gráficos, e, desta vez, com uma presença que me deixa curioso: a do analista de tecnologia editorial e autor Thad McIlroy, um dos especialistas que mais tenho acompanhado quando o assunto é inteligência artificial aplicada ao mercado editorial no exterior.
Gosto de olhar para fora, porque entender o que está sendo pensado e feito por quem vive essa discussão em outros contextos nos poupa de repetir erros e, às vezes, acelera acertos. Vou tentar nas linhas abaixo apresentar um pouco do livro do Thad e, se me permitirem, deixar também a minha leitura sobre o que ele propõe.
O livro dele é The AI Revolution in Book Publishing, com versão online em português, A Revolução da IA na Publicação de Livros (tradução minha).
Vale citar logo de cara a posição do autor: a IA não é moda passageira, não é brinquedinho novo, não é ameaça apocalíptica. É uma tecnologia de fundação. Daquelas que, como o próprio Thad lembra, a gente só mede o impacto depois que já está tudo mudado.
O livro é um guia prático. Pende mais para o lado das oportunidades, mas não foge das questões difíceis, direitos autorais, licenciamento, deepfakes, livros-lixo na Amazon, viés de dados, detecção de IA em manuscritos.
Para quem for ler, o livro se organiza em seis blocos:
Se eu tivesse que resumir o livro, diria que ele se apoia em três pilares.
O imperativo econômico — O mercado editorial tradicional vem em declínio lento há décadas, espremido entre o aumento de custos de produção e a estagnação das vendas físicas. Para o Thad, a IA é uma das poucas saídas viáveis. A meta que ele propõe é concreta, cortar 15% dos custos fixos e aumentar 15% as vendas do catálogo de fundo, o backlist. Não é pouco. Pense no que esses 15% significam em margem para investir em autores novos, marketing que funciona, infraestrutura digital.
O fim do “contêiner” estático — Essa é, talvez, a ideia mais provocadora do livro. Parar de enxergar o livro como objeto fechado, rígido. Passar a enxergar o conteúdo como fluido. Um trecho vira roteiro de TikTok, o texto vira audiolivro num custo muito menor, vira tradução quase instantânea, vira campanha de marketing para um nicho específico.
Ação no lugar de paralisia — O Thad dá um balde de água fria em quem quer proibir IA. Argumenta, e eu concordo, que a tecnologia já está embutida em tudo, do corretor do Word às ferramentas de marketing que usamos diariamente. Tentar barrar é segurar o mar com as mãos. Ele prefere que editores e autores entendam a ferramenta, criem políticas transparentes e experimentem. Uma hora mexendo na ferramenta ensina mais que dez horas lendo sobre ela.
Gosto do Thad porque compartilho boa parte da visão dele. Enquanto uma fatia do mercado ainda trata a IA como uma ameaça que “vai acabar com o setor”, ele trata a IA como tecnologia de fundação. Esse filme a gente já viu antes, aliás, com a internet, com o livro digital, com o streaming tem sempre alguma “ameaça” para o mercado editorial!
Na minha percepção, a IA é mais do que uma ferramenta. Ela é uma plataforma que está mudando (e já estamos percebendo isso!) a forma como lemos, como produzimos, como o livro circula. Não é um acessório que a gente pluga no fluxo editorial. É um camada nova. Essa diferença, entre pensar a IA como ferramenta ou como plataforma, muda tudo na hora de planejar o próximo ciclo de investimentos de uma editora.
Agora chego no ponto que mais me inquieta, e que o livro toca, mas que merece discussões e planejamento.
Quantos livros são invisíveis aos leitores? Quantos livros não vendem nenhuma cópia? Vi recentemente um dado da Espanha, mais da metade dos livros publicados por lá não vendem uma cópia sequer. São livros-fantasma. Não tenho o dado equivalente para o Brasil, confesso, mas a hipótese de que algo parecido acontece aqui é mais do que razoável.
E aqui vai uma provocação. Muita da polêmica sobre IA no editorial se concentra no texto. O caso da Shy girl na Hachette é um bom exemplo do tipo de discussão que dominou as últimas semanas. Entendo a preocupação, legítima. Mas o nosso problema, no mercado editorial brasileiro, não é escrever. Os editores brasileiros sabem escrever, sabem revisar, os autores são ótimos. Usar a IA para revisar, ou para escrever pode ser interessante, mas não resolve o verdadeiro desafio do mercado editorial no brasil (e na realidade um desafio mundial) que é fazer o livro chegar aos milhões de brasileiros que ainda não leem.
É aqui que a IA pode trazer o maior ganho: na descoberta (discoverability) e nas vendas. É aqui, acredito, que aqueles 15% extras de margem que o Thad defende têm mais chance de aparecer no Brasil.
Penso em duas etapas concretas onde a IA entrega valor real para o editor brasileiro.
Antes do livro estar pronto — Entender as demandas do mercado. Não só de quem lê, mas, sobretudo, de quem não lê. Por que não lê? O que afasta? O que poderia aproximar? Aqui a IA ajuda cruzando dados, pesquisas, sinais de consumo de conteúdo, tendências em redes sociais. É inteligência de catálogo antes de decidir o catálogo.
Depois do livro estar pronto — Posicionamento e marketing. Encontrar o nicho, formular os metadados certos (ONIX, Thema, BISAC), estruturar descrições que sejam encontráveis tanto por mecanismos de busca quanto, agora, pelos motores de IA generativa (o GEO, que é a nova fronteira da visibilidade e que vai exigir um texto à parte). Se a IA não consegue ler a essência do seu livro, ela não terá confiança para recomendá-lo.
Não é sobre delegar o livro à máquina. É sobre usar a máquina para o livro encontrar o leitor certo.
Deixo o convite para vocês participarem do 5º Encontro de Editores, Livreiros, Distribuidores e Gráficos. Com o Thad presente, acho que vai ser uma ótima ocasião para pensarmos juntos como fazer esse mercado crescer, não tanto em quantidade de conteúdo, que já temos bastante, mas em qualidade e, sobretudo, em capacidade de penetração dentro da sociedade brasileira.
O Thad defende 15% de economia. Minha pergunta para você é: se você tivesse esses 15% na mão hoje, você investiria: em mais papel ou em inteligência para encontrar seu leitor?
Para quem quiser se preparar antes:
Nos vemos no encontro.
* José Fernando Tavares é especialista em Publicações Digitais e produtos digitais com mais de 14 anos de experiência no mercado editorial, especializado em tecnologia para negócios e Inteligência Artificial para produtividade. Em 2014, fundou a Booknando, empresa especializada em publicações digitais e livros acessíveis. No ano passado, criou a Volyo Audiobooks, focada na produção de audiolivros com uso de Inteligência Artificial. Com formação humanística, busca utilizar a tecnologia para melhorar o mundo. Tem paixão por vinhos e pelo aprendizado diário.
**Os textos trazidos nessa coluna não refletem, necessariamente, a opinião do PublishNews.
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