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Prêmios literários são consequência, não causa
PublishNews, Henrique Rodrigues, 20/11/2023
Em sua coluna, Henrique Rodrigues reflete sobre o papel das premiações na trajetória de autores

A cada ano, mais ou menos nesta época, começam a ser divulgados os finalistas e vencedores dos mais diversos prêmios literários do Brasil. É um ciclo que se repete: as listas saem na imprensa, são replicadas nas redes sociais, proliferam-se alegrias e parabéns tanto quanto decepções, acusações de armação e uma boa porção de ressentimento, ingrediente que pulula não só na literatura, mas no mundo das artes em geral.

Já escrevi sobre isso tudo em outra coluna. Mas como é um assunto recorrente, vamos lá.

Há uns anos venho trabalhando no lado de trás do balcão dos prêmios literários, observando todo esse movimento de expectativas e surpresas. Entendo que há uma série de aspectos que devem ser considerados nesse debate.

O primeiro é que os prêmios têm objetivos diferentes: alguns intencionam revelar os melhores do ano, outros abrir caminho a novos nomes. Gosto mais do segundo, ainda que entenda a importância do primeiro. Mesmo que a literatura seja quase a prima pobre da Cultura (veja os recentes esquecimentos dos editais de incentivos públicos), há um grande desejo de pessoas, oriundas de todos os lugares, terem sua obra publicada e lida. Imprimir é relativamente fácil, mas tornar público é que são elas. Não podemos nos esquecer de que há poucos consumidores de literatura não sustentada pelo marketing ou que não se enquadre em tendências da moda. Há exceções, claro, mas que só justificam a regra, como é o caso do Torto arado, do Itamar Vieira Júnior. Por isso são chamadas de fenômenos, não é? Os mais vendidos das bienais de livro, só para pinçar um exemplo, são ainda best-sellers internacionais. Mas isso é assunto para depois.

Nesse cenário, existe a ideia de que vencer um prêmio significa que os livros chegarão a muitos leitores, com uma multidão correndo para livrarias e sites a fim de adquirir a obra. Balela, também, em termos de volume. Mesmo as editoras grandes, muitas vezes, criam seus selos para livros que vendem muito, separando-os daqueles direcionados para prêmios, que nem precisam ter muita saída. Livros premiados são quase um segmento, voltado mais para credibilidade do que para sucesso comercial.

Muitos autores querem vencer um prêmio para que sua obra seja validada pelo sistema literário. Entendo muito isso, porque ser escritor no Brasil é bem difícil. Falei que queria ser autor aos 13 anos, na escola pública, ao vencer o concurso de frases na biblioteca. Daí fui roubar poemas dos grandes autores, dava para as meninas dizendo que os tinha escrito, entrei na faculdade de Letras (algo até então impensável e estranho para a nossa família pobre), depois mais estudo, oficinas, aulas, resenhas em jornais, escrita nos blogs e um catatau de nãos até que, aos 30 (17 anos depois), tivesse meu primeiro livro publicado. Hoje vejo o quanto esse tempo foi importante.

É fato que cada autor e autora traz sua história, mas percebi nesse período que os escribas têm muita urgência de serem reconhecidos. Creio que a lógica corrida das redes sociais faz com que a cada semana precise ser elencado o grande livro da grande revelação nunca dantes encontrada na história da literatura. Passa-se um tempo e essa pessoa é trocada por outra, com o mesmo sentido de uma celebração da genialidade efêmera, que se torna uma grande armadilha para quem quer abraçar a literatura como parte da sua vida. É frustração na certa. Cilada, Bino!

Fui indicado apenas recentemente a alguns prêmios, mas sou mais chamado para compor júris, o que me deixa bem confortável porque aprendi a estabelecer critérios técnicos para esse trabalho. O ideal é avaliar livros, não pessoas, inclusive me recuso a dar notas altas para Fulano/a só porque está bombando nas mídias. Até porque tem gente muito celebrada nas redes sociais, com fotos e vídeos superproduzidos, mas cujo texto, na hora da leitura, é muito aquém do que aparenta.

