
Pesquisas como a Retratos da Leitura, estudos de produção e vendas, panoramas de consumo, levantamentos sobre conteúdos digitais e mapeamentos de emprego e presença de empresas do segmento cumprem um papel decisivo: elas oferecem uma radiografia do ecossistema editorial e livreiro. Mostram onde estamos, quem estamos alcançando, quais barreiras persistem e quais tendências já estão em curso. Sem esse diagnóstico, qualquer plano de crescimento vira aposta; com ele, vira caminho.
Esses indicadores orientam políticas públicas mais eficazes: compras governamentais, ações de formação de mediadores, iniciativas de leitura nas escolas, programas para bibliotecas e estratégias para reduzir desigualdades de acesso. Dados bem estruturados permitem calibrar prioridades, identificar territórios mais vulneráveis, avaliar resultados e corrigir rotas — substituindo decisões genéricas por soluções com foco e impacto. No mundo da educação e da cultura, medir é também cuidar: o que não é acompanhado tende a desaparecer das prioridades.
Para as empresas, a contribuição é igualmente direta. Dados setoriais ajudam a planejar tiragens, ajustar catálogos, escolher canais, antecipar mudanças no comportamento do consumidor e compreender a jornada de leitura em múltiplos formatos. Também permitem identificar brechas e oportunidades: nichos pouco atendidos, faixas etárias com baixa penetração, temas em ascensão, formatos digitais com potencial, e regiões que merecem investimento em distribuição e presença editorial. Em um mercado pressionado por custos, concorrência e mudanças tecnológicas, decidir com base em evidências é uma vantagem competitiva — e, muitas vezes, uma condição de sobrevivência.
Há ainda um terceiro campo em que dados fazem diferença: a ação institucional. Quando o setor consegue demonstrar, com números e consistência, seu peso econômico, cultural e educativo, ele ganha voz. O livro deixa de ser visto como “gasto” e passa a ser entendido como investimento — em capital humano, cidadania, produtividade e coesão social. Isso fortalece a argumentação do setor diante de governos, financiadores, investidores e organismos internacionais, qualificando debates e reduzindo espaço para decisões baseadas em improviso, ruído ideológico ou desconhecimento do impacto real da cadeia do livro.
E impacto é a palavra-chave. O setor editorial gera emprego, renda, tributos, inovação, circulação cultural e desenvolvimento de competências. Em um país de desigualdades estruturais, medir acesso ao livro e à leitura não é um detalhe técnico: é um termômetro do desenvolvimento social e educativo. Onde há leitura, há repertório, pensamento crítico, autonomia e melhores condições de aprendizagem. Onde faltam livros, faltam oportunidades.
Por isso, investir em pesquisas setoriais não é luxo acadêmico nem burocracia estatística. É infraestrutura estratégica. É a base para orientar investimentos e inovações — tanto no impresso quanto no digital — e para construir um projeto de futuro em que o livro seja tratado como aquilo que de fato é: uma tecnologia de transformação. Dados não substituem o valor simbólico da leitura, mas tornam esse valor visível, defensável e mensurável. E, no mundo em que vivemos, visibilidade também é poder de decisão.
Luciano Monteiro é diretor corporativo global de Comunicação e Sustentabilidade do grupo educacional Santillana, vice-presidente de Comunicação e Sustentabilidade da Câmara Brasileira do Livro (CBL) e do Grupo de Editores Iberoamericano.
**Os textos trazidos nessa coluna não refletem, necessariamente, a opinião do PublishNews
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