
Na semana do dia 13 de abril, tive duas experiências muito significativas dentro da minha jornada áudio-editorial: estar pela primeira vez na Feira do Livro de Bolonha e, de quebra, participar como panelista no fórum de áudio da BolognaBookPlus — a programação da Feira voltada aos profissionais do mercado editorial. Irei contar aqui um pouco sobre o fórum (incluindo alguns bastidores) e minha visão sobre a Feira, sempre com foco nos audiolivros.
Esse não é um artigo sobre relatos de viagem, então vou poupar maiores impressões não especializadas sobre culinária, arquitetura e sociedade bolonhesa. Mas, o que posso dizer é que a Feira reflete, em seu microcosmo, a própria cidade de Bolonha: vermelha (rossa, como é um dos seus apelidos), multicultural e diversa. Há uma energia diferente em relação às outras feiras que já participei. Sua atmosfera parece mais leve, mais conceitualmente colorida, embora notadamente também transpareça a quem participa, que está fazendo parte de algo global, um momento em que grandes negócios e discussões acontecem. Obviamente, em sua 63ª edição, já há muito é celebrada como uma das mais essenciais feiras do mercado de livros do mundo, a mais relevante de literatura infantil e juvenil, e um hub precioso de direitos internacionais e networking.
A Feira, dentro e fora do evento
No período do evento, é bem comum topar casualmente com integrantes do mercado, fora da Feira, em andanças ao longo da cidade, ou ao menos foi, para mim. Posso citar dois exemplos. No primeiro dia, meio atrapalhado para chegar ao evento, vi no ônibus uma moça checando a programação da Feira, e logo pedi ajuda para desvendar os roteiros dos ônibus bolonheses. Descobri que era uma agente literária francesa. Ela gentilmente me ajudou a realizar o percurso.
Em outro dia, também me dirigindo para lá e enfrentando um ônibus lotado, estava tentando vislumbrar como atravessar a massa de pessoas para pagar o ônibus no totem de pagamento. Uma mulher, ao lado do totem, se ofereceu para passar o cartão para mim. O cartão seguiu por uma trilha de mãos até alcançá-la. Ao agradecer, à distância, notei algo familiar nela, mas não soube dizer o quê. Dias depois, segundos antes da minha participação no fórum de áudio, ao caminhar para o palco, a vi de novo e finalmente entendi que ela era Barbara Knabe, Head de Aquisição de Conteúdo Europa e Latam, da Audible, que estaria no mesmo painel que eu.
Coisas de Bolonha.
Como todo bom participante de uma feira de livros, gastei bastante as solas dos meus sapatos zanzando e me perdendo entre seus corredores — sempre com algumas paradas providenciais para um cappuccino ou para devorar uma pinsa (desculpe, eu falei que não comentaria sobre culinária, mas a pinsa é uma espécie de prima da pizza), tendo que eventualmente correr da leve garoa que caía de vez em quando, ao cruzar alguns pavilhões.
A feira ocorreu entre os dias 13 e 16, mas com exceção do importantíssimo fórum de áudio, realizado na tarde do dia 15, localizei poucas exposições diretas ou menções a audiolivros nos estandes.
No estande do muito renomado grupo editorial francês Bayard Jeunesse, vi um banner em destaque divulgando as séries de áudio infantis, com a possibilidade de escutar alguns trechos. A Bayard Jeunesse é exemplo de editora que dedica investimento e atenção sérias ao formato de áudio. Inclusive, possuem um aplicativo próprio, o Bayam, em que constam audiolivros, podcasts, músicas, histórias de ninar, dentre outros conteúdos em áudio.
Na saída de uma reunião, num certo dia, ao correr os olhos por um estande conjunto de várias editoras, vi alguns discos de vinis coloridos. Intrigado, me aproximei e pude conhecer o trabalho da editora italiana de audiolivros Locomoctavia, que, num mundo que cada vez mais habita no digital, apresenta um contraponto, ao publicar seus conteúdos em belíssimos vinis e CDs. É sempre um desafio divulgar audiolivros (um produto hoje, eminentemente digital), no mundo físico. A Audible, inclusive, divulgou que irá lançar em maio, por um mês, uma espécie de loja pop-up para degustação de trechos de audiolivros com espaços de escuta anabolizados com equipamentos de alta fidelidade, e que também sediará vários eventos ao longo do período.
O fórum de áudio
No dia 15 de abril, ocorreu, finalmente, o muito esperado fórum de áudio do BolognaBookPlus. Em sua terceira edição, ele já se firmou como um dos mais importantes e estratégicos eventos mundiais dedicados aos audiolivros. Junto com a programação da feira de Frankfurt e com o espanhol Parix Audio Day, em Madri. A curadoria é de Nathan Hull, Chief Strategy Officer da norueguesa Beat Technology, que organiza o fórum em parceria com a feira.
Boa parte dos maiores e mais relevantes players do mercado mundial estava por ali. Representantes de plataformas, grupos editoriais, produtoras, mídia e empresas de serviço.
Enquanto esperava a minha vez de participar, fui assistindo à programação e conversando bastante com antigos e novos conhecidos. Olhando em volta, tive a impressão de que foi um dos eventos mais cheios da BolognaBookPlus, com todas as cadeiras ocupadas e com muita gente assistindo em pé.
Nathan, que é um dos grandes articuladores do mercado atualmente, deu o pontapé inicial com um pequeno discurso, em seu estilo inglês afiado e perspicaz.
Conversa com o Spotify
Um dos momentos mais esperados do evento, a conversa entre Nathan Hull e Duncan Bruce, sofreu uma mudança de última hora. Duncan não pôde participar e quem representou a empresa foi o francês Jeremy Amsellem, responsável pelo Licenciamento e Parcerias de Audiolivros na Europa.
Jeremy sinalizou algumas iniciativas e inovações que o Spotify trouxe ao mercado do livro, com o Page Match, funcionalidade que permite uma troca integrada de leitura entre o e-book ou livro físico e o audiolivro correspondente; a parceria com a Bookshop.org, permitindo a compra de livros físicos; os Recaps, que permitem retomar conteúdos com mais facilidade; e o Charts (um ranking de audiolivros mais ouvidos), voltado à ampliação de visibilidade e descoberta de títulos.
Reforçou que conteúdo original e exclusivo não é algo buscado pelo Spotify, já que, segundo ele, o objetivo é angariar mais audiência para os audiolivros e fazer crescer o mercado, difundindo maior conhecimento sobre o formato. Inclusive, declarou de forma bem marcante que não são pró-exclusividade e que conteúdos exclusivos do Spotify não são, no momento, algo tão significativo em sua estratégia.
Ao ser perguntado sobre o lançamento do segmento de audiolivros em novos mercados, como Brasil e América Latina em geral, Jeremy disse que buscam, sim, oportunidades em mercados emergentes, mas já com algum grau de maturidade. Há forte interesse, mas não há previsão. E, de fato, analisando a entrada do Spotify em novos mercados, fica nítido que definem isso considerando se há uma oferta local já substancial de títulos, com um catálogo forte, editoras lançando audiolivros ativamente e, ao menos até o momento, tickets médios mais elevados.
Tecnologia e inovação dentro do áudio
Esse painel contou com Richard Addis (Dolby, Reino Unido), Ben Drury (Yoto, Reino Unido), Adam Fritz (Pozotron, Canadá) e Dayella Rademaker (Fluister, Holanda) e teve como foco a discussão sobre novas tecnologias e possibilidades dentro do universo de audiolivros.
Um dos pontos debatidos foi sobre a necessidade de clareza, para o ouvinte, em relação à narração criada com inteligência artificial. Ben Drury, cofundador da Yoto, citou, por exemplo, o uso do pouco explicativo termo “narração digital”, pela Apple, em narrações de IA, que se distancia dessa maior transparência.
Dayella, que é responsável por produtos da Fluister, uma plataforma de conteúdos digitais criada pelo enorme grupo de mídia DPG Media, trouxe uma defesa da necessidade de conteúdos próprios que façam sentido e conversem com a audiência local.
O potencial do audiolivro na era da IA
A ElevenLabs tem participado da maioria dos eventos de audiolivro mundiais e em Bolonha não foi diferente. Madeline Shue, que dirige a área de parcerias com editoras, fez uma apresentação sobre o trabalho da empresa e trouxe alguns cases de uso da plataforma.
Alcançando leitores relutantes via audiolivros
Chegou, então, a hora do meu painel, que contou com Barbara Knabe, já citada aqui antes, Becca Souster (Macmillan, Reino Unido) e Bruno Giancarli (Associação Italiana de Editores). A moderação foi do conhecido jornalista e analista editorial Ed Nawotka da Publishers Weekly.
Discutimos muito sobre o papel do áudio não só para recuperar leitores, mas para formar e arregimentar mais pessoas para o universo do conteúdo.
Como único brasileiro (e latino-americano) que participou dos painéis do fórum, trouxe um pouco da realidade brasileira, com desafios ligados ao acesso, à formação de público, ao hábito de leitura, mas também com imensas oportunidades para o áudio ampliar o alcance das histórias e dos livros, inclusive com iniciativas que buscam levar o áudio para além dos aplicativos, como modelos de distribuição integrados a outros serviços (como o caso do Skeelo). Além, claro, de um mercado enorme, com forte apelo para o áudio (vide a audiência dos podcasts por aqui) e apontado pela NielsenIQ BookData como um mercado de livros de alto crescimento.
Escalando o áudio: a oportunidade de crescimento de catálogo
Videl Bar-Kar, Vice-Presidente de Áudio da Bookwire, é outra figura central no mercado de audiolivros. É frequentemente visto em eventos ao redor do mundo e em Bolonha expôs vários dados sobre o crescimento do mercado global de audiolivros, oportunidades de expansão de catálogo e um panorama muito propício ao crescimento do formato nos próximos anos.
Criatividade vs. Acessibilidade Financeira
O último painel teve como participantes Mathilde Davignon (Madrigal, França), Robin Lai (John Marshall Media, Estados Unidos), Rain Siemer (Rahva Raamat, Estônia), Madeline Shue, que havia já feito uma apresentação da ElevenLabs antes, e moderação de Jessica Barnfield (Zebralution, Reino Unido).
O painel tratou desse equilíbrio entre criatividade (inclusive com uso de IA) e viabilidade financeira, tema que também apareceu em uma entrevista com Robin Lai para a revista da BolognaBookPlus divulgada durante o evento. Como ele resumiu, “se a primeira experiência do ouvinte for ruim, você pode perdê-lo para sempre”, salientando como a qualidade continua sendo fundamental, mesmo em um cenário de pressão por escala e redução de custos.
Conclusões e reflexões
Já no meu voo de 11h de volta ao Brasil e com meu caderno na mão, rabisquei algumas conclusões após assistir aos painéis e conversar com muita gente antes e depois do fórum.
Há muitos movimentos interessantes e transmutações acontecendo no mercado. Como sempre, fiquemos de ouvidos bem abertos.
A presto, Bolonha, a presto!
André Calgaro é empreendedor, publisher de áudio e estrategista do setor, com duas décadas de experiência no mercado editorial. Desde 2018, atua com foco em audiolivros e storytelling em áudio, desenvolvendo projetos que integram produção, conteúdo original e parcerias internacionais. É fundador da Narratix, empresa brasileira pioneira dedicada à produção de audiolivros em múltiplos idiomas e formatos, colaborando com editoras e plataformas no Brasil e no exterior. Também criou a NarraKids, selo de conteúdo em áudio voltado a histórias para crianças e famílias, com foco em experiências narrativas imersivas. É colunista do PublishNews, onde analisa movimentos e tendências da indústria de audiolivros e o papel do áudio no ecossistema editorial. Atua também como palestrante e panelista em eventos nacionais e internacionais do setor, como a Flip e a Bologna Children's Book Fair. Contato: andre.calgaro@narratix.com.br.
Mais de 13 mil pessoas recebem todos os dias a newsletter do PublishNews em suas caixas postais. Desta forma, elas estão sempre atualizadas com as últimas notícias do mercado editorial. Disparamos o informativo sempre antes do meio-dia e, graças ao nosso trabalho de edição e curadoria, você não precisa mais do que 10 minutos para ficar por dentro das novidades. E o melhor: É gratuito! Não perca tempo, clique aqui e assine agora mesmo a newsletter do PublishNews.
Precisando de um capista, de um diagramador ou de uma gráfica? Ou de um conversor de e-books? Seja o que for, você poderá encontrar no nosso Guia de Fornecedores. E para anunciar sua empresa, entre em contato.
O PublishNews nasceu como uma newsletter. E esta continua sendo nossa principal ferramenta de comunicação. Quer receber diariamente todas as notícias do mundo do livro resumidas em um parágrafo?