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Pela intranacionalização da literatura
PublishNews, Henrique Rodrigues, 28/07/2022
Em nova coluna, Henrique Rodrigues defende o protagonismo da produção nacional em eventos literários

Henrique Rodrigues | © Divulgação
Henrique Rodrigues | © Divulgação

Voltando de Paraty para o Rio de Janeiro, leio que a Flip acaba de anunciar a primeira convidada da edição de 2022. Não conheço ainda o trabalho de Saidiya Hartman, que tem três livros traduzidos no país. Segundo a notícia, a autora “desenvolve pesquisas nos campos da história da escravidão e literatura afro-americana”. Por outro lado, conheço o que fazem Sony Ferseck, Pelé do Manifesto e MC Martina, que haviam participado do Farpa – Festival Arte da Palavra, evento que o Sesc realiza em diferentes estados a cada ano e, semana passada, aportou na cidade sul-fluminense.

Naturalmente, uma coisa não exclui a outra, mas por coincidência tratamos de um ponto no festival: por que os eventos literários brasileiros são tão dependentes de nomes internacionais, como se a eles coubesse abrilhantar as realizações brasileiras? Há tempos venho notando que, nas festas de outros países, os protagonistas são sempre autores nacionais, e os de fora compõem um elemento suplementar, como um tempero. Aqui é preciso ter um nome oriundo do exterior, como se só assim houvesse legitimação da realização cultural.

Virou até uma piada entre alguns curadores de eventos literários quando, em dado momento da construção da grade programática, alguém pergunta quem tem o contato do Mia Couto. Em determinados locais, já é possível fazer um bolão para saber em que momento virá a genial sacada para esse ponto alto do evento. Tenho grande respeito e admiração pelo Mia. Aliás, um causo: há uns 15 anos, na maravilhosa Jornada Literária de Passo Fundo (que retorne em 2023!), presenciei quando as mulheres, cansadas de esperar na longa fila do banheiro feminino, invadiram o masculino e, ao se depararem com o Mia, improvisaram uma inusitada sessão de autógrafos.

Reafirmo: não há problema algum com os autores internacionais estarem por aqui. Meu ponto se relaciona ao fato de que, em vários aspectos da cadeia produtiva, os brasileiros ficam para escanteio. Na recente Bienal do Livro de São Paulo, dentre as notícias alvissareiras sobre os três milhões de livros vendidos, parece não incomodar muito o fato de que a maioria seja de autores estrangeiros. Não esperemos que esse quadro mude pelas mãos das grandes editoras, mesmo porque os estandes estavam projetados para a venda de internacionais, como rezam os setores de marketing. Sejamos francos, elas não são agências culturais e educativas, e sim empresas geradoras de lucro que refletem o que o mercado pede, com o natural intuito de pagar as contas e ficar no azul.

Quando mediei um debate no estande de Portugal, fiz uma pergunta incômoda e relacionada ao assunto: por que nas livrarias de outros países os destaques são a produção local, enquanto o padrão nesse comércio daqui é que a literatura brasileira se restrinja aos fundos? (Confira no shopping mais próximo!) O autor brasileiro, meu amigo, preferiu não responder diretamente, uma vez que a conclusão nos levaria à condição de colonizados, algo delicado de falar no estande português. Mas, ao visitar a editora da qual somos autores, lá se repetia o quadro: à “literatura brasileira” coube só uma estante no canto, enquanto a galera se esbaldava com os best-sellers de fora.

Como muitos já sabem, tudo isso é consequência, não causa. A ausência de políticas públicas na área faz com que a educação para a leitura literária seja torta e ineficiente em escala. Se por um lado temos um volume imenso de jovens ávidos por leitura, esse interesse se dá muito mais pelos investimentos em marketing do que por um processo saudável de criação do mercado interno.

Para quem não sabe, muitos dos best-sellers internacionais têm seus direitos comprados por um valor x, ao qual se soma o y de divulgação para que venda, cubra os custos e dê lucro. Para quase todos os autores brasileiros em atividade, esse x é igual a 0, com o y tendo o mesmo valor. E ainda prevalece, em muitos lugares, a ideia de que as editoras estão fazendo um grande favor em publicar autores brasileiros, esses cotistas.

É por essas e outras que precisamos olhar para a nossa diversidade e investir na mediação de leitura para os artistas da palavra daqui. Aliás, com os custos exorbitantes para trazer uma estrela internacional poderíamos pagar cachê e hospedagem para um monte de escribas de primeira que faz um trabalho tão bom quanto os de fora.

Outro ponto a se pensar: considerando que se trata do nosso dinheiro público, como são os milhões arrecadados em renúncia fiscal para a realização dos grandes eventos, não seria meio óbvio priorizar os artistas brasileiros que, por não serem celebridades, já sofrem dificuldades de sobra? Ou o grosso do dinheiro público brasileiro só pode ser gasto em cachês com duplas sertanejas país adentro?

Para finalizar, como o Mia Couto dispensa apresentações e Saidiya Hartman terá todos os holofotes da nossa mídia sempre deslumbrada com notícias da Flip: Sony Ferseck é uma grande escritora e professora de origem macuxi, de Boa Vista. Pelé do Manifesto é um rapper porreta de Belém que não deve nada a um Emicida. E MC Martina é uma slammer do Morro do Alemão, aqui no Rio de Janeiro. Enquanto 19 pessoas eram mortas naquela favela em mais uma operação policial genocida semana passada, ela se apresentava dizendo que transformava sua raiva em poesia.

Acabo de escrever este artigo a caminho do Festival de Inverno de Garanhuns / Pernambuco, a fim de entender sobre como reler e reescrever o nosso país. Já temos muitos eventos internacionais, precisamos de mais que sejam intranacionais, não é?

Posso estar errado, mas enquanto artistas como Sony, Pelé e Martina não forem entendidos como as estrelas que devem ser prioridade do nosso investimento, nosso espaço e nossa escuta, permaneceremos com o quadro paradoxal de altas cifras convivendo com atraso e secular submissão.

Henrique Rodrigues nasceu no Rio de Janeiro, em 1975. É formado em Letras pela Uerj, com especialização em Jornalismo Cultural pela Uerj, mestre e doutor em Letras pela PUC-Rio. Já foi atendente de lanchonete, balconista de videolocadora, professor, superintendente pedagógico da Secretaria de Estado de Educação do RJ e coordenador pedagógico do programa Oi Kabum!. Trabalha na gestão de projetos literários no Sesc Nacional. É autor de 20 livros, entre poesia, infantis, juvenis e o romance O próximo da fila (Record), publicado também na França. Site do autor: www.henriquerodrigues.net

** Os textos trazidos nessa coluna não refletem, necessariamente, a opinião do PublishNews.

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