
Uma das referências estéticas no filme é Ingmar Bergman. Há algo no modo como Trier compõe os interiores (a casa que é quase uma personagem), na proximidade quase invasiva da câmera com os personagens, nos silêncios que falam tanto quanto as palavras. Essa atenção absoluta às emoções contidas, aos gestos mínimos que evidenciam lacunas e desejos não expressos, remete à lição de Bergman de que a intimidade dramática pode ser transformada em espetáculo universal. Trier retoma essa lição com uma consciência contemporânea, quase dolorosa em sua precisão.
O filme é também metalinguístico. A presença do pai das protagonistas, Gustav (Stellan Skarsgård), vencedor do Globo de Ouro na categoria Melhor Ator Coadjuvante por um filme internacional, cineasta em processo de criação, permite que o espectador veja o cinema enquanto acontece. Ele negocia o olhar dos personagens, organiza cenas e lida com a memória pessoal e com a expectativa artística. Dentro do próprio filme, fala-se sobre fazer filme, e em cada decisão de enquadramento ou corte sentimos o peso de quem constrói a narrativa, o esforço de transformar lembrança e emoção em imagem. O filme nos mostra não só a história das irmãs, mas também o processo de capturar essa história.
Renate Reinsve, no papel de Nora, entrega uma atuação que dialoga com esse processo. Cada hesitação e cada recusa em participar do projeto do pai nos evidencia o quanto a ausência paterna deixa marcas na vida de um ser humano. E que essa lacuna não pode ser reparada de uma hora para outra, o tempo deixa marcas, cicatrizes que perduram.
Umas das cenas mais belas que me emocionou e que me fez chorar foram as irmãs abraçadas sobre a cama, conversando sobre o passado e seus dramas familiares. A irmã mais velha pergunta a mais nova: “Quem diria, você normal e eu maluca. Como você conseguiu sobreviver à nossa infância tão bem e foi tão difícil para mim?". Pergunta e olha para irmã que conseguiu casar e ter filhos, enquanto ela não consegue manter um relacionamento afetivo-amoroso, lida com depressão e já tentou suicídio. A outra irmã devolve o olhar com ternura e responde: "É que eu tive você." As duas se abraçam.
Stellan Skarsgård, como Gustav, encarna o cineasta que se debate entre a criação artística e a responsabilidade afetiva – suas escolhas e ausências –, lembrando que o cinema não existe fora da vida que o produz.
Valor sentimental se torna assim um filme sobre fazer cinema, sobre o que significa traduzir memórias e vínculos em narrativa e sobre a responsabilidade de capturar a verdade emocional sem sacrificar a intimidade dos personagens. É cinema sobre cinema, mas sem didatismo, delicado e sensível, capaz de tocar porque convida o espectador a refletir sobre o que vemos, sentimos e construímos juntos.
O filme permanece mesmo depois da última cena, daqueles que a gente não quer ir embora da sala de cinema e fica ali até que todos saiam. É uma obra que emociona e que também faz pensar sobre a própria experiência cinematográfica.
Vanessa Passos é escritora, roteirista, professora de escrita criativa, doutora em Literatura (UFC) e pós-doutora em Escrita Criativa (PUCRS), sob orientação de Luiz Antonio de Assis Brasil. É idealizadora do Programa 321escreva, do Método Mais Vendidos e do Encontro Nacional de Escritoras. Lidera uma comunidade de escritoras que tem voz em mais de 9 países, orientando centenas de escritoras a escrever, publicar e divulgar seus livros. Autora do volume de contos A mulher mais amada do mundo (2020). Seu romance de estreia A filha primitiva foi vencedor do Prêmio Kindle de Literatura (2021), do Prêmio Jacarandá (2022), do Prêmio Mozart Pereira Soares de Literatura (2023) e vai ser adaptado para o cinema pela Modo Operante Produções, agora publicado pela José Olympio. É colunista do Jornal O POVO e do PublishNews. Nas redes sociais, a escritora pode ser encontrada no perfil: @vanessapassos.voz.
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