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O Brasil quer mesmo se ler?
PublishNews, Henrique Rodrigues, 02/12/2019
Em sua coluna, Henrique Rodrigues analisa a polêmica da Flip e o cenário literário atual no país

Confesso que não consigo mais acompanhar o que está acontecendo. E quem consegue? Num intervalo de poucas horas surge uma notícia, a qual é rapidamente debatida, cujas opiniões pululam com tal celeridade, como se todos tivessem nos bolsos comprimidos efervescentes sobre quaisquer assuntos, prontos a jogar no copo de água das redes sociais numa instantânea e imensa sopa de chiados.

Daí que, lento que sou, ao ter algo a dizer sobre determinado fato, descubro que o assunto já caducou, é notícia velha, feito a crônica impressa que, no dia seguinte, estaria embrulhando o peixe da feira ou no fundo da gaiola, recebendo uma titicada à guisa de crítica.

É por isso que não sei se, dias depois de tantas análises acerca da autora homenageada da Flip 2020, este ainda é um tópico válido ou embolorado, já substituído por outro, atualíssimo, prato do dia. Mas vamos lá.

Até semana passada, nunca tinha ouvido ninguém dedicar uma linha contra Elisabeth Bishop. Pelo contrário, é um nome bastante reverenciado pelo meio literário brasileiro, especialmente pelas nossas pequenas elites do setor. Nunca me interessei muito por essa autora, sou mais da linha da Gabriela Mistral, que também viveu no Brasil – talvez por estar ligada à educação. Mas ninguém pediu minha opinião e essa comparação é, convenhamos, bem arbitrária. Sigamos.

Estamos em guerra cultural, num momento histórico que, apesar de entendermos as raízes ao olhar um pouco para trás, era inimaginável há uns anos. A censura às artes voltou com toda força, inclusive nos livros. Quase todas as semanas saem na imprensa novos casos – nem queiram saber dos que não saem – e, se já é um desafio trabalhar para promover a literatura normalmente, agora está ainda mais difícil.

E me parece que, deste lado da trincheira, estamos sempre querendo materializar o inimigo e identificá-lo para, assim, justificar e dar sentido à nossa luta. Às vezes ele está claro, às vezes não, e no afã do que chamo de facebookismo, o estado de alerta está fazendo com que se busque um objeto com olhar único e sem muita reflexão. Em miúdos, facebookismo seria usar a tática da opinião certeira para se ganhar aceitação por clicadas, quanto mais plena de certeza, agressiva e lacradora melhor – ou, como um amigo diz, “jogar pra galera”.

Também não concordo com a escolha da homenagem à Bishop na Flip, por vários motivos. Pelo lado curatorial, quebra-se a coesão do próprio evento em homenagear brasileiros. Pelo aspecto literário, Bishop não é tão relevante quando pensamos em termos de país: temos um cardápio de grandes nomes que renderiam debates muito mais urgentes para a nossa cultura, como Carolina Maria de Jesus, Ariano Suassuna, Cecília Meireles e Francisco de Paula Brito, figura tão importante quanto esquecida. E sim, pela questão política, é bem equivocado celebrar quem se mostrou favorável a um golpe militar, ainda que outros autores homenageados anteriormente também o tenham feito, e ainda que essas declarações não sejam maiores que a obra do artista em si.

Mas, sinceramente, vale lembrar que a Flip não resume, nem de longe, os movimentos literários do Brasil hoje. Ainda que ela seja um fenômeno como acontecimento cultural – já que milhares de pessoas migram para a cidade, pagando muito caro por isso, apenas para aproveitar o evento, algo que não se repete em nenhuma outra realização da área –, a festa de Paraty não deveria ser tão levada a sério quanto é, tanto pela mídia quando pelos leitores.

Desde o início, trata-se de um evento que gira em torno de uma editora, um grande patrocinador, seguindo um perfil bastante similar de curadores – jornalistas/críticos de ou radicados em São Paulo, com poucas variações. Outro fator é que, em todas as edições, mesmo com homenageados brasileiros, os nomes de fora são o prato principal do evento, sempre divulgados gradativamente e com certa pompa, gerando pautas específicas para cada confirmação. Esse ponto sempre me incomodou, porque reflete a nossa subserviência cultural. Aliás, uma coisa é evento internacional, outra coisa estrangeiro. Tenho participado de alguns festivais fora do Brasil, onde, via de regra, os convidados de outros países são um tempero, um complemento que enriquece o debate local. A Flip, por mais que privilegie a língua inglesa, é um festival brasileiro, custeado em sua maior parte por recursos de renúncia fiscal tupiniquim. Mesmo o Folio, realizado em Portugal e inspirado no evento fluminense, tem como programação principal autores lusitanos, não de fora. Mas é como disse na coluna anterior, ao se entrar numa livraria portuguesa, os autores locais estão em evidência. Aqui não.

Outro item que não pode ser esquecido, e se eu estiver exagerando me deem um puxão de orelha virtual que sentirei a dor daqui: há uns bons anos o que mais se ouve nas ruas de Paraty é que a programação não oficial é tão atrativa quanto a principal. E digo isso não porque trabalho numa das instituições que compõem esse grupo, mas porque nelas o artista brasileiro é protagonista de fato, desde mais conhecidos até iniciantes. O esforço hercúleo das pequenas editoras tem contribuído muito nesse sentido, vale lembrar. No fim das contas, minha conclusão é que tudo se soma, e há espaço para todos os gostos. Até porque não é problema algum conhecer autores de fora, muito pelo contrário. Mas desde que se tenha um norte: nosso déficit em relação à leitura é imenso.

O Brasil precisa se ler mais, fazer a cadeia do livro local se fortalecer. E pode ajudar se as pessoas saírem da militância virtual para a real, onde o buraco é mais embaixo. Ver a galera exigindo, no conforto das redes sociais, que a curadoria troque o homenageado da Flip, recorrendo a fake news e atacando a curadora pessoalmente me cheira mais a autoafirmação lacradora do que ao entendimento de que o evento tem autonomia nas suas escolhas. Há muito mais acontecendo na literatura dentro do país que merece atenção.

Em tempo: adoro a Flip, mas nem escondo que meu evento literário preferido hoje é a Flipelô, onde as nossas brasilidades pulsam forte pacas.

Henrique Rodrigues nasceu no Rio de Janeiro, em 1975. É formado em Letras pela Uerj, com especialização em Jornalismo Cultural pela Uerj, mestre e doutor em Letras pela PUC-Rio. Já foi atendente de lanchonete, balconista de videolocadora, professor, superintendente pedagógico da Secretaria de Estado de Educação do RJ e coordenador pedagógico do programa Oi Kabum!. Trabalha na gestão de projetos literários no Sesc Nacional. É autor de 13 livros, entre poesia, infantis, juvenis e o romance O próximo da fila (Record), publicado também na França. Site do autor: www.henriquerodrigues.net

** Os textos trazidos nessa coluna não refletem, necessariamente, a opinião do PublishNews.

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