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Futuros Compostos | O livro em território híbrido: cultura, comércio e novos leitores
PublishNews, Lu Magalhães, 18/12/2025
Um dos principais desafios da indústria livreira é entender como podemos manter vivo o interesse nos livros

Como criar experiências de leitura em um mundo de sobreposições? | © Olavo Martins / Galeria Magalu
Como criar experiências de leitura em um mundo de sobreposições? | © Olavo Martins / Galeria Magalu
O evento de premiação das Melhores Empresas para Trabalhar GPTW Mercado Editorial – realizado em São Paulo, nesta semana, pelo Great Place to Work e PublishNews – me trouxe reflexões que, embora não sejam novas, são aquelas que permanecem significativas ao longo da vida. Mais do que avaliar a gestão de pessoas ou o clima organizacional dos players do setor, esse levantamento revela o quão inquietos estão os profissionais dessa indústria diante dos desafios. E, um deles, é a dúvida sobre como podemos manter vivo o interesse nos livros. Para além do desafio de formar leitores, é fundamental repensar os lugares onde o livro pode existir. Não apenas como objeto de consumo, mas como dispositivo cultural capaz de gerar encontros, pertencimento e curiosidade em territórios que não foram, historicamente, pensados para a leitura.

Os dados sobre o número de leitores no Brasil revelam o tamanho do desafio não apenas de formar leitores, mas de expandir o acesso aos livros. Aqui, falo de territórios físicos e simbólicos. Uma das respostas, na minha análise, surge de cruzamentos entre cultura, tecnologia e experiência física. Claro que a comodidade das compras on-line permanece como resposta preferencial de muitos leitores. Há os que preferem a ida a livrarias. Mas, aqui, estamos falando de intencionalidade. Entretanto, o momento – e o futuro do livro – pede outras abordagens complementares.

Historicamente, o livro sempre encontrou caminhos para se infiltrar na vida social. Já foi objeto doméstico, instrumento político, mercadoria de feira, símbolo de distinção, espaço de refúgio e, mais recentemente, de performance. O que mudam agora são a velocidade e a complexidade desses deslocamentos. A leitura disputa espaço com telas, algoritmos, plataformas, mas também ganha novas possibilidades de encontro quando deixa de habitar apenas os lugares que já lhe eram destinados.

Para ilustrar essa tese, cito a inauguração da Galeria Magalu, no Conjunto Nacional – um espaço icônico ocupado pela Livraria Cultura durante muitos anos. Na prática, o endereço carrega uma memória afetiva poderosa para leitores paulistanos, e o gesto de reocupá-lo não é neutro, sobretudo porque envolve outros tipos de produtos à venda. Se de um lado reconecta o livro à cidade e ao fluxo urbano, no ambiente, por outro, coloca o livro ao lado de outros produtos. E isso pode gerar algumas críticas. Na minha leitura, essa estratégia conecta o livro a públicos que talvez não se reconheçam imediatamente como leitores – mas que podem vir a ser.

Ao reunir livraria, tecnologia, palco, café, experiências digitais e programação cultural em um mesmo espaço, a Galeria propõe um ambiente híbrido, onde o livro não é o único protagonista, tampouco é figurante. Ele convive. Circula. Se oferece ao acaso. A presença física da Estante Virtual borra as fronteiras entre o on-line e o offline, entre o acervo infinito da internet e a curadoria possível do espaço físico. Não é um movimento simples – envolve desafios logísticos, fiscais, operacionais –, mas aponta para uma pergunta essencial: como criar experiências de leitura em um mundo de sobreposições?

O que emerge desse e de outros debates recentes do mercado editorial é a percepção de que talvez não baste defender o livro como valor abstrato. É preciso redesenhar os modos de estar presente; acessível. Pensar o livro como ponto de encontro, como dispositivo cultural, como experiência que pode acontecer em qualquer ambiente. Vale ressaltar que o exemplo da Galeria Magalu é um sintoma de um movimento mais amplo: o livro voltando a disputar atenção em espaços de alta circulação, mesmo quando isso implica dividir protagonismo.

Há, claro, tensões nesse caminho. Entre memória e reinvenção. Entre cultura e comércio. Entre escala e curadoria – ponto relevante, porque ambientes híbridos não prescindem de curadoria. Vejo que quanto maior a sobreposição de estímulos, maior a necessidade de mediações conscientes que deem sentido à experiência e não transformem o livro apenas em mais um item na paisagem.

As tensões são produtivas! Assim como as melhores conversas no evento de premiação do GPTW e PublishNews, elas indicam que o futuro do livro não será construído por uma única resposta – sim por experimentações contínuas.

Talvez o leitor do futuro seja aquele que encontra o livro antes mesmo de saber que estava procurando por ele. Se for assim, cabe ao mercado criar ambientes onde esse encontro seja possível, não por acaso, mas por desenho. Imaginar e reimaginar o futuro do livro talvez seja, antes de tudo, imaginar novos modos de presença.

*Lu Magalhães é fundadora do Grupo Primavera (Pri, de primavera & Great People Books), sócia do PublishNews e do #coisadelivreiro. Graduada em Matemática pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), possui mestrado em Administração (MBA) pela Universidade de São Paulo (USP) e especialização em Desenvolvimento Organizacional pela Wharton School (Universidade da Pensilvânia, Estados Unidos). A executiva atua no mercado editorial nacional e internacional há mais de 20 anos.

**Os textos trazidos nessa coluna não refletem, necessariamente, a opinião do PublishNews.

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