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A hora e a vez do audiolivro no Brasil
PublishNews, André Calgaro, 09/01/2026
O que os números, um olhar atento e um cartão de visita pisoteado dizem sobre a evolução das obras em áudio no país

Audiolivros: novos formatos, novos desafios | © Freepik
Audiolivros: novos formatos, novos desafios | © Freepik
Bienal Internacional do Livro, São Paulo, 2018. Eu estava em frente à entrada do evento, num misto de empolgação, ansiedade e preocupação. Poucos meses antes, havia pedido demissão do trabalho e investido tudo o que eu tinha — e não tinha — no meu então recém-criado empreendimento: uma empresa especializada em produzir audiolivros. Fui à Bienal captar clientes e apresentar o novo CNPJ. Conferi se os cartões de visita, novinhos, estavam no bolso, ajeitei o crachá e entrei.

O resultado daqueles dias de Bienal foi quase um vexame total. Quase. Conversei com inúmeras pessoas de editoras, distribuí cartões a rodo e depois até achei um deles pisoteado no chão. Frustrante. As respostas dos interlocutores variavam, em sua maioria, entre “não temos interesse”, “audiolivros não vão pegar no Brasil” e “você largou tudo pra investir nisso?”.

Quase um fracasso absoluto. Quase. Pois um papo, costurado por Bruno Mendes, hoje executivo da Ediouro, valeu por muitos. Foi com André Palme, que pouco tempo antes assumira a missão de lançar no país os serviços da empresa sueca Storytel, gigante do streaming focada em audiolivros. Os dois queriam que minha novata empresa produzisse audiolivros para a Storytel. Respirei aliviado.

O que aconteceu de lá pra cá? Muita coisa! Antes de tudo, lembremos que audiolivro é um livro em áudio, disponível em plataformas digitais, por assinatura ou compra avulsa. Sua indústria mundial movimenta mais de US$ 8 bilhões e cresce dois dígitos por ano. Projeções apontam um crescimento contínuo pelo menos até o fim da década, fomentado pela expansão para novos idiomas e novos modelos de negócio, e pela convergência com outros formatos de áudio.

E o nosso mercado brasileiro, a quantas anda? O histórico vai da Coleção Disquinho à indefectível Bíblia narrada por Cid Moreira, do selo Plug.me, passando pelo início da Ubook (no despontar do streaming), até a chegada de plataformas estrangeiras. O panorama atual é de crescimento expressivo. Segundo dados da Bookwire — uma das principais distribuidoras de conteúdo digital no Brasil — sobre sua própria operação, no segundo trimestre de 2025 a receita de audiolivros atrelada ao consumo cresceu 138%, e o catálogo, 37%, na comparação com o mesmo período do ano anterior. Na empresa, a participação do áudio no rendimento financeiro digital (considerando obras disponíveis em áudio e e-book) vem registrando crescimento constante, tendo chegado a 26% no segundo trimestre de 2025. São números que ajudam a ilustrar o ritmo da expansão no mercado como um todo. Outro termômetro para o ramo, a Pesquisa Conteúdo Digital do Setor Editorial Brasileiro atesta que ano após ano aumenta a presença do formato entre os lançamentos digitais — em 2024, foi de 21% em um universo de 15 mil novos títulos; em 2019, primeira edição do estudo, eram 8% em um total de 8,9 mil.

A atuação das duas principais plataformas que operam no Brasil, a estadunidense Audible e a nacional Skeelo, também ajuda a ler o cenário. A primeira, a mais importante do mundo no segmento, por aqui tem investido cifras altas em produções exclusivas e originais narradas por personalidades famosas, buscando tanto tracionar o número de ouvintes quanto posicionar o formato no mainstream. Já a segunda, que trabalha com livros digitais (audiolivros somam 30% do consumo), aposta num rentável modelo B2B2C, distribuindo conteúdo por meio de parcerias com diferentes empresas, principalmente de telefonia, e com uma receita de R$ 160 milhões ao ano.

O potencial dessa indústria, no entanto, é bem maior. De acordo com a Associação Brasileira de Podcasters (ABPOD), no território brasileiro são 32 milhões de ouvintes de podcast, entendido como um formato de entrada para o audiolivro.

Bem, se já temos tudo isso, o que falta para acelerar o crescimento? Analisando mercados mais maduros, podemos listar os principais gatilhos.

  • Aumentar o catálogo: tanto tamanho (quantidade de títulos) quanto diversificação (assuntos, autores e tipos de produção) e qualidade (incluindo conteúdo e produção). É consenso que esse é um dos principais elementos de atração. Uma obra arrasa quarteirão que fure a bolha também pode atrair muitos novos ouvintes, como já vimos no universo dos podcasts, com a série A mulher da casa abandonada, por exemplo.
  • Evangelizar: o hábito de ouvir conteúdos em áudio já faz parte da realidade dos brasileiros (91% ouvem algum formato, segundo a Kantar Ibope). É necessário expor as benesses de se escutar um audiolivro. A mais óbvia é a conveniência de poder fazer outra atividade simultaneamente — o que vem a calhar com a principal razão alegada pelos brasileiros para não lerem mais do que leem, segundo a Retratos da Leitura: falta de tempo. Essa catequização, contudo, tem ficado muito a cargo das plataformas; as editoras precisam divulgar mais seus catálogos de áudio.
  • Ampliar os meios: se há bom catálogo e compreensão sobre os benefícios, é necessário facilitar o acesso ao conteúdo. Além do trabalho com as plataformas especializadas, deve-se ampliar a presença dos audiolivros por meio de parcerias com outras empresas, aplicativos e bibliotecas digitais.
  • Equacionar o desafio da monetização: é um dilema global. Produzir um audiolivro demanda investimento, e o retorno é a médio prazo. No universo do streaming, só com alto volume de vendas/audições se tem compensação financeira. Com o avanço dos gatilhos anteriores (mais títulos, ouvintes e acesso), esse ponto tende a se equilibrar mais. Sem contar o surgimento de novos modelos de negócio.

Ah! Sete anos depois daquela fatídica Bienal do Livro, muita coisa aconteceu, minha empresa continua viva e os audiolivros no Brasil seguem crescendo. Nunca mais me deparei com um cartão de visita meu pisoteado. E, você, já escutou um audiolivro?


André Calgaro é empreendedor, publisher de áudio e estrategista do setor, com duas décadas de experiência no mercado editorial. Desde 2018, atua com foco em audiolivros e storytelling em áudio, desenvolvendo projetos que integram produção, conteúdo original e parcerias internacionais. É fundador da Narratix, empresa brasileira pioneira dedicada à produção de audiolivros em múltiplos idiomas e formatos, colaborando com editoras e plataformas no Brasil e no exterior. Também criou a NarraKids, selo de conteúdo em áudio voltado a histórias para crianças e famílias, com foco em experiências narrativas imersivas. É colunista do PublishNews, onde analisa movimentos e tendências da indústria de audiolivros e o papel do áudio no ecossistema editorial. Atua também como palestrante e panelista em eventos nacionais e internacionais do setor, como a Flip e a Bologna Children's Book Fair. Contato: andre.calgaro@narratix.com.br.

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