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Receita para (de)formar leitores
PublishNews, Henrique Rodrigues, 24/04/2025
Em sua nova coluna, Henrique Rodrigues enumera as práticas que levaram o Brasil aos índices de leitura atuais

O tempo passa, o tempo voa, e a leitura no Brasil continua numa boa. Se todo mundo – ao menos os mais seminovos – se lembrou da propaganda do banco que nem existe mais, é porque aquele jingle funcionou, cavoucando seu lugar na memória de toda uma geração. Foi observando esse tipo de sucesso que pensei no motivo pelo qual nenhuma campanha de promoção de livro deu certo em longo prazo no Brasil. Isto posto, decidi arrolar um tipo de decálogo da não-leitura, enquanto beberico um café cada vez mais caro. Vamos lá:

1. Forme professores que não gostam ou não têm tempo para a leitura literária. Para início de conversa, vamos voltar para a base, já aconselhou o Mano Brown e quase ninguém parece ter ouvido. Como alguém vai traumatizar outrem para a leitura se não for, essa mesma pessoa, alheia a essa prática? Fica o exemplo típico: cursar Letras com o intuito de ensinar língua estrangeira e não ter paciência para literatura, mas acabar conseguindo vaga de trabalho para a tríade Português/Literatura/Redação. Outro bem comum: a professora tem interesse e até gostaria de ler mais, porém a carga de trabalho é alta e as secretarias estão impondo um monte de tarefas administrativas para alimentar as estatísticas.
1.1. Repasse aos alunos aquela formação hermética da faculdade. Ainda nesse tópico, que tal repetir no ensino médio aquele curso de literatura que tratou de determinado recorte sobre as influências do Modernismo sobre os conceitos de cânone? Os alunos vão amar.
1.2. Ofereça um currículo baseado unicamente na história das chamadas escolas literárias. Esse é batata, porque todos os assinantes do PublishNews só se tornaram profissionais da área por conta dessa experiência única: obrigue a galerinha a decorar as diferenças entre Realismo e Naturalismo, disseque um soneto como se fosse um sapo, taque Camões ou mesmo o nosso Machadão de paraquedas, que assim você vai formar uma base crítica imensa nos alunos. Dica: não se esqueça do clássico “o que o autor quis dizer no trecho...”, uma vez que os adolescentes estão cada vez mais avançados e já vêm dotados de propriedades mediúnicas.
1.3 Entenda que a sala de leitura na escola é um espaço dispensável. Para fechar esse starter pack, tem avançado muito o projeto de fechamento das salas de leitura nas escolas (antigamente chamadas de bibliotecas, mas não pode porque o sindicato está de olho). Poxa, elas já estão abrindo só de vez em quando porque não tem profissional que cuide do espaço. Uma solução é mandar para a sala de leiutura professores com burnout, antes ou depois do afastamento médico. Repare que entre as estantes há espaço de sobra para guardar todo tipo de material, como um anexo do almoxarifado. Se começarem a achar estranho demais, apenas transforme o espaço de leitura em mais uma sala de aula ou qualquer laboratório, pois ninguém vai sentir falta, como sói acontecer.

2. Faça do livro um objeto estranho à maioria e cult para uma minoria. Se todo mundo concorda que livro deixa as pessoas mais inteligentes e virtuosas, por que vulgarizá-lo? Ao tratar o livro como uma Ferrari, de repente até vai se tornar um objeto de consumo mais desejado pela choldra.

3. Aceite o fato de que a única forma de estimular a leitura é por meio de dancinhas e caretas nas redes sociais. Gente, por que discutir que a bola está na mão dos influencers, esses seres que vieram para suprir nossa secular lacuna nos processos de mediação cultural? Aceite a era dos os selfie made men. Eles são vips, curadores e criadores de conteúdo, iluminados, especialistas na mensagem do minuto, marcam presença, “agregam valor”, tudo casado com as regras infalíveis dos algoritmos.
3.1 Como estratégia, estimule a leitura expressa. Ninguém quer mais saber de metáforas, metonímias, subtextos, essas coisas antigas que demoram demais para a compreensão e que não cabem nos segundos dos stories. Atente para a regra dos três segundos. Poesia, então, só se for uma frase / de autoajuda / quebradinha / assim / imitando / versos.
3.2 O celular educa. Em casa, passe o tempo todo grudado/a no celular, que assim seus filhos, em atitude rebelde e transgressora, vão se tornar regulares e exímios leitores.

4. Quanto menos livrarias, melhor. É preciso entender que as pessoas querem coisas exclusivas, sobretudo quem afirma ser inclusivo. A valorização do livro advém da sua infalível capacidade de ser raro. Vide item 2.
4.1 Quando houver uma livraria, é mister deixar a produção brasileira lá no canto, escondidinha. Já basta os alunos terem sofrido horrores com livros brasileiros na escola, e alguém ainda acha que vão procurá-los para compra espontânea? A prioridade é vender aquela saga ou o best-seller de fora, porque se veio do estrangeiro é bom. Não, não é recíproco, pois lá fora não ligam muito para os nossos livros, mas who cares?

