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O biografado e o editor
PublishNews, Márcio Coelho*, 19/12/2017
Em 2013, quando Marcio Coelho era editor da Nova Fronteira, ele trabalhou a biografia de Gilberto Gil, mas não teve a chance de conhecer o músico. Em 2017, eles se encontraram e Marcio conta como foi.

Cresci ouvindo música com meus pais. Quando não era no móvel de madeira maior do que eu que ficava sala, era no toca-fitas da Variant verde-abacate do meu pai. Roberto Carlos, Milton Nascimento, Chico Buarque, Elis Regina, Maysa, Alcione, Belchior, Gilberto Gil. O tempo passou, já cresci, continuo ouvido música e me tornei editor.

Fazendo umas contas muito rápidas, são 17 anos de mercado editorial, trabalhando, em média, com três livros por mês. Se cada livro tivesse, mais ou menos, 250 páginas, já teriam passado pelas minhas mãos 153 mil páginas. É muito? É pouco? Não sei, só sei que foi assim.

Fazendo um balanço de todas essas páginas, muitas me deram orgulho de ter trabalhado, outras nunca me motivaram, não acreditava nelas, mas como o ofício do editor é realizador, 400 dessas páginas foram um divisor de águas na minha vida.

Quando estive na Nova Fronteira, eu era editor de livros nacionais. Trabalhei em muitos projetos bacanas e interessantes, inusitados, muitas vezes. Ser editor de livros nacionais é poder desenvolver nosso ofício de verdade. Sentar com o autor, rever o original com ele, sugerir mudanças, ouvir e opinar. E foi numa dessas que me chegou a biografia do Gil (Gilberto bem perto, Nova Fronteira, 2013).

O editor e o biografado se encontram em 2017 | © Acervo pessoal
O editor e o biografado se encontram em 2017 | © Acervo pessoal
Escolhi as fotos, editei os textos, montei o livro, defini onde entrariam as letras das músicas, cujos manuscritos originais estiveram nas minhas mãos (chorei muito com isso e me arrepia até agora), ajudei na definição do projeto gráfico e da capa. A única frustração foi o fato de não ter tido contato com a autora, Regina Zappa, nem com o biografado. Mesmo assim, a felicidade de ser editor da biografia do Gil é indescritível.

A vida passou, mais páginas foram viradas, mais livros editados. Mudança para Porto Alegre. Início na TAG, amigos novos, show do Gilberto Gil com direito a camarim. Papo com o Bem Gil, “posso conhecer seu pai?”, neto do Gil me leva até ele. Olho pro Gil, não acredito. Chego perto, ainda sem acreditar, aperto sua mão. Digo que fui o editor do livro dele, ele sorri. Agradeço por tudo o que ele fez na minha vida, “rapaaaaz, não fiz nada”. Fotografia. Fim da noite com choro copioso.

Tudo assim, muito rápido como é a vida, feliz como é ler um bom livro, perfeito como um dia de sol de outono, sinestésico como uma risada gostosa e sensorial como um beijo da minha morena. Ah, Gil, fez, sim. Fez muito pela minha vida.

Marcio Coelho começou a sua carreira como revisor na antiga editora Siciliano e alcançou o cargo de gerente editorial da Saraiva até abrir a hoo, editora especializada na publicação de livros de temática LGBT vendida recentemente à Universo dos Livros. Marcio também passou pela TAG – Experiências Literárias onde exerceu até agosto o cargo de gestor de produtos.

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