
No mercado livreiro e editorial, falar sobre o futuro raramente é um exercício abstrato. Pensar em livro implica, quase sempre, refletir sobre sobrevivência cultural. É nesse contexto que o porvir costuma aparecer como horizonte necessário: aquilo que precisa acontecer para que o setor siga alimentando o amanhã. Mas vale ressaltar que um futuro promissor para determinado setor não é universal nem neutro. Ele varia conforme o território, a história e o grau de maturação cultural de cada mercado. Em muitos casos, o que aqui se projeta como tendência ou inovação, em outra localidade já se estabeleceu como prática consolidada — não como aposta, mas como tradição.
Há um elemento que costuma escapar às projeções: o futuro não se manifesta de forma homogênea nem simultânea. Mesmo em um mercado editorial historicamente estruturado como o francês — que acompanho de perto, por residir uma parte do tempo em Paris —, o debate sobre o livro está longe de ser pacificado. Notícias recentes mostram que o país discute hoje temas que, no Brasil, costumam aparecer como dilemas do futuro: concentração de mercado, equilíbrio entre cultura e varejo, sustentabilidade econômica das livrarias e o papel do Estado na proteção da diversidade editorial.
Reportagens publicadas no Le Monde e na imprensa especializada internacional apontam, por exemplo, a preocupação do setor editorial francês com movimentos de verticalização — como a tentativa de aproximação entre grandes grupos editoriais e redes varejistas — e com a desaceleração do mercado em 2025, após anos de relativa resiliência.
Ao mesmo tempo, eventos como o Paris Book Market seguem registrando crescimento na negociação de direitos autorais, indicando um ecossistema que, mesmo tensionado, opera com escala significativa. A diferença não está na ausência de conflitos, mas no fato de que essas discussões acontecem a partir de uma base cultural consolidada. No Brasil, debates semelhantes ainda são frequentemente tratados como antecipação de um futuro que precisa ser estruturado.
A experiência recente em Paris ajuda a tornar essa assimetria visível. A tríade cultura, consumo e narrativa, na França, não está organizada em compartimentos estanques. Moda, literatura, gastronomia, artes visuais, design, texto e objetos convivem nos mesmos espaços. Não como conceito experimental, mas como prática cotidiana. Ou seja, não é futuro — é comportamento estabelecido.
Vejo essa lógica de tradição incorporada em espaços como o The World of RH, que parte do princípio de que lojas devem ser mais do que pontos de venda e operar como ambientes que misturam mobiliário, obras de arte, bibliotecas, restaurantes, jardins e livros. O consumo não é o ponto de partida, mas a consequência de uma experiência cultural integrada. As pessoas circulam, permanecem, observam — e escolhem o que faz sentido levar consigo.
Nesse ecossistema, o livro não precisa justificar a presença com um viés comercial. Ele não é tratado como “ peça do futuro da leitura”, mas como uma linguagem legítima entre outras. Está ali, convivendo com imagens, objetos, sabores e arquiteturas. O que no Brasil ainda aparece como aposta ou tendência — livrarias híbridas, espaços culturais multifuncionais, cruzamentos entre editorial e outras indústrias criativas —, ali já opera como tradição incorporada.
Essa lógica se repete quando olhamos para os quadrinhos. No Brasil, o jornalismo em quadrinhos — que abordei em uma coluna anterior — costuma ser enquadrado como experimento, exceção ou nicho. Algo autoral, interessante, mas frequentemente tratado como risco editorial. Na França, a cultura dos quadrinhos é parte estruturante do campo cultural que ocupa livrarias centrais, suplementos, prêmios, políticas públicas e currículos.
O paradoxo é que o futuro já funciona como presente em outros lugares. E isso deveria nos instigar a questionar mais. Por que tratamos determinadas linguagens como promessa, quando o que falta não é inovação, mas continuidade? Por que insistimos em chamar de futuro aquilo que exige, antes de tudo, tempo acumulado — de investimento, de política editorial, de formação de leitores e de reconhecimento simbólico?
Há um risco silencioso em viver permanentemente projetando o amanhã. Ao chamar de futuro o que nunca alicerçamos como presente, adiamos escolhas difíceis. E naturalizamos a ideia de que estamos sempre começando, sempre testando, sempre “quase lá”.
Pensar futuros compostos no mercado do livro talvez passe menos por antecipar tendências e mais por reconhecer essa defasagem de tempo. Não para importar modelos prontos, mas para entender que experiências culturais não se improvisam. Elas se constroem com lastro, convivência e decisão. O paradoxo é que o futuro já funciona como presente em outros lugares. E isso deveria nos instigar a questionar mais. Por que tratamos determinadas linguagens como promessa, quando o que falta não é inovação, mas continuidade?
Talvez o desafio não seja descobrir qual é o futuro do livro no Brasil, mas reconhecer aquilo que já existe — e que seguimos tratando como novidade porque nunca sustentamos como presente. No fim das contas, todo futuro só se realiza quando encontra um passado que o ancore. Afinal, todo futuro que se preze tem um passado!
*Lu Magalhães é fundadora do Grupo Primavera (Pri, de primavera & Great People Books), sócia do PublishNews e do #coisadelivreiro. Graduada em Matemática pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), possui mestrado em Administração (MBA) pela Universidade de São Paulo (USP) e especialização em Desenvolvimento Organizacional pela Wharton School (Universidade da Pensilvânia, Estados Unidos). A executiva atua no mercado editorial nacional e internacional há mais de 20 anos.
**Os textos trazidos nessa coluna não refletem, necessariamente, a opinião do PublishNews.
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