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Concursos literários: sonho, loteria ou maracutaia?
PublishNews, Henrique Rodrigues, 08/02/2019
Em sua coluna, Henrique Rodrigues avalia os diferentes formatos de premiações

Dentre as histórias envolvendo o reconhecimento tardio de obras literárias, é bem conhecida aquela em que Fernando Pessoa teria ficado em segundo lugar no prêmio promovido pelo do Secretariado Nacional de Propaganda de Portugal, em 1934. O livro Mensagem, concorrendo ao Prêmio Antero de Quental, perdeu para Romaria, do padre Vasco Reis, de quem hoje quase ninguém se lembra.

O que hoje soa como grande injustiça literária é uma das versões, provavelmente iniciada com João Gaspar Simões, em cuja biografia de Pessoa afirma que o poeta recebeu apenas um prêmio de consolação. O próprio Vasco, décadas depois, reconheceria a superioridade de Mensagem, tendo passado toda a vida com o estigma de quem roubou o primeiro lugar do grande poeta que foi Pessoa. (Assumia-se Vasco, pois, como vice...) No entanto, o que pouco se diz é que houve um lobby nos bastidores da premiação a fim de favorecer Pessoa, já bastante conhecido à época, tendo sido criada uma segunda categoria para poemas soltos ou único poema, oferecendo os mesmos 5 mil escudos do outro vencedor. O júri do tempo, bem mais imparcial no fim das contas, encarregou-se de filtrar o melhor texto.

Polêmicas e críticas em torno de prêmios literários provavelmente nasceram com eles. Escolher alguns significa, obviamente, preterir todos os outros candidatos, de maneira que sempre são geradas dúvidas quanto ao que acontece nos bastidores – como, em geral, acontece com um jogo de futebol. Muitos se lembram do caso em torno do Prêmio Jabuti, o mais tradicional no Brasil, ocorrido no ano passado, que começou com uma reformulação e terminou com comentários homofóbicos em redes sociais do seu curador, que acabou se demitindo. Ou mesmo do próprio Nobel de Literatura concedido em 2016 a Bob Dylan, que não seria um escritor propriamente dito, mas músico e compositor. Ano passado o Nobel sequer foi apresentado, uma vez que um dos membros da Academia Sueca foi acusado de violentar 18 mulheres.

Mas por que os prêmios literários, com sua natureza excludente, de peneira, são tão desejados ao mesmo tempo em que são constantemente passíveis de questionamento?

Se por um lado os prêmios voltados para autores já consagrados e com muitos quilômetros rodados não escapam dessas tretas, como ficam aqueles que podem ser as primeiras oportunidades de publicação? Os concursos literários sempre foram uma oportunidade de sair do anonimato, mesmo porque o acesso à produção cultural, em todas as suas manifestações, sempre esbarrou um muro quase intransponível para artistas brasileiros. A maioria dos escritores surgidos e estabelecidos no último século pertence à classe média dos grandes centros urbanos, ou que migrou para estes locais.

O caminho que sempre foi, digamos, normal é que esse autor iniciante conseguisse ter um contato com o mais conhecido, que por motivos dos mais variados (e entre os positivos citaria a aposta no novo nome pela qualidade do texto) o ajuda a publicar e conseguir algum espaço. Quem vivesse fora do raio de ação de um padrinho teria mais dificuldades. Há coisa de 15 anos, os blogs se estabeleceram como canais mais democráticos para que essa nova geração fosse lida, e hoje as plataformas de autopublicação fazem sucesso entre aspirantes. E publicar uma tiragem de 100 exemplares numa editora pequena está relativamente fácil. Mas ainda assim, no meio de tanta coisa sendo escrita, parece haver um desejo de validação por meio de um concurso.

A cada ano me espanto com o volume de livros submetidos ao Prêmio Sesc de Literatura, voltado apenas para contistas e romancistas inéditos e cujo troféu é a publicação pela Record e um circuito literário pelo país. Enquanto escrevo, com as inscrições abertas, já passam dos mil volumes enviados. Pensando friamente, é uma chance contra centenas. Mas ainda assim os relatos dos vencedores indicam que vários deles passaram o ano inteiro preparando o texto para o certame.

Há uma infinidade de concursos literários voltados para inéditos, outros que aceitam livros de autores já publicados – mesmo porque vários escritores, depois da estreia, ficam sem ter onde publicar e engavetam novas produções. Existem também aqueles que considero uma grande furada, que oferecem apenas a publicação numa antologia sem nenhum direito autoral, ou que dão como prêmio um pacote de livros impressos (nunca serão distribuídos) ao vencedor, que os leva para casa e vê, com o tempo, as páginas ficarem tão amareladas quanto seu desejo de ser escritor publicado.

Os prêmios literários devem existir em quantidade proporcional ao volume de pessoas interessadas neles. No caso daqueles voltados aos já publicados, que prevaleça a qualidade do texto antes de tudo. Já naqueles para iniciantes, que sejam um início e não um fim, para que não morram na praia. Em ambos os casos, é preciso haver critérios bem definidos nos editais. Assim como no futebol, a regra precisa ser clara – mesmo para que, como ocorreu em Portugal, não surjam mais Vascos vicejando com literaturas de segunda.

Henrique Rodrigues nasceu no Rio de Janeiro, em 1975. É formado em Letras pela Uerj, com especialização em Jornalismo Cultural pela Uerj, mestre e doutor em Letras pela PUC-Rio. Já foi atendente de lanchonete, balconista de videolocadora, professor, superintendente pedagógico da Secretaria de Estado de Educação do RJ e coordenador pedagógico do programa Oi Kabum!. Trabalha na gestão de projetos literários no Sesc Nacional. É autor de 13 livros, entre poesia, infantis, juvenis e o romance O próximo da fila (Record), publicado também na França. Site do autor: www.henriquerodrigues.net

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