5. Deixe a área da leitura na mão de marqueteiros, economistas e “gestores”. Assim como no futebol, em literatura todo mundo é técnico. Formação, experiência, estratégia, entendimento, reflexão sobre livro e leitura podem ser facilmente emulados ou disfarçados por trás de meia dúzia de jargões do corporativês básico. Seja numa empresa privada ou em cargos públicos, como é uma área que não tem muita importância na maior parte do tempo, ninguém vai reparar caso os responsáveis conheçam pouco ou nada do setor.

6. Abra biblioteca, tire fotos para postagens e mantenha o espaço fechado. Essa é batata porque se trata de estratégia amplamente usada em hospitais e outros espaços por instituições públicas. Já se gastou uma nota para construir e inaugurar, e incluir orçamento de programação e ativação de público ganha o selo Altamente Dispensável. Clube de leitura, sarau, oficina e outras atividades cotidianas idem e ibidem.

7. Quando falar em políticas públicas para a área, lembre-se da finitude do seu mandato. Essa vai para os políticos e todos os que atuam em cargos comissionados: se você está aí de passagem, por que pensar em algo cujo efeito só tende a aparecer daqui a 5, 10 ou 20 anos? Além de botar azeitona na empada de um futuro concorrente, você sabe que pode até ser punido caso tenha uma ideia que dê muito certo e acabe roubando o protagonismo da chefia.

8. Faça eventos literários bacanudos que tá resolvido. Vivemos no Brasil e todo mundo gosta é de festa. As últimas décadas revelaram que realizar um evento literário a cada um ou dois anos faz com que a população adquira massivamente o gosto pela leitura. Basta olhar as cidades e bairros onde são realizados os eventos para conferir que tem mais livraria do que farmácia, com uma pujança de gente lendo o tempo inteiro a ponto de fazer o metrô de Paris tremer nas bases.
8.1 Atenção para o protagonismo gringo. Este item está intimamente ligado ao 4.1. Quanto melhor o evento, mais relevantes são os convidados estrangeiros. Todo evento precisa ser internacional e gastar com gente de fora, mesmo que realizado com verba oriunda da renúncia fiscal de impostos bem brazucas.

9. Faça escritores e demais artistas trabalharem por muito pouco, de preferência gratuitamente. Considerando que a maioria dos escribas é oriunda de uma classe média resolvida e apenas atrás de qualquer vitrine, é fortemente aceita a ideia de que cachê é outro item do selo Altamente Dispensável. Tal como o músico de rua, o importante é que escritores estejam mostrando sua arte, sem se vender para o deus-mercado. Para cada 10 autores tupiniquins sem cachê é possível trazer um estrangeiro com algumas mordomias.

10. O alto índice de analfabetismo funcional não é desafio, é oportunidade. Volte ao 3.1 e pense comigo: se a maioria da população tem dificuldade em entender um texto básico, ela vai comprar rapidamente o que você imprimir e divulgar bem seguindo as regras dos algoritmos. E nem precisa gastar com tinta porque, a depender do título, os leitores mesmo passam o tempo colorindo a obra. Como se diz, é pá e bola.

Bônus: Deixe de comprar livros e espere o resultado. Se todo mundo tem celular, aparelho no qual todo mundo lê e escreve, para que gastar dinheiro público com programas de botar livro na casa de gente pobre? Isso ninguém vê, é zero instagramável. Se não entendeu, volte ao item 2.

Henrique Rodrigues é diretor do Instituto Caminhos da Palavra, voltado para a promoção do livro, leitura e escrita. Com mais de duas décadas de experiência na área, é coordenador geral do Prêmio Caminhos de Literatura e curador do Prêmio Pallas de Literatura. Nascido no subúrbio do Rio de Janeiro, formou-se em Letras pela Uerj, cursou especialização em Jornalismo Cultural pela Uerj, mestrado e doutorado em Letras pela PUC-Rio. Já foi atendente de lanchonete, balconista de videolocadora, professor, superintendente pedagógico da Secretaria de Estado de Educação do RJ, coordenador pedagógico do programa Oi Kabum! e gestor de projetos literários no Sesc Nacional. Publicou 24 livros, entre poesia, infantil, conto, crônica, juvenil e romance, tendo sido finalista do Prêmio Jabuti duas vezes. É patrono de duas salas de leitura das escolas públicas onde estudou. www.caminhosdapalavra.com.br

** Os textos trazidos nessa coluna não refletem, necessariamente, a opinião do PublishNews.

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