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Futuros Compostos | A ficção como tecnologia sensível de futuros
PublishNews, Lu Magalhães, 02/12/2025
"Ler é um gesto de presença. Exige silêncio, curiosidade, entrega — três atitudes cada vez mais raras. Talvez seja isso que o olhar identifique quando nos interessamos por um leitor". Leia a coluna!

"Ler ficção é uma das maneiras de ler o mundo e, inevitavelmente, de se ler". Essa frase chamou a minha atenção na leitura despretensiosa de um jornal. Era uma entrevista com um escritor que, questionado pelo repórter, saiu em defesa da produção literária ficcional. Interessante pensar que cada narrativa construída pelo humano (importante ressaltar, em tempos de IA) serve, a meu ver, como um ensaio do que precisamos compreender coletivamente ou individualmente. Pelas tramas imaginárias, muitas vezes nos reconhecemos em personagens — esse é, inclusive, o start para testamos nossas próprias emoções, elaborarmos perdas, reinventarmos significados.

Como editora, sempre enxerguei a ficção como um campo de treinamento da alma — dos autores, dos editores e dos leitores. E, talvez, justamente por isso que a ficção desperte tanto fascínio e, também, escrutínio. Na jornada de leitura diária dos jornais, tropecei em outra notícia instigante: uma pesquisa conduzida em parceria com a Livraria Megafauna apontou que 76% dos usuários do aplicativo de relacionamento happn sentem-se mais atraídos por quem lê. O que à primeira vista pode parecer uma mera curiosidade, acredito que revele algo mais profundo... Em tempos de exaustação causada pelos cliques e pelas respostas instantâneas, há um desejo de entender (e um pouco de admiração) aqueles que sabem silenciar o mundo e se demorar em uma leitura.

Há algo de íntimo e profundo nesse hábito. Ler é um gesto de presença. Exige silêncio, curiosidade, entrega — três atitudes cada vez mais raras. Talvez seja isso que o olhar identifique quando nos interessamos por um leitor. Quem sabe é alguém que prestará atenção em nós?!

E o que essa história toda tem a ver com futuros? Tudo! Essa expansão das inteligências artificiais e das experiências imersivas traz consigo sempre o questionamento se o livro (e o ato de ler) sobreviverá a uma avalanche de tecnologias. Claro que, como otimista e entusiasta da leitura, sempre respondo que sim. Mas, o fato é que fico buscando evidências e sinais de que estou certa!

Em cada sinal dessa presença do livro valorizado, desejado e como alimento para as emoções humanas —, renovo a minha crença nessa permanência dos livros em quaisquer futuros. Enquanto houver o desejo humano por histórias que não cabem em resumos, por afetos que se revelam lentamente, o livro seguirá adiante. Não como objeto tecnológico do passado, mas como tecnologia sensível de futuro — um lugar em que a imaginação ainda é capaz de criar mundos e manter o nosso vivo.



Lu Magalhães é fundadora do Grupo Primavera (Pri, de primavera & Great People Books), sócia do PublishNews e do #coisadelivreiro. Graduada em Matemática pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), possui mestrado em Administração (MBA) pela Universidade de São Paulo (USP) e especialização em Desenvolvimento Organizacional pela Wharton School (Universidade da Pensilvânia, Estados Unidos). A executiva atua no mercado editorial nacional e internacional há mais de 20 anos.

*Lu Magalhães é fundadora do Grupo Primavera (Pri, de primavera & Great People Books), sócia do PublishNews e do #coisadelivreiro. Graduada em Matemática pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), possui mestrado em Administração (MBA) pela Universidade de São Paulo (USP) e especialização em Desenvolvimento Organizacional pela Wharton School (Universidade da Pensilvânia, Estados Unidos). A executiva atua no mercado editorial nacional e internacional há mais de 20 anos.

**Os textos trazidos nessa coluna não refletem, necessariamente, a opinião do PublishNews.

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