
Ao mesmo tempo, é necessário tratar o tema com pragmatismo. O shrink não é apenas um detalhe técnico: cumpre uma função relevante na proteção física dos livros ao longo de uma cadeia logística complexa, marcada sobretudo pelo sistema de consignação predominante no Brasil. Nesse modelo, as obras são transportadas, devolvidas e redistribuídas diversas vezes, o que aumenta significativamente o risco de danos e perdas.
A eliminação abrupta do shrink, sem redesenho logístico adequado, pode gerar efeitos ambientais indiretos indesejados: aumento de devoluções inutilizáveis, necessidade de reimpressões, maior volume de transporte e elevação das emissões associadas. Sustentabilidade não se resume à substituição de um material — exige análise do ciclo de vida do produto e dos processos que o sustentam.
Além disso, o shrink não é o único — nem necessariamente o principal — desafio ambiental da cadeia do livro. O setor ainda depende de insumos de base petroquímica, como laminações de capa, tintas e colas. O próprio papel, responsável por parcela significativa das emissões do produto editorial, demanda grande consumo de energia e recursos naturais. A logística, por sua vez, também responde por impactos relevantes, especialmente em um mercado marcado por altos índices de devolução e, em certos casos, por excesso de produção em relação à demanda real.
Esse contexto reforça a necessidade de ampliar o debate. Reduzir o uso de plástico é um objetivo legítimo e deve estar inserido em uma agenda mais ampla de eficiência produtiva, planejamento editorial, inovação em embalagens e aprimoramento dos modelos de distribuição.
O setor editorial já avança nessa direção. Há iniciativas para reduzir o uso de plástico em determinados produtos, testar filmes com conteúdo reciclado ou biodegradável e aprimorar processos logísticos. Editoras, gráficas, distribuidores e livrarias têm ampliado o diálogo em torno de práticas alinhadas às agendas ESG e à busca por soluções tecnicamente viáveis — sinal de que a transformação é possível e está em curso.
Se uma proibição do shrink vier a ser implementada, será fundamental garantir tempo adequado para testes, investimentos e desenvolvimento de alternativas escaláveis. A transição precisa ser planejada para evitar impactos econômicos desproporcionais, riscos à circulação das obras e possíveis barreiras ao acesso ao livro.
O desafio é claro e urgente: tornar a cadeia do livro cada vez mais sustentável sem comprometer sua função cultural e social. Para isso, não bastam soluções pontuais — é preciso visão sistêmica, cooperação entre todos os elos da cadeia e políticas públicas construídas com base em dados e diálogo qualificado. A sustentabilidade do livro será resultado de um processo consistente de transformação, não de um único gesto simbólico.
Luciano Monteiro é diretor corporativo global de Comunicação e Sustentabilidade do grupo educacional Santillana, vice-presidente de Comunicação e Sustentabilidade da Câmara Brasileira do Livro (CBL) e do Grupo de Editores Iberoamericano.
**Os textos trazidos nessa coluna não refletem, necessariamente, a opinião do PublishNews
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