
Uma criança está diante de um texto simples, uma história com elementos simples. Ela reconhece as palavras, mas não consegue explicar o que aconteceu na história. Essa cena se repete milhões de vezes, todos os dias, no Brasil e em diversos países da América Latina. É um retrato silencioso da desigualdade de aprendizagem.
Quando falamos sobre desigualdade social, costumamos pensar em renda, emprego, moradia ou acesso à saúde — todos temas fundamentais. Mas existe uma desigualdade menos visível e igualmente determinante para o futuro das pessoas: a incapacidade de compreender plenamente aquilo que se lê.
Nas últimas décadas, o Brasil avançou significativamente na ampliação do acesso à educação. Mais crianças estão na escola, mais jovens concluem a educação básica e a escolarização média da população aumentou. Dados recentes mostram que 69,5% dos jovens pretos, pardos e indígenas de até 19 anos já concluíram o ensino médio, um progresso expressivo em relação à década anterior. Esses avanços merecem reconhecimento. No entanto, convivem com uma realidade preocupante: o Banco Mundial estima que cerca de 60% das crianças de dez anos em países de renda média — entre eles o Brasil — não conseguem ler e compreender um texto simples adequado à sua faixa etária.
Compreender o que se lê é a porta de entrada para praticamente todas as demais aprendizagens. E, em última instância, para a cidadania plena.
A leitura não é apenas uma habilidade escolar. É uma competência para a vida. Quem lê com compreensão aprende melhor, comunica-se melhor, toma decisões mais informadas e amplia sua capacidade de participação social. Dificuldades persistentes de leitura, por outro lado, limitam oportunidades educacionais, reduzem perspectivas profissionais e estreitam o horizonte de possibilidades.
Historicamente, a educação foi um dos principais motores de mobilidade social. Famílias inteiras transformaram suas trajetórias por meio do acesso ao conhecimento. Mas a simples presença na escola não garante aprendizagem. Em muitos casos, o que se observa é uma inclusão incompleta: estudantes que frequentam as aulas, avançam de série e recebem certificados, mas não desenvolvem plenamente as competências necessárias para continuar aprendendo ao longo da vida.
As consequências ultrapassam os muros da escola. Em um mercado de trabalho cada vez mais dinâmico, profissionais precisam interpretar informações, resolver problemas, aprender continuamente e adaptar-se a novas tecnologias. Todas essas capacidades têm uma base comum: a compreensão da leitura.
O debate público sobre inteligência artificial frequentemente se concentra nos algoritmos, nas plataformas e nas novas ferramentas — discussões importantes, sem dúvida. Existe, porém, uma condição anterior a todas elas: a capacidade humana de compreender, interpretar e atribuir sentido à informação.
Em um mundo inundado por conteúdos, dados e respostas geradas por sistemas inteligentes, compreender torna-se ainda mais crucial. Quem possui baixa capacidade de leitura tende a formular perguntas menos precisas, avaliar com mais dificuldade a qualidade das respostas recebidas, identificar menos erros e tornar-se mais vulnerável à desinformação. O desafio não é apenas acessar a informação, mas saber o que fazer com ela.
A revolução tecnológica em curso, portanto, não diminui a importância da leitura — pelo contrário. Ela reforça a necessidade de formar leitores críticos, capazes de analisar argumentos, estabelecer conexões, distinguir fatos de opiniões e construir conhecimento de forma autônoma.
É precisamente esse tipo de leitura — longa, profunda, capaz de sustentar a atenção e articular ideias complexas — que o livro oferece. Em uma sociedade marcada pela velocidade e pela fragmentação da atenção, a leitura de livros funciona como um treino insubstituível para as habilidades que a era algorítmica exige: vocabulário amplo, compreensão de nuances, pensamento crítico e capacidade de estabelecer relações entre conceitos aparentemente distantes. O livro não é uma tecnologia do passado; é uma ferramenta de preparação para o futuro.
Talvez esteja na hora de ampliarmos a forma como falamos sobre leitura. Não se trata apenas de incentivar um hábito ou promover um setor econômico. Trata-se de reconhecer que a capacidade de compreender textos é um dos pilares do desenvolvimento humano, da produtividade econômica e da redução das desigualdades.
Se queremos sociedades mais inovadoras, produtivas e inclusivas, precisamos olhar para a leitura como uma política estratégica de desenvolvimento. A pergunta que fica não é apenas se as crianças terão acesso a livros, mas se nós, como sociedade, estaremos dispostos a investir para que cada uma delas possa, de fato, compreender o que lê. Porque a mobilidade social começa exatamente aí.
Luciano Monteiro é diretor corporativo global de Comunicação e Sustentabilidade do grupo educacional Santillana, vice-presidente de Comunicação e Sustentabilidade da Câmara Brasileira do Livro (CBL) e do Grupo de Editores Iberoamericano.
**Os textos trazidos nessa coluna não refletem, necessariamente, a opinião do PublishNews
Mais de 13 mil pessoas recebem todos os dias a newsletter do PublishNews em suas caixas postais. Desta forma, elas estão sempre atualizadas com as últimas notícias do mercado editorial. Disparamos o informativo sempre antes do meio-dia e, graças ao nosso trabalho de edição e curadoria, você não precisa mais do que 10 minutos para ficar por dentro das novidades. E o melhor: É gratuito! Não perca tempo, clique aqui e assine agora mesmo a newsletter do PublishNews.
Precisando de um capista, de um diagramador ou de uma gráfica? Ou de um conversor de e-books? Seja o que for, você poderá encontrar no nosso Guia de Fornecedores. E para anunciar sua empresa, entre em contato.
O PublishNews nasceu como uma newsletter. E esta continua sendo nossa principal ferramenta de comunicação. Quer receber diariamente todas as notícias do mundo do livro resumidas em um parágrafo?