Por isso acho que o Prêmio Sesc, do qual fui um dos idealizadores e que está completando 20 anos, passa ao largo disso tudo. As obras são protegidas por anonimato, e trocamos a cada ano as dezenas de pessoas envolvidas no júri. Ou seja: quem escreve não sabe quem vai julgar e quem julga não sabe quem escreveu os livros. O resultado é sempre surpreendente: pelo terceiro ano consecutivo foram descobertos vencedores do Pará. Tem gente boa no país inteiro.

Não vencer um prêmio literário, por estranho que possa parecer, não significa que você perdeu. Talvez esse seja um dos grandes equívocos que passam na mente dos candidatos. Vemos sempre algo como a fábula “A raposa e as uvas”, em que os prêmios recebem uma saraivada de críticas e acusações de mamatas ou clubismos para iniciados, panelinhas e por aí vai. Aí no ano seguinte, caso essa mesma pessoa seja indicada para algo, o discurso rapidamente muda, como nos casos do futebol: nunca critiquei.

Há uns anos, e parece que foi coisa de muitas décadas, a galera dos livros fazia uma coisa que tinha ares meio sérios, porém era muito divertido, chamado Copa Literária, ou algo assim, em que o pessoal ia votando num grupo de romances lançados ao longo do ano, passando por oitavas, quartas etc. até chegar ao livro vencedor. Os prêmios literários não são isso. Eles se organizam por vários critérios, com muita gente comprometida trabalhando nos bastidores para que funcionem e sejam justos.

Como se trata de arte, há o componente subjetivo que pode variar de acordo com as bancas julgadoras, fazendo com que centenas de livros sejam avaliados por algo entre o mérito da qualidade e uma parcela de sorte. Sobre isso, o escritor Christiano Aguiar escreveu bem na sua newsletter: “o mérito deve nos deixar orgulhosos e deve nos fazer admirar os colegas que conseguiram a proeza de estar nas finais, nas listas de melhores do ano, nos lugares vencedores. A sorte, contudo, precisa ser um convite à humildade.” Falou e disse, camarada.

Creio ser importante, sobretudo, que os escritores em geral não coloquem tanta expectativa nos prêmios literários. Eles são reconhecimento sobre um trabalho, não a causa dele. Tomar consequência como causa é outra armadilha que se deve evitar, especialmente quando esse processo está totalmente fora do nosso alcance. Para além da validação entre os colegas de ofício, acredito que o desafio como artistas num país tão desigual deveria ser contribuir para criar mais leitores para as nossas literaturas.

Agora mesmo, enquanto escrevo, tenho um livro entre os semifinalistas do Jabuti. Se ficar, legal. Caso não, ok também. Mesmo porque acho que já ganhei um dos maiores prêmios: aquela biblioteca onde venci o concurso aos 13 anos agora leva o meu nome. E ajudar a formar novos leitores lá é a responsabilidade que esse prêmio trouxe. Nesse sim, reside a minha expectativa.

Henrique Rodrigues nasceu no Rio de Janeiro, em 1975. É formado em Letras pela Uerj, com especialização em Jornalismo Cultural pela Uerj, mestre e doutor em Letras pela PUC-Rio. Já foi atendente de lanchonete, balconista de videolocadora, professor, superintendente pedagógico da Secretaria de Estado de Educação do RJ e coordenador pedagógico do programa Oi Kabum!. Trabalha na gestão de projetos literários no Sesc Nacional. É autor de 23 livros, entre poesia, infantis, juvenis e o romance O próximo da fila (Record), publicado também na França. Site do autor: www.henriquerodrigues.net

** Os textos trazidos nessa coluna não refletem, necessariamente, a opinião do PublishNews.

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