
O resultado daqueles dias de Bienal foi quase um vexame total. Quase. Conversei com inúmeras pessoas de editoras, distribuí cartões a rodo e depois até achei um deles pisoteado no chão. Frustrante. As respostas dos interlocutores variavam, em sua maioria, entre “não temos interesse”, “audiolivros não vão pegar no Brasil” e “você largou tudo pra investir nisso?”.
Quase um fracasso absoluto. Quase. Pois um papo, costurado por Bruno Mendes, hoje executivo da Ediouro, valeu por muitos. Foi com André Palme, que pouco tempo antes assumira a missão de lançar no país os serviços da empresa sueca Storytel, gigante do streaming focada em audiolivros. Os dois queriam que minha novata empresa produzisse audiolivros para a Storytel. Respirei aliviado.
O que aconteceu de lá pra cá? Muita coisa! Antes de tudo, lembremos que audiolivro é um livro em áudio, disponível em plataformas digitais, por assinatura ou compra avulsa. Sua indústria mundial movimenta mais de US$ 8 bilhões e cresce dois dígitos por ano. Projeções apontam um crescimento contínuo pelo menos até o fim da década, fomentado pela expansão para novos idiomas e novos modelos de negócio, e pela convergência com outros formatos de áudio.
E o nosso mercado brasileiro, a quantas anda? O histórico vai da Coleção Disquinho à indefectível Bíblia narrada por Cid Moreira, do selo Plug.me, passando pelo início da Ubook (no despontar do streaming), até a chegada de plataformas estrangeiras. O panorama atual é de crescimento expressivo. Segundo dados da Bookwire — uma das principais distribuidoras de conteúdo digital no Brasil — sobre sua própria operação, no segundo trimestre de 2025 a receita de audiolivros atrelada ao consumo cresceu 138%, e o catálogo, 37%, na comparação com o mesmo período do ano anterior. Na empresa, a participação do áudio no rendimento financeiro digital (considerando obras disponíveis em áudio e e-book) vem registrando crescimento constante, tendo chegado a 26% no segundo trimestre de 2025. São números que ajudam a ilustrar o ritmo da expansão no mercado como um todo. Outro termômetro para o ramo, a Pesquisa Conteúdo Digital do Setor Editorial Brasileiro atesta que ano após ano aumenta a presença do formato entre os lançamentos digitais — em 2024, foi de 21% em um universo de 15 mil novos títulos; em 2019, primeira edição do estudo, eram 8% em um total de 8,9 mil.
A atuação das duas principais plataformas que operam no Brasil, a estadunidense Audible e a nacional Skeelo, também ajuda a ler o cenário. A primeira, a mais importante do mundo no segmento, por aqui tem investido cifras altas em produções exclusivas e originais narradas por personalidades famosas, buscando tanto tracionar o número de ouvintes quanto posicionar o formato no mainstream. Já a segunda, que trabalha com livros digitais (audiolivros somam 30% do consumo), aposta num rentável modelo B2B2C, distribuindo conteúdo por meio de parcerias com diferentes empresas, principalmente de telefonia, e com uma receita de R$ 160 milhões ao ano.
O potencial dessa indústria, no entanto, é bem maior. De acordo com a Associação Brasileira de Podcasters (ABPOD), no território brasileiro são 32 milhões de ouvintes de podcast, entendido como um formato de entrada para o audiolivro.
Bem, se já temos tudo isso, o que falta para acelerar o crescimento? Analisando mercados mais maduros, podemos listar os principais gatilhos.
Ah! Sete anos depois daquela fatídica Bienal do Livro, muita coisa aconteceu, minha empresa continua viva e os audiolivros no Brasil seguem crescendo. Nunca mais me deparei com um cartão de visita meu pisoteado. E, você, já escutou um audiolivro?
*Artigo veiculado na segunda edição impressa da Revista PublishNews, lançada em novembro de 2025, com tiragem de 10 mil exemplares e distribuição gratuita, tanto física quanto digitalmente. Quer contribuir financeiramente com o canal? Clique aqui.
André Calgaro é contador de histórias em áudio, empreendedor e pesquisador do universo do áudio digital. É fundador da Narratix, empresa especializada em áudio storytelling em vários idiomas, incluindo a produção de audiolivros, podcasts e outros conteúdos falados. Também criou a NarraKids, um selo editorial de áudio que oferece conteúdos premium voltados para crianças e famílias. Seu contato é andre.calgaro@narratix.com.br.
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