
A iluminação contida que oscila entre luz e sombra instaura o tom da peça que tem direção de Rodrigo Portella. O relato de Antônio é fragmentado, trazendo trechos do seu passado (como a cena comovente em que narra Antônio criança, aos quatro anos, diante da TV vendo animais serem mortos violentamente e tem uma crise emocional), presente e futuro, quando finalmente revela o crime que cometeu.
A performance e dramaticidade de Du Moscovis é surpreendente, porque não há cenário para embelezar a atuação. São sua voz, gestos, expressões e silêncios que mantêm a plateia de olho vidrado até o fim do espetáculo. O ator, que já fez outros papéis ligados ao humor, evidencia sua multiplicidade e entrega visceralidade no drama.
Num determinado momento, ele narra a crueldade de modo tão verdadeiro que consegui vê-lo batendo o rosto de Antônio, o homem que mata tem seu próprio nome, no asfalto até que ele se transforme em uma massa amorfa. Ele, que não era capaz de matar uma mosca, revela-nos que o ser humano – e qualquer ser humano – há um lado sóbrio dentro de si, com potência de violência e que pode ir até as últimas consequências. Todos nós podemos nos tornar Antônio e isso é o mais assustador.
A temporada está nas últimas semanas e o ator revela que, após conversar com o público ao final do espetáculo, sua grande maioria confessa que faria o mesmo que Antônio diante daquela situação, que também seria capaz de ser impelido pela raiva irracional e cometer aquele ato brutal.
A peça é incômoda. Todo o relato de Antônio é angustiante, mas o seu silêncio é ainda maior. E, nós, espectadores preenchemos essas lacunas com nossas próprias dores, memórias, suposições e especulações. Sem dúvidas, é uma peça que nos tira do automático e é exatamente por isso que a arte existe.
O conto de Leonardo Netto dá substância para esse texto, que ganha potência em dramaturgia no formato de monólogo, e mostra a relevância do diálogo entre literatura e teatro. A publicação impressa de O motociclista no globo da morte será vendida apenas no Teatro Vivo (R$ 50), mas em breve o texto também estará disponível em versão online.
Serviços:
Local: Teatro Vivo – Av. Doutor Chucri Zaidan, 2460 – Morumbi, São Paulo/SP
Temporada: 20 de março a 29 de março de 2026 (2 últimas semanas da temporada)
Horários: Sexta e Sábado, às 20h | Domingo, às 18h
Classificação indicativa: 14 anos
Duração: 60 minutos
Capacidade: 274 lugares
Bilheteria: (11) 3430-1524 (nos dias de peça, 2h antes da apresentação)
Ingressos: 150,00 (inteira) | 75,00 (meia)
Vanessa Passos é escritora, roteirista, professora de escrita criativa, doutora em Literatura (UFC) e pós-doutora em Escrita Criativa (PUCRS), sob orientação de Luiz Antonio de Assis Brasil. É idealizadora do Programa 321escreva, do Método Mais Vendidos e do Encontro Nacional de Escritoras. Lidera uma comunidade de escritoras que tem voz em mais de 9 países, orientando centenas de escritoras a escrever, publicar e divulgar seus livros. Autora do volume de contos A mulher mais amada do mundo (2020). Seu romance de estreia A filha primitiva foi vencedor do Prêmio Kindle de Literatura (2021), do Prêmio Jacarandá (2022), do Prêmio Mozart Pereira Soares de Literatura (2023) e vai ser adaptado para o cinema pela Modo Operante Produções, agora publicado pela José Olympio. É colunista do Jornal O POVO e do PublishNews. Nas redes sociais, a escritora pode ser encontrada no perfil: @vanessapassos.voz.
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