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A rede que o leitor não vê
PublishNews, Luciano Monteiro, 05/05/2026
Nos últimos anos, a sustentabilidade deixou de ser um tema periférico no setor editorial. Mas ainda há um ponto pouco explorado — e decisivo: o livro sustentável não começa na editora, nem na gráfica

© Freepik
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Nos últimos anos, a sustentabilidade deixou de ser um tema periférico no setor editorial. Mas ainda há um ponto pouco explorado — e decisivo: o livro sustentável não começa na editora, nem na gráfica. Começa muito antes, em uma grande e complexa rede: a cadeia de fornecedores.

Papel, tinta, logística, energia. Cada elo carrega impactos ambientais relevantes, muitas vezes invisíveis para o leitor final — e, em alguns casos, também para as próprias editoras. É nesse ponto que surge um risco crescente: o de tratar a sustentabilidade como algo "terceirizado", limitado ao cumprimento de exigências mínimas por parte de parceiros. Essa abordagem já não é suficiente.

A pressão por práticas mais responsáveis avança rapidamente, seja por exigências regulatórias, seja por critérios de compras públicas e privadas. Em muitos casos, o acesso a mercados — especialmente internacionais — já depende da capacidade de demonstrar rastreabilidade, governança e consistência ambiental ao longo de toda a cadeia.

Isso exige uma mudança de lógica: sair de uma visão fragmentada e avançar para uma abordagem sistêmica e colaborativa. Uma cadeia sustentável não se constrói apenas com auditorias ou certificações pontuais. Ela exige, antes de tudo, a definição clara de critérios para fornecedores: quais padrões ambientais são esperados, que certificações são relevantes e como medir e acompanhar o desempenho ao longo do tempo.

Mas definir critérios é apenas o primeiro passo. O avanço real ocorre quando esses marcos se transformam em compromisso compartilhado — quando fornecedores são tratados como parceiros estratégicos. Isso implica compartilhar metas, criar transparência sobre desafios e construir, em conjunto, soluções para reduzir impactos.

A redução de perdas é um campo concreto e imediato de atuação. No uso mais eficiente de papel, na otimização logística ou na gestão de insumos, há ganhos ambientais e econômicos claros quando a cadeia opera de forma integrada. Mais do que controlar fornecedores, trata-se de colaborar com eles.

É natural que essa agenda levante uma objeção imediata: sustentabilidade custa mais. E em alguns casos, no curto prazo, custa mesmo. Mas a pergunta relevante não é "quanto isso vai encarecer?", e sim "quanto custa não fazer?". Multas regulatórias, perda de contratos públicos, exclusão de cadeias de fornecimento internacionais e dano reputacional têm preço — e tendem a ser mais altos do que o investimento em estruturar boas práticas desde o início. Além disso, eficiência operacional e sustentabilidade andam juntas com mais frequência do que se imagina: menos desperdício de papel, logística mais enxuta e fornecedores mais estáveis reduzem custos ao mesmo tempo em que reduzem impacto. Hoje, essas medidas ainda são um diferencial competitivo, mas vejo que em breve, isso será patamar mínimo obrigatório. Mas, sem dúvida, é um equilibrio delicado e que merece reflexão profunda.

Essas mudanças também redefinem o papel das editoras. De compradoras de serviços, podemos passar a atuar como indutores de melhores práticas. Ao estabelecer padrões, incentivar evolução contínua e valorizar parceiros comprometidos, o setor pode acelerar a transformação de toda a cadeia.

Esse movimento é especialmente relevante num contexto em que a sustentabilidade começa a influenciar decisões de compra — de governos, escolas e consumidores. Estruturar a cadeia de fornecedores, portanto, não é apenas uma agenda ambiental. É uma agenda de competitividade.
As editoras que construírem relações mais maduras, transparentes e colaborativas com seus fornecedores estarão mais preparadas para responder às novas exigências do mercado — e para transformar sustentabilidade em valor real, não apenas em discurso.

O caminho começa com gestos práticos: mapear os fornecedores atuais, entender seus processos, estabelecer critérios mínimos e iniciar conversas sobre metas compartilhadas. Não é necessário ter tudo resolvido para começar — é necessário decidir que isso importa. As editoras que derem esse passo primeiro terão vantagem real, não apenas moral.

No fim, o futuro do livro não está apenas no conteúdo que ele carrega, mas também na forma como ele é produzido. E essa história começa muito antes da primeira página.

Luciano Monteiro é diretor corporativo global de Comunicação e Sustentabilidade do grupo educacional Santillana, vice-presidente de Comunicação e Sustentabilidade da Câmara Brasileira do Livro (CBL) e do Grupo de Editores Iberoamericano.

**Os textos trazidos nessa coluna não refletem, necessariamente, a opinião do PublishNews